Apresentação

                 

 

     Prezado Visitante

     Antes de tudo, seja muito benvindo a esta Home Page. Sinto-me honrado e lisonjeado por sua presença.  Sinceramente, espero que as informações aqui contidas representem uma contribuição à sua consciência como ser humano e como cidadão. Pelo menos, esse é o meu objetivo.

     Estou certo de que o público a que minhas informações se destinam é restrito, apesar de eu crer que elas seriam de enorme valor para as pessoas em geral.  De fato, a maioria das pessoas não costuma manifestar interesse significativo nas assim chamadas minorias religiosas, exceto quando estas se fazem notar nos  órgãos da mídia. Mesmo diminutas em número de membros, algumas destas minorias já deixaram marcas profundas na lembrança de todos nós. Por exemplo, o episódio  ocorrido na Guiana Inglesa, em novembro de 1978  -  onde mais de 900 seguidores do Reverendo Jim Jones cometeram suicídio em massa e envenenaram seus filhos  -  chocou o mundo inteiro e ocupou boa parte dos noticiários. Apenas um prólogo, pois, uma macabra sucessão de sacrifícios humanos daria continuidade ao morticínio nas décadas seguintes. Em abril de 1993, outro grupo religioso minoritário, desta vez os seguidores  de David Koresh, Texas – EUA, seguiram o mesmo exemplo, ateando fogo ao seu quartel general, a esta altura já cercado pelo FBI. O saldo foi de mais de 80 mortos.  Cerca de sete anos depois, notícias infaustas, chegadas da longínqua Uganda-África, davam conta de outra carnificina  - cerca de 500 seguidores de Joseph Kibwetere fizeram-nos reviver Jonestown, ao repetirem o mesmíssimo tresloucado gesto, a saber, o suicídio coletivo.  Entre os anos de 1978 e 2000 foram registrados, ao redor do mundo, nada menos que nove suicídios em massa relacionados a cultos ou seitas. São números preocupantes. Tais exemplos deixam claro – de forma trágica – o poder persuasivo que uma liderança religiosa pode exercer sobre seus fiéis e, neste respeito, ensinam-nos duras lições.  

 

           David Koresh 

  O massacre de Waco-Texas 

Uganda  - a volta do pesadelo

                   

 

     A política também nos mostra casos extremos de persuasão das massas. Tomemos como exemplo a Alemanha dos anos 20 - naquela época, o partido Nacional Socialista (ou nazista) também constituía uma minoria inexpressiva, até que, em 1933, Adolf Hitler subiu ao poder e conduziu com habilidade o povo alemão, de modo a segui-lo em sua loucura por “espaço vital”. O resultado não poderia ter sido pior: o massacre daqueles a quem Hitler escolhera como 'bode expiatório', a saber, os judeus. Cerca de 6 milhões deles foram mortos entre 1933 e 1945 -  um episódio dramático que veio a ser conhecido como 'holocausto'. Paralelamente, teve lugar a maior hecatombe do século 20, a II Guerra Mundial. A ação diabólica do III Reich resultou, em grande parte, da espetacular percepção que Hitler tinha da psicologia das massas. O ditador está morto. Todavia, as técnicas de persuasão empregadas por ele continuam vivas até hoje na política e na religião.

 

1933-1945

6 milhões de vítimas

 

     O fatídico dia de 11 de setembro de 2001 estará gravado para sempre na memória da humanidade. Nele, o mundo foi abalado pelo mais devastador ataque-surpresa desde Pearl Harbour (Havaí, 1941). Dezenove terroristas suicidas - prováveis seguidores do líder islâmico Osama bin Laden - sequestraram quatro aeronaves e atacaram os símbolos maiores do poderio militar e econômico norte-americano: o pentágono e as torres gêmeas do World Trade Center, estas últimas no centro financeiro de Nova York. Estimativas iniciais  apontaram para cerca de 6 mil mortos - número posteriormente corrigido para 3 mil. O que estava por trás desses ataques? Resposta: o fundamentalismo religioso. Anotações de um dos terroristas diziam:

"Todos odeiam a morte, temem a morte. Mas só aqueles, os crentes que sabem que há vida após a morte e a recompensa da vida após a morte, serão os que buscarão a morte."

