Assuntos Médicos e as Testemunhas de Jeová
"A Sociedade não faz recomendações nem decisões para outros referentes a práticas de medicina.. no entanto, quando certas práticas têm aspectos questionáveis... pode-se trazer isto à atenção."
A Sentinela de 15 de Dezembro de 1994, pág. 19
"Para nutrir e instruir seu povo, o Senhor tem usado as publicações da Torre de Vigia. Homem nenhum recebe os créditos pelas maravilhosas verdades que o Senhor tem revelado ao seu povo por meio das publicações da Torre de Vigia."
A Sentinela de 1 de Dezembro de 1933, pág. 263 (em inglês)
"Você encontrará informação valiosa nas publicações mais antigas."
Nosso Ministério do Reino de Janeiro de 1988
Este artigo recebeu destaque por parte do autor do site 'Torre de Marfim', tendo sido traduzido para o espanhol e adaptado. Visite aquela página e veja o resultado clicando aqui.
*Índice
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A Idade de Ouro (1919-1936) |
Consolação (1937-1945) |
Despertai! (1946-hoje ) |
"[A revista] 'Despertai!' visa ao esclarecimento de toda a família. Mostra como enfrentar os problemas atuais. Veicula as notícias,...examina a religião e a ciência."
Prefácio da revista Despertai!
Segundo as palavras acima, a revista Despertai!, publicada pelas Testemunhas de Jeová, exerce um relevante papel junto aos seus leitores, pois propõe-se a prover-lhes 'esclarecimento' e informação confiável sobre assuntos científicos, entre outros. É certamente uma grande responsabilidade aquela que pesa sobre os ombros dos editores de uma publicação que chega às mãos de milhões de pessoas leigas, ávidas por informação - o caso da publicação ora em apreço -, especialmente se seus artigos tiverem repercussão direta sobre os hábitos e a saúde de seus leitores. Tal responsabilidade torna-se ainda mais séria quando paira sobre tais informações o peso de uma respeitável autoridade religiosa.
Passados mais de 80 anos desde sua criação, e após duas mudanças de nome (ver gravuras acima) a revista Despertai! é hoje a segunda mais conhecida publicação das Testemunhas de Jeová (logo atrás de sua 'companheira', a revista A Sentinela). De um humilde começo nos anos 20, tal compêndio (quinzenal) alcança hoje uma tiragem acima de 18 milhões de exemplares por edição, tendo sido traduzido para mais de 80 idiomas. Caso consideremos mais de um leitor por exemplar - dedução razoável, já que famílias inteiras adquirem uma única revista para o uso de todos os seus membros -, concluiremos que este contingente equivale à população de diversos países do mundo, para cada edição da revista. São números invejáveis! Neste artigo analisaremos os fatores que levaram essa publicação a se tornar um grande sucesso de público e, paradoxalmente, um dos compêndios mais combatidos por personalidades ilustres do meio científico, incluindo-se aí membros de respeitados institutos de pesquisa médica.
Para aqueles familiarizados com o formato atual dessa publicação, é notável a freqüência com que seus editores, de fato, publicam matérias semelhantes às de outras revistas populares voltadas para assuntos científicos - artigos repletos de gravuras e infógrafos. As próprias Testemunhas de Jeová são exortadas em seu serviço de porta em porta a apresentar Despertai! como uma revista que trata, entre outras coisas, de matérias geográficas, científicas e históricas. Uma espécie de meio-termo entre um compêndio religioso e um científico. Há relatos de estudantes que utilizaram com êxito matérias da revista no cumprimento de tarefas escolares, tendo sido elogiados por seus professores. Não é incomum encontrar na seção "De nossos leitores" mensagens de pessoas se dizendo beneficiadas por informações médicas extraídas dos exemplares da revista. Diversos artigos - não se pode negar - foram de real proveito, tendo exposto temas científicos de maneira prudente. Mas, foi sempre assim? Quão exatas têm sido as matérias sobre ciência lançadas durante as oito décadas de existência da revista? Tiveram os editores dela sempre a necessária cautela ao tratarem de assuntos ligados à saúde? Pautaram-se sempre na ética científica e na necessária isenção? Mais que isso, teria a referida publicação, em alguma época de sua existência, endossado crendices populares ou práticas anticientíficas, potencialmente perigosas ao público? Teriam as idéias pessoais ou preconceitos de seus editores exercido alguma influência sobre os artigos publicados? Essas indagações certamente merecem respostas.
Um exame na história da revista poderá lançar uma luz sobre o assunto.
1919 foi um ano portentoso para o movimento religioso conhecido como 'Estudantes da Bíblia' (atualmente 'Testemunhas de Jeová'), afinal o dia 25 de março daquele ano assistiu à libertação de seu presidente J. F. Rutherford, bem como sete colaboradores, da penitenciária de Atlanta-EUA, onde se encontravam detidos desde o ano anterior, enquadrados que foram na lei de espionagem norte-americana. Também, em setembro de 1919, foi realizado um grande congresso em Cedar Point - Ohio, no qual foi anunciado o lançamento de uma nova revista - The Golden Age ("A Idade de Ouro").
