Desumanização "Cristã"?

     "Irmãos, não queremos que sejais ignorantes quanto aos que morrem, para que não estejais pesarosos como os demais que não têm esperança." (I Tessalonicenses 4: 13)

    
Essas palavras - proferidas há quase dois milênios pelo apóstolo Paulo - eram fonte de consolo e encorajamento aos cristãos abalados pela perda de um ente querido. A esperança do resgate de Cristo seria o refúgio de seus súditos. Todavia, certos grupos religiosos, ao invés de verem nessa passagem bíblica o que ela, de fato, é - uma expressão de consolo - parecem considerá-la como mandamento. O cristão verdadeiro, por esse entendimento, deveria mostrar-se firme como uma rocha, mesmo diante do falecimento do ser mais amado. Nada de choro desesperado ou de depressão. A pessoa que se mostra muito abalada ou chorosa sob tais circunstâncias pode até ser vista por seus concrentes como "fraca na fé". Contudo, ao invés de trazer real consolo, esta filosofia faz pesar sobre os ombros já combalidos daqueles que perdem um ente querido a responsabilidade adicional de parecerem "fortes" perante a igreja, sem dúvida uma pesada sobrecarga. O resultado - seres humanos reprimidos em suas emoções, interpretando um 'papel' que não corresponde à realidade. Pessoas que, por trás do rótulo de "cristãos", ocultam uma personalidade gradualmente desumanizada e uma mente judicial - tudo produto de um processo perene de doutrinação que parece enfatizar obras "organizacionais" meritórias muito mais do que a fé e o amor verdadeiros do primitivo cristianismo.

     Muitos dentre as 'fileiras' das Testemunhas de Jeová têm se sentido exatamente assim. Sentem que a religião, ao invés de tê-los tornado mais amáveis e sensíveis, mais sociáveis - ao contrário - endureceu-lhes a cerviz, fazendo com que desenvolvessem uma personalidade similar à dos antigos espartanos. Essa estranha noção de misericórdia 'programada' tem abalado a consciência e até a saúde de pessoas de índole sensível. Há pouco tempo, em nossa mail list, recebemos uma impressionante e comovente mensagem de uma dessas pessoas. Acompanhe seu notável depoimento:

     Caros amigos,

     Há duas semanas perdi meu tio, ele morreu. Em seu velório, eu lamentei muito sua morte, sentei e, após baixar a cabeça, chorei muito. Cheguei até a soluçar. Os dias que se passaram foram tristes e cinzentos. Fiquei bastante deprimido, senti que havia perdido alguém importante.

Talvez alguém diga:

     - E o que há de extraordinário nisso? Sempre que perdemos alguém amado, choramos e lamentamos nossos mortos. O próprio Jesus Cristo lamentou a morte de seu mui amado amigo Lázaro. Não entendo o que há de original nisso.

     Para ser franco, estou muito feliz de ter chorado e lamentado meu tio, pois essa foi a PRIMEIRA vez em toda a minha vida em que chorei a morte de um parente amado. E sabem por que foi a primeira vez ? Porque durante todo o período em que fui Testemunha de Jeová - isto aconteceu quando eu tinha apenas 13 anos - tive que aprender a "podar" meus sentimentos. Tive que aprender a não expressar sentimentos. Como?

     Imagine se você fosse uma criança de 13 anos e um servo ministerial ou um ancião (pastor) lhe dissesse que você não poderia chorar por seus pais "mundanos"  (descrentes) na hora do Armagedom ("fim do mundo") ou você seria destruído junto com eles.

     Imagine se você fosse um jovem adolescente que precisasse sair, ter amigos e lhe dissessem que ter por amigos aqueles que não fossem Testemunhas de Jeová, mesmo tratando-se de parentes, isto lhe impediria de ter a salvação.

    Imagine-se gostando de uma moça Testemunha de Jeová, como você, e ser impedido de namorá-la porque você é apenas um jovem de 15 anos e não tem idade para se casar.

     Imagine-se feliz da vida por causa de algo bom que aconteceu e desejoso de dar um grande abraço naquela sua amiga tão amada, mas não fazê-lo porque isso é considerado tabu entre as Testemunhas de Jeová.

     Imagine-se pregando de casa em casa e uma pessoa muito bondosa e educada não aceita sua religião porque ela já tem uma. E você tem que aceitar e se contentar com a "DESTRUIÇÃO" daquela pessoa porque sua religião é a única verdadeira na face da terra.

     Imagine-se não participando em festas de aniversário, casamento, dia das mães, dia dos pais, junto de seus familiares e tendo que afogar todo o sentimento e desejo de estar junto daqueles a quem tanto amamos, pois, de outra forma,  seremos destruídos por Deus.

     Imagine tudo isso e você compreenderá porque estou feliz de ter chorado pela morte do meu tio.

     Foram anos de terapia para me conscientizar de que minha depressão, síndrome do pânico e transtorno de ansiedade vinham do aprisionamento dos meus sentimentos. Aprisionamento incentivado pela religião a que eu pertencia.

     A religião me fez ser uma pessoa dura, insensível, autojusta, sem amor e consideração pelo meu próximo.

     Tolhi meus desejos de forma louca e insana, pois tinha medo do pesado julgamento de Deus.

     Agora que abandonei a Sociedade Torre de Vigia,  posso gritar de felicidade. Agora sou uma pessoa feliz. Continuo sendo cristão, creio em Deus e no sacrifício resgatador de Cristo.  Espero um mundo melhor por parte do governo de Deus, embora não saiba exatamente como isso se dará e qual será a esperança de cada um.

     Não sei exatamente para onde vou, mas sei exatamente para onde não quero voltar. Sei que eu era apenas, como disse Paulo, "um pedaço de latão que ressoa ou um címbalo que retine" - agora não sou mais. Tenho vida dentro de mim. Sou alguém que se conhece e reconhece. Não sou mais um molde programado por uma religião despótica, opressiva, coercitiva e ditatorial. E tudo isso ela faz em nome de Deus, em nome da "teocracia".

     Sei que as programações da Sociedade Torre de Vigia são difíceis - mas não impossíveis - de desfazer. Eu consegui e muitos conseguirão também, como outros já conseguiram. Espero que aqueles que passaram pelo que passei possam chegar até onde cheguei e encontrar a "liberdade gloriosa dos filhos de Deus", pois nosso mestre disse:

      "Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará."


      Atenciosamente,

      Alex Tavares, ex-Servo Ministerial
     Congregação Rio Branco - BH/MG

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