     Naquela trágica manhã de terça-feira, o mundo conheceu o terrível significado por trás dessas ameaçadoras palavras. O que representam elas, senão a expressão de uma ideologia religiosa? Conforme vimos, não é incomum que fanáticos religiosos prefiram a morte à vida. Também é fato que as maiores atrocidades foram cometidas ao longo da história humana em nome da fé. O cientista Richard Dawkins, em seu trabalho Os Mísseis Desgovernados da Religião, considera que o cérebro obcecado com a idéia de recompensa celestial ao custo da própria vida é uma "arma poderosa e perigosíssima". As evidências parecem indicar que dificilmente as minorias religiosas radicais abrirão mão dessa ferramenta eficaz e letal.

 

New York, 11 de setembro - 3 mil mortos na 'guerra santa'

     

     Estes capítulos da história humana denunciam claramente um fator comum: o controle mental de indivíduos por parte de líderes carismáticos, os quais conseguiram arrebanhar hordas de discípulos, imbuídos de uma credulidade quase hipnótica - pois apenas esta condição explicaria racionalmente tal renúncia à consciência individual em troca de uma conformidade de grupo. O totalitarismo político e o fundamentalismo religioso representam, em essência, o mesmo fenômeno. Sob seu domínio, não há lugar para o livre pensamento e toda oposição é sistematicamente sufocada. Não é por mera coincidência que em diversas nações do mundo a liderança política seja exercida por uma autoridade eclesiástica. Por meio dessa fusão - às  vezes, nefasta - é que algumas ditaduras têm  buscado legitimidade divina para o exercício de sua tirania. Este tem sido o caso, por exemplo, de algumas nações islâmicas.

     Josef Goebbels, ministro de propaganda e amigo pessoal de  Hitler, certa vez disse:

"Este é o segredo da propaganda - ela quer envolver a pessoa, impregná-la com suas idéias sem que ela perceba que é impregnada. É claro que a propaganda tem um propósito. Mas esse tem de ser tão inteligente e virtuosamente escondido que aqueles que devem ser influenciados por esse propósito nem o percebam." (Grifo acrescentado)

     A passagem bíblica em Eclesiastes, cap. 8 e versículo 9, fala de 'homens dominando homens para seu próprio prejuízo'. De fato, os calabouços mentais de algumas organizações religiosas lembram de perto o mundo retratado pelo romancista George Orwell, em sua obra "1984" - mundo este em que se falava de liberdade apenas para destruí-la.

     Assim sendo, esta página visa a analisar técnicas potencialmente perigosas de persuasão e controle de pensamento e informação, exercidas por uma autoridade eclesiástica. Nosso “laboratório” será a entidade religiosa conhecida como Testemunhas de Jeová. A razão de tal escolha provém do fato de eu próprio ter tido a incomum experiência de doutrinação, desde a infância, segundo os preceitos desta denominação religiosa. Conseqüentemente, conhecendo a visão de que alguém que se encontra “do lado de dentro” da instituição,  dificilmente seria uma presunção minha afirmar que estou apto a “dissecar” o assunto com conhecimento de causa. Além disso, o caráter fundamentalista da referida entidade torna o seu mecanismo de persuasão bastante similar àquele dos cultos em geral. Paralelamente, investigarei diversos assuntos teológicos ligados aos ensinos desta denominação religiosa, bem como seus métodos enquanto religião e instituição oficial. Desta forma, você, visitante, estará apto a avaliar por si mesmo a influência do conselho supremo de uma religião e seu dramático poder sobre a vida de mais de 6 milhões de seres humanos - o contingente aproximado de Testemunhas de Jeová ao redor do mundo na época de criação deste sítio. 

     Antes de tudo, quero expressar a você, visitante, meu sincero  respeito por seu credo ou religião, não sendo meu objetivo melindrar sua consciência nem praticar aqui qualquer espécie de proselitismo ou perseguição religiosa.  Nem o de expressar qualquer desdém pela consciência de uma pessoa que, em um leito hospitalar – julgando estar cumprindo um dever sagrado para com Deus – rejeita uma medicação, às vezes a única capaz de salvar sua vida,  em nome de uma crença religiosa. O que pretendo investigar aqui é a forma pela qual ela chega a tomar “emprestado” este tipo de convicção  – peculiar a um grupo hermeticamente fechado – por um caminho que certamente não representa o livre exercício da liberdade de pensamento. E como chega a conclusões (às vezes, bizarras) às quais jamais chegaria por si mesma, a não ser por um processo de doutrinação religiosa – persistente, persuasivo e irrealista - processo este que diversos especialistas classificam como lavagem cerebral. Não me parece justo que uma pessoa, nestas circunstâncias, assuma – sozinha – a responsabilidade pelas consequências de tais atos e que, ao mesmo tempo, qualquer instituição que assuma o papel de guia espiritual de milhões, escape ao pesado ônus que isto implica perante a humanidade.