O livro Proclamadores, publicado pelas Testemunhas de Jeová desde 1993, na pág. 258, relata que o presidente, após o anúncio, declarou aos ouvintes: "...não estareis meramente fazendo a promoção como representantes de uma revista, mais sois embaixadores do Rei dos reis e Senhor dos senhores, ...anunciai a vindoura Idade de Ouro...". Nesse congresso, milhares atenderam ao chamado e se dispuseram a fazer a nova revista chegar a tantos lares quanto pudessem. E assim foi feito. Afinal de contas, os divulgadores da revista - trabalhadores não remunerados - presumiam, à luz do que lhes fora declarado no congresso de 1919, que tal publicação era instrumento do 'Rei dos reis' e 'Senhor dos senhores' - Jesus Cristo - para disseminar verdades sobre os mais diversos aspectos da vida de seus 'embaixadores'. Imbuídos de tal crença foi que eles deram início a essa árdua tarefa. Esse é um dos aspectos relevantes que ajudam a explicar o crescimento astronômico das tiragens da revista até a atualidade, pois, ainda hoje, milhões de trabalhadores voluntários continuam a distribuí-la a dezenas de países do mundo em seu serviço de pregação. As gigantescas gráficas também são operadas por trabalhadores autônomos - Testemunhas de Jeová voluntárias -, o que tem desonerado em muito o custo de produção dos exemplares, permitindo à Sociedade Torre de Vigia aumentar consideravelmente a margem de lucro (por mais pejorativa que a idéia de 'lucro' pareça às organizações religiosas).
Para estar à dianteira desse projeto, foi nomeado editor-chefe de A Idade de Ouro um dos membros da diretoria do presidente Rutherford, seu associado e amigo pessoal Clayton Woodworth - cargo que exerceu até 1946, quando a revista passou a se chamar Despertai!, nome pelo qual é hoje mundialmente conhecida. Sua designação foi um ponto-chave na evolução da revista, já que, conforme veremos, por décadas à frente, as matérias publicadas nas edições de A Idade de Ouro refletiriam, em maior ou menor grau, as idéias de seu editor-chefe, bem como as de seu superior, o 'juiz ' Rutherford. Diversas coisas poderiam ser ditas sobre o Sr. Woodworth, exceto que ele fosse uma pessoa comum. Em 1913, ele compareceu a uma convenção dos Estudantes da Bíblia em Asheville, Carolina do Norte, na qual proferiu um discurso onde relatou experiências passadas de possessão demoníaca. Durante seu testemunho pessoal, ele disse ter estado "sob influência direta de espíritos malignos, com tanta intensidade que, por três dias, esteve sob completo controle demoníaco". É também dele o estranho comentário sobre Apocalipse, contido no livro The Finished Mistery [O Mistério Consumado], de 1917, págs. 126 e 127, onde ele fala de algo como a "base do cérebro sendo prensada tal qual ocorre em um torno mecânico", de "anjos caídos", de "visões", de uma "loucura temporária" e de uma "gloriosa névoa esverdeada ou amarelada". Tais palavras ajudam-nos a reconstituir o perfil daquele que, por quase 30 anos, teria o controle ideológico de A Idade de Ouro.
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C.J. Woodworth : editor-chefe de A Idade de Ouro |
A partir deste ponto, é conveniente situarmos historicamente o instante de lançamento da publicação, a saber, o início dos anos 20 - época em que grassavam muitas crendices populares e conceitos pseudocientíficos, tais como a frenologia, curas psíquicas, terapias esotéricas e coisas assim. Teria A Idade de Ouro endossado alguma dessas crenças? Tal questão parece vital, pois, em caso afirmativo, a idoneidade dos autores da publicação, bem como a suposta bênção de Jesus Cristo sobre seu trabalho certamente estariam sob suspeita. É razoável supor que, sob tal tutela iluminadora, os editores estariam livres de 'contaminações' pagãs, estando assim aptos a manter seu vasto contingente de leitores igualmente protegidos de tais crenças e práticas que nada tem que ver com o cristianismo. O que mostram os exemplares de A Idade de Ouro desse período? Vejamos:
A edição de 5 de Agosto de 1931 da revista The Golden Age, pág. 727, deixa bem clara qual era a concepção da Sociedade Torre de Vigia de Bíblias e Tratados (sede central das Testemunhas de Jeová) sobre a medicina tradicional:
Fazemos bem em ter presente que, entre as drogas, soros, vacinas, operações cirúrgicas, etc., da profissão médica, não existe nada que se aproveite, exceto um procedimento cirúrgico ocasional. Toda a "ciência" (como eles a chamam) procedeu da magia negra egípcia e não perdeu o seu caráter demoníaco.... estaremos numa triste condição quando colocarmos o bem estar da raça na mãos deles.
Seria difícil para uma pessoa informada em nossos dias levar tais palavras a sério. Todavia, elas expressam exatamente a noção de ciência médica que a entidade governante das Testemunhas de Jeová tinha e divulgava. Esta mentalidade prevaleceria por décadas no futuro - até os anos 50 - com mais e mais artigos sobre o tema sendo lançados ao público, de modo a incutir nele uma visão, no mínimo, depreciativa da classe médica. Conforme veremos, paralelamente, uma ampla variedade de 'receitas' e terapias bizarras foram sendo endossadas pela revista, ao passo que a medicina tradicional era constantemente combatida.
Na verdade, se há uma coisa que marcou profundamente a mentalidade da Sociedade Torre de Vigia nesta época, foi a oposição à toda forma de ortodoxia, fosse na medicina ou na teologia. Este fator - combinado à forte personalidade do presidente Rutherford - conferiu às