     Os princípios democráticos impõem - e apropriadamente - a liberdade de pensamento e de convicção religiosa. Por isso, o caminho do livre convencimento deve nortear a opção ideológica de cada cidadão, ainda que, ocasionalmente, tal convencimento possa ser atingido por meios ilegítimos ou até pervertidos. A consciência individual é um atributo inalienável, assim como o pensamento independente. Nenhum ser humano ou sistema tem o direito de suprimi-los. Por conseguinte, julgo apropriado expor, neste momento, os objetivos de meu trabalho - até mesmo para evitar que o leitor me julgue equivocadamente, supondo que eu endosse medidas repressoras contra o sentimento religioso.

     O que eu DEFENDO:

     1) Que o estado atue como guardião da boa fé e da integridade física, mental e patrimonial públicas ao mesmo tempo em que defende as liberdades constitucionais (inclusive a de religião). Isto pode incluir investigações por parte do Ministério Público toda vez que uma entidade, religiosa ou não, viole os direitos humanos, seja alvo de denúncias bem fundamentadas ou explore a credulidade alheia com fins de ganho desonesto (até porque isto é crime definido em lei). Um estado livre não significa um estado apático nem inerte diante dos crimes graves que são praticados sob o disfarce da religião.

     2) Que as instituições religiosas prestem conta ao estado sobre suas atividades financeiras, seja na forma de declaração de renda (ainda que com isenção fiscal concedida pelas autoridades) ou na forma de imposto sobre seus lucros, sem privilégios (até porque o próprio cristianismo incentiva o pagamento de tributos).

     3) Que a sociedade invista em educação e condições dignas de vida, de modo a proteger seus cidadãos do fanatismo ou do abuso religioso.

     4) Que haja transparência na condução de instituições religiosas ou filantrópicas, de modo a coibir a ação de estelionatários - os quais exploram a credulidade pública com o fim precípuo de enriquecimento - ou operações ilegais com dinheiro obtido dos fiéis.

     5) Que toda e qualquer religião respeite a Declaração Universal dos Direitos Humanos (ONU, 1948).

 

     O que você vai ler agora é o meu próprio relato, como recém-ingresso em uma mail list de membros e ex-membros das Testemunhas de Jeová, no primeiro semestre do ano de 1999. Mais informações sobre esta lista poderão ser obtidas no ícone “Mail List”, situado na primeira página deste sítio. O conteúdo da mensagem tem tom de desabafo e, como tal, está carregado de amargura, pelo que peço a compreensão do leitor (eu próprio tive, em retrospecto, de fazer tal concessão à pessoa traumatizada que eu era naqueles dias).  Esse é um sentimento comum a quem experimenta o desapontamento religioso, de modo que ter me expressado como o fiz - hoje eu sei - foi parte de uma catarse. Ademais, faltava-me, à época do depoimento, a serenidade que só o tempo e o amadurecimento trazem. Na atualidade, certamente não me expressaria dessa forma 'apaixonada', seria mais sóbrio e objetivo. Nem por isso, creio, o relato deixa de expressar dramas pessoais vividos silenciosamente por muitas Testemunhas de Jeová neste exato momento.  A onda de depoimentos dramáticos similares que tenho acompanhado desde então parece comprovar este ponto de vista. Nos últimos tempos, muito tenho aprendido sobre o abuso religioso, especialmente no tocante à melhor forma de abordar  tais  assuntos junto  a pessoas que talvez ainda não  estejam preparadas para a gravidade das denúncias que tenho a fazer. Procurarei seguir este estilo no corpo desta Home Page. Estou aberto a críticas e sugestões, desde que tenham fundamentação e sejam expressas de forma civilizada. 

     Convido você, “internauta”, a revisitar periodicamente esta página. Ela representa, para mim, uma missão de vida e estará sob constante atualização a partir de sua criação. Meu objetivo maior é combater a ignorância, pois ela constitui terreno fértil para o fanatismo.

     Sentir-me-ei gratificado se meu relato puder ser de ajuda a você, visitante. Tenho esperanças de que, de alguma forma, sua experiência se identifique com a minha... 

 

Minha Experiência Pessoal (1999)

 

"Prezados companheiros (TJ ou ex-TJ),

Há bem pouco tempo ingressei neste fórum, a partir de informações de amigos (antigos e novos). Devo confessar-lhes que as informações que obtive a partir deste, bem como de outros sites, impressionaram-me de tal forma, que cheguei a dedicar seis horas diárias, em média, "navegando" neste autêntico mar de informações, coisa que jamais fiz em relação às assim chamadas "boas novas". É irônico, pois só agora descobri o que é ter prazer em um 'estudo pessoal'. Durante tantos anos alimentei, no íntimo, o desejo de que as coisas que me oprimiam em nome de Deus fossem um logro, de modo que agora vejo-me tomado de um alívio na alma por ver cair a máscara da Torre, revelando-se a face cruel de seus inescrupulosos dirigentes. Chego às vezes a pensar que, sob a égide da religião, são geradas organizações tão sinistras e maléficas que, comparadas a elas, a 'cosanostra' (máfia) mais se parece com o coral de crianças do Exército da Salvação! Compararia a existência delas àquela situação em que um homem sedento à morte, ao encontrar aquilo que lhe parece ser água, mitiga sua sede ingerindo veneno, o qual o leva a um tipo de morte mais cruel do que aquele a que a sede o levaria...

Durante a maior parte de minha formação, o alimento espiritual que recebi da religião à qual fui conduzido, ainda menino, consistiu fundamentalmente de culpa e medo. Este testemunho é longo, mas peço àqueles que tiverem a paciência de lê-lo, que me contatem, pois talvez tenhamos sentimentos semelhantes a compartilhar.

Bem, mas vamos à minha experiência pessoal:

Nasci em uma família católica e, desde o berço, fui ensinado a ir à missa, frequentar catecismo e utilizar o rosário. De minhas memórias desta época, lembro-me de admirar o trabalho do sacristão na igreja e de uma certa vez que, de tanta curiosidade sobre o sabor da óstia, entrei na fila para recebê-la sem, contudo, jamais ter prestado a 'primeira comunhão'. Meu pai nunca foi muito religioso. Minha mãe, no entanto, oriunda de uma criação severa e despótica, aos nove anos de idade foi conduzida a um internato de freiras alemãs, de onde extrairia sua rígida formação moral e, acima de tudo, sua crônica necessidade de submissão espiritual, visto que aquela instituição mais se assemelhava, segundo ela própria, a um quartel da Gestapo. Tal educação opressora preparou-a para tornar-se, anos no futuro, a presa ideal para a Torre de Vigia. Não foi, senão no ano de 1972, que por infelicidade nossa,  bateu à nossa porta uma senhora muito amigável, dizendo-se membro de uma "organização" que tinha por missão 'declarar as boas novas por toda a terra habitada'. Minha mãe argumentou que era católica fervorosa e que havia sido aconselhada por um padre a evitar a leitura de literatura não católica, ao que a senhora respondeu: " A senhora acha isto justo? Se nem o próprio Deus nos proíbe tal coisa, por que um homem o faria?"

O começo de uma mentira por toda a vida...

Ora, qualquer um sabe que a própria Torre de Vigia faz o mesmo, censurando ou até desassociando aqueles que se permitem tal tipo de investigação.  Entretanto, movida mais pela mansidão daquela senhora (equivocadamente relacionada ao fato de pertencer àquela organização) do que pelos seus argumentos, minha mãe acabou por adquirir uma literatura e aceitar uma revisita. A partir daí, teve contato com 'um certo livro azul' [A Verdade que Conduz à Vida Eterna], o qual haveria de afetar toda a vida da família, inclusive a minha. Sendo eu apenas um menino de nove anos, jamais teria como me defender daquela doutrinação severa que recebi de minha mãe. Meu irmão também foi doutrinado por algum tempo, mas, por ser mais velho do que eu, teve suficiente discernimento para afastar-se daquilo, apesar de ainda ter guardado algumas das neuroses de 'destruição' e 'iniquidade' que esta maligna instituição implanta nas mentes das pessoas. Minha irmã teve mais sorte: sendo uma adolescente e não uma criança como eu, rejeitou tudo desde o início. Meu pai, descrente de tudo aquilo, porém ainda inconsciente de todo o mal que estava por vir, consentiu que prosseguíssemos, apesar de não simpatizar com aquela "seita reacionária".  Passamos a frequentar o 'salão do reino' (para se destacar das demais, as TJ evitam os termos mais comuns, tais como igreja, templo etc.). Embriagados com toda aquela saraivada de "novas luzes", tornamo-nos fantoches da Torre de Vigia, desconhecendo a quase totalidade de sua história passada de falsas profecias, as quais eram 'mascaradas' de 'iluminação gradual', 'vereda dos justos' e coisas assim...

Sequioso por aceitação e encorajado pelo exemplo de outros da minha idade, tratei de ir para o serviço de 'campo' (pregação) com minha mãe e, ao ouvir suas palavras, procurava decorar um pequeno discurso até ser capaz de falar na outra casa. Fiquei emocionado quando o fiz pela primeira vez.  Daí, matriculei-me na Escola do Ministério Teocrático e, desde cedo, todos perceberam a desenvoltura com que eu me expressava do púlpito. Eu sabia da admiração dos outros e adorava isto, pois, desde que me entendo por gente, sempre gostei de ser notado, de chamar a atenção (há algum psicólogo por aí?). Não é difícil constatar que pessoas com problemas de auto-estima são presas em potencial. Pois bem, lembro-me de, após uma sessão de doutrinação em domicílio, partir, junto com meu irmão, para destruir algumas estátuas, adornos egípcios que minha mãe mantinha em nossa estante por anos, e pelas quais fui surrado algumas vezes por quase quebrá-las. Todo aquele delírio foi tomando conta de nós.

Minha mãe batizou-se no ano de 1973 (salvo engano de minha parte) e eu decidi fazer o mesmo, pois apesar de ter dúvidas quanto à minha aptidão, vi pessoas com pouquíssimas virtudes entrarem naquela verdadeira "febre de teocracia" (na verdade, "sociocracia"), especialmente em vista da proximidade do ano de 1975, outra falsa profecia, mas a única que eu viria a experimentar em minha vida pessoal, já que as anteriores haviam sido cuidadosamente ocultadas por meio de omissões e eufemismos. Assim, batizei-me em 30 de Novembro de 1974, no congresso "Propósito Divino", no qual foi apresentado drama sobre a vida do apóstolo Paulo, interpretado pelo canastrão J. "fariseu" Negreiros, um dos 'baluartes' da organização. Foi o início de um equívoco com consequências até os dias atuais.

Impelido pelos últimos vestígios de racionalidade que ainda havia em mim, jamais cheguei a ter qualquer cargo na congregação e cursei a faculdade, apesar da organização desaconselhar isto. Lembro-me de um episódio ridículo, onde tive que me aconselhar com um ancião (outra vítima) sobre se era correto ou não usar certa roupa, com a qual meu pai havia me presenteado. Desta pífia reunião fui informado de que tal vestimenta não era apropriada para um cristão. De fato, por esta época, a tal sociedade influía até no comprimento e textura adequados à roupa de um membro da congregação. Coisas como biquínis eram proibidos e considerados sinal de 'fé fraca'. Segurar as mãos, abraçar ou beijar eram tidos como conduta desenfreada ou algo assim, de modo que os casais eram policiados.

Uma certa vez me fora dito que eu estava a comportar-me indignamente nas reuniões pelo simples fato de segurar a mão da namorada durante o cântico. Cerca de dois anos depois, vi-a em abraços e beijos com o próximo namorado bem em frente aos anciãos, sem ser repreendida. Lembro-me de um superintendente de circuito de nome J. Fares, que, pelo olhar severo e dureza no agir, mais me lembrava um chefe nazista de campo de concentração. Sua pobre esposa era frequentemente repreendida por ele diante de outras pessoas e esta tirania era exercida em nome da chefia do marido, o assim chamado "cabeça" do casal. Sua severidade nos parecia com fervor espiritual. Já por esta época vi indivíduos simplórios, despreparados, semi-analfabetos e moralistas serem nomeados servos ministeriais ou anciãos, ensinando da tribuna suas próprias opiniões, mescladas com textos bíblicos. Lembro-me de ser continuamente submetido a vexames na escola por pertencer a uma religião, no mínimo, exótica. Deboches já faziam parte de meu cotidiano. Nas reuniões eu era exortado a perseverar e encarar aquele sofrimento como parte da vida de um cristão verdadeiro. Entretanto, hoje sei que minha dor não serviu à edificação de ninguém, pois eu não estava sofrendo 'por ser cristão', mas por ser estranho, diferente. Durante todos aqueles anos não me lembro uma pessoa sequer que tenha sido convertida ou ajudada espiritualmente em razão do meu exemplo. Minha recusa a ir a festas ou celebrações ou a entoar canções patrióticas não serviu a causa alguma, só fez dar aos outros a certeza de que eu era um 'anormal' e como tal eu era tratado. Na verdade, eu era apenas um jovem cuja adolescência havia sido roubada. Não namorei como os outros de minha idade, não dancei, não fui a festas, exceto as insípidas 'reuniões de jovens'. Tais coisas, consideradas outrora como sendo "do mundo", nada mais são do que parte da vida normal de um adolescente e não tê-las praticado não me tornou uma melhor pessoa nem mais feliz.

Ao completar dezoito anos, chegou a época do alistamento militar.  Desenhava-se aí a primeira consequência civil grave sobre minha vida. Durante os mais de catorze anos em que estive naquela organização, não me recordo de ter assistido a um único discurso que explicasse o pleno significado de uma eximição do serviço militar e a consequente cassação política. Na verdade, nem sabíamos o que era isto. Quando indaguei dos anciãos sobre isto, diziam-me que significava apenas não votar ou ser votado. Ora, eu não planejava ser candidato e nem me seria permitido pela própria religião, de modo que não me preocupei. Na época da convocação meu pai tomou conhecimento real do fato e ficou em pânico. Fomos a um ancião considerado 'esclarecido', o Sr. S. Silvestre, já falecido,   e este repetiu o que outros haviam dito, acrescentando "apenas" o fato de que eu jamais poderia assumir cargo em consequência de concurso público. Meu pai argumentou que muitos da organização usufruíam pensões ou aposentadorias provindos exatamente desta fonte espúria. O ancião retrucou que tratava-se de "direito adquirido", recorrendo por conveniência aos princípios da lei de "César" (uma referência aos dizeres de Jesus Cristo, "Dai a César o que é de César"). Meu pai, indignado, retirou-se da sala e eu fui encorajado a agir "de acordo com minha consciência". Ora, minha consciência era aquela que eles haviam implantado em mim! Era como dizer: nós ensinamos, caso você não obedeça, será destruído, mas a escolha é sua, não nossa...

Apenas anos à frente eu seria capaz de discernir o que o meu aflito pai queria dizer. Com o tempo, pude constatar que eu vivia numa sociedade de castas: "pequeno rebanho", "grande rebanho", pioneiros, servos, anciãos e, como se não bastasse, cassados e não cassados. Ou seja, aqueles que tinham tido a sorte (?) de ingressar na organização acima de dezoito anos de idade, possuíam sua carteiras de reservista e usufruíam privilégios junto ao estado, ocupando cargos em empresas públicas e até em procuradorias. Quanto aos demais, inclusive eu, éramos privados de nossos direitos como cidadãos.

Lembro-me de, no íntimo, lamentar ter sido convertido ainda menino e confesso nunca ter compreendido bem como alguém pode ter, ao mesmo tempo, a 'marca de Deus' por ser cristão e, possuindo um documento onde se diz ser ele reservista das forças armadas, ainda  considerar-se limpo da 'marca da fera'. Até hoje conheço indivíduos que se beneficiam de renda desta fonte, sem a ela renunciar em razão de sua consciência. Apelar para o direito adquirido pode fazer sentido do ponto de vista dos homens, mas e do ponto de vista da Bíblia? Por exemplo, se um recém convertido trabalhou a vida inteira em um bordel, pode ele usufruir da renda proveniente desta fonte sob a alegação do direito adquirido e, ainda assim, considerar-se 'limpo' das coisas do mundo? Será que as forças armadas,do ponto de vista da organização, são menos condenáveis do que um prostíbulo? Além disso, não é desonesto manter a carteira de reservista e seus privilégios, quando se sabe que, em caso de convocação, estas pessoas desertarão? Ao estado se diz uma coisa, mas a Deus se diz outra?

Estas pessoas, na verdade, usufruem dos benefícios do estado o qual renegam por sua crenças, sem no entanto, render ao estado o devido ônus. Jamais vi, em todos os anos em que lá estive, um único destes pretensos "cristãos" renunciar a seus privilégios civis em consideração aos milhares de jovens cassados entre suas fileiras. Apesar da desculpa de tratar-se de questão de "consciência", nunca conheci alguém capaz de se negar por a mão neste dinheiro "duvidoso", ou seja, a exemplo da famosa "lei de Gérson", a assim chamada consciência só opta pela vantagem. Eu mesmo conheço anciãos que recebem proventos oriundos de empresas do estado e das forças armadas. Se alguém duvida, experimente solicitar a algum cristão "fervoroso" que possui carteira de reservista que a exiba e leia o que nela está escrito e verá "Ministério do Exército -- Reservista n.º xxxxxx. Apresentar-se imediatamente em caso de convocação". Pergunte-lhe se tal documento não compromete sua neutralidade cristã e dele obterá a mesma resposta há muito fabricada, a saber, isto provém dos "tempos da ignorância" e trata-se agora de direito adquirido. Por que nenhum deles vai até o órgão das forças armadas onde se alistou e pede para dar baixa naquele documento espúrio do ponto de vista da organização? Hoje, após a liberação do serviço alternativo, o qual não me beneficiou, fruto do contínuo acender e apagar de "novas luzes", fico pensando nos milhares de jovens prejudicados como eu, que há mais de dez anos luto para recuperar meus direitos na Justiça, e tantos outros pelo mundo afora, perseguidos presos e até mortos pela irresponsabilidade do tal "escravo fiel", que brinca com vidas humanas sem responder por seus crimes.

O passar dos anos junto à organização só me fez sedimentar mais ainda dúvidas em minha mente. Lembro-me de uma vez ter delatado um senhor confidencialmente por ter acendido um cigarro e, pouco depois o assunto tornou-se de conhecimento público. Na verdade, não me lembro de nenhuma reunião de comissão judicativa cujo objeto de apreciação não viesse a tornar-se do conhecimento de todos. Na minha congregação, todos sabíamos o motivo de tais reuniões e a vida íntima dos "ajudados" era exposta aos demais. Uma vez, eu próprio tomei parte como depoente em uma destas reuniões, cujo assunto era propagado por uma esposa de ancião que era, segundo diziam alguns, "uma verdadeira repórter". No final, saíam prejudicados só as pobres vítimas que se auto-denunciavam com o temor do Armagedom. Até minha mãe, divorciada, foi por anos perseguida por iniciar um relacionamento que alguém bem mais jovem e que era considerado "fraco na fé". Um dos anciãos chegou ao ponto de passar uma tarde inteira sentado à mesa de um restaurante em frente ao apartamento de minha mãe, tentando dar-lhe um "flagrante", ao invés de ir cuidar de suas obrigações como marido e pai de família. Este mesmo hipócrita, de nome M. Cruz, continua no cargo até hoje, apesar de dispor de carteira de reservista e ser funcionário da Caixa Econômica Federal. Incrível - minha mãe, com cinquenta e poucos anos, três filhos e quatro netos, vigiada como se fora uma adolescente prestes a "se perder", tudo em nome da preservação da Organização! Pressionada por todos os lados, sem jamais ter cometido fornicação, minha mãe acabou dando fim ao romance e se entregando ao corpo de anciãos, tendo se sentado na primeira fila no dia de sua repreensão pública. Perseguições como aquela mais fazem lembrar os tribunais do "Santo Ofício", na era da Inquisição. Uma certa N., membro da mesma congregação, era conhecida por sua língua ferina e em muito contribuiu para enlamear a reputação de minha mãe. Esta saiu do episódio ilesa, sem sequer ser admoestada por maledicência. Se isto tudo é amor, confesso que desconheço o significado que esta palavra possa ter...

Ao mesmo tempo sabíamos de relatos de pessoas benquistas  pelos  anciãos por sua posição  social, ocupando  cargos  e  fazendo "generosas" contribuições, tais como o Sr. J. N., doador "generoso" do terreno onde foi construído o salão de assembléias. Eu mesmo estive com este senhor pessoalmente e pude testemunhar a sua forma tirânica de lidar com outros, inclusive com sua pobre esposa (hoje falecida). Até hoje sua reputação, mesmo entre descrentes, não é das melhores. Este, bem como outros exemplos, ilustram bem que tipo de pessoa organizações tais como A Torre de Vigia e outras como a Igreja Universal produzem em nosso meio.

Minha primeira crise de fé se deu por volta de 1986, o que me rendeu meses de depressão, pois o descrédito na organização, para mim, significava descrédito em Deus. Vejam só, estava deprimido por descobrir que iria morrer um dia, igual a todos os demais. Quão despreparado para a vida a Torre de Vigia havia me tornado! Virei um "zumbi", vagando pelos lugares em meio a lamentos e lamúrias. Neste período, eu tinha como companhia a filha de um ancião, de quem todos achavam que eu era namorado.

De fato, se por um lado eu, pressionado pelo excessivo rigor da congregação, evitava me comprometer com as mulheres, por outro lado não conseguia me privar da companhia delas, o que me valeu um reunião de aconselhamento. Isto só precipitou os acontecimentos. Uma das jovens cuja casa tive de parar de frequentar, pouco tempo depois de meu afastamento, foi forçada a um casamento infeliz com o aval dos anciãos, os quais aconselharam a mãe da jovem a não recebê-la em casa, caso esta se separasse. Hoje vive mais esta vítima só, abandonada pelo marido e família e com dois filhos para criar. Onde está o tão alardeado "amor cristão"? Ninguém da organização, até este dia, foi em socorro dela. Na verdade, comentam que ela está apenas a colher os maus frutos que plantou. Eu pergunto: "frutos" dela ou da organização? Apesar do conselho desumano dado à mãe desta jovem, é público e notório que um ancião desta congregação - ao meu ver, num ato de humanidade - recebeu sua própria filha desassociada e separada do marido, tendo-lhe construído um quarto exclusivo em sua casa.

Farto de tudo aquilo, cansado das incoerências da Torre de Vigia, a qual imputa isto tudo à imperfeição, acabei por fim por ficar inativo no ano de 1988. Para não ser perseguido por anciãos, passei a fazer falsos relatórios de campo, já que eles costumam medir a fé das pessoas pelas aparências e por números. Não conto as vezes em que, ao acordar pela manhã, torcia para chover e assim não haver serviço de campo. Não conto o número de vezes que fiquei em devaneios, torcendo para aquela reunião acabar e eu estar livre para ir para meu quarto. Como eles são guias cegos, nada perceberam e, se perceberam, não me procuraram. Só relutei ainda por causa de minha mãe, sobre cujos ombros eu queria evitar lançar o fardo da meu afastamento. Certa vez ela saiu do salão de reunião aos prantos. Eles a incapacitaram de libertar-se a si própria e eu vivia no dilema de manter as aparências para não magoar minha mãe e perder todos os amigos ou afastar-me em definitivo daquela que eu há muito já compreendera NÃO se tratar da organização de Deus, se é que existe tal coisa. De modo que me sentia um renegado, um condenado, um cadáver ambulante aguardando a hora da minha sentença pela mão do tirânico Deus que eles me deram a conhecer.

Hoje, ao constatar toda a podridão que surge como um câncer a cada vez que se faz um "biópsia" no corpo da Torre de Vigia, disponível a quem tiver coragem de ver por si próprio, neste ou em outros "sites", com provas materiais, depoimentos, documentos e gravações, começo a me indagar como pude estar tanto tempo sob o controle de uma organização despótica, travestida de "a verdade" e utilizadora dos mesmos métodos do Dr. Goebbels (ministro da propaganda nazista), ocultando fatos, filtrando informações e fazendo jogos de palavras. Penso nos muitos que devem hoje sentir-se como eu me sinto, enganado, traído e entregue à própria sorte. Penso nas cicatrizes perenes nas vidas de outros que, como eu, dedicaram sua juventude e vigor à causa do nada e que hoje não sabem o que fazer de suas vidas, escolhendo até por lá permanecer, pois até seu instinto de sobrevivência lhe fora subtraído, junto com sua consciência. Penso em todas as "Marias" e "Josés" que abriram mão de empregos, carreiras, projetos de vida e até do convívio natural de seus parentes consanguíneos para se dedicar a uma instituição discriminadora, arianista, alienadora, opressora e hipócrita. É a estes que dedico meu testemunho, na esperança de poder ajudar a libertar alguns, pois quem salva uma só vida, salvou o mundo inteiro.

Esta é a minha experiência.

Tenho lido neste fórum sobre o relato de alguns que estão no mesmo estágio em que eu estive um dia, cônscios da realidade, todavia sem forças para fazer o que deve ser feito, seja pela perda de amigos, que, na verdade, não são amigos, pois sua amizade é condicional, seja por um temor abstrato e infundado que a organização passou a implantar em suas mentes. Eu entendo estas pessoas e lamento por elas. Estão presas à Torre de Vigia do mesmo modo que um viciado está preso ao traficante. A estas pessoas eu me solidarizo e a elas digo: Talvez não saibamos para onde ir. Mas, com certeza, sabemos para onde não queremos voltar...

Por Deus, não vendam suas almas aos mestres do engodo, aos fariseus dos dias atuais!"

 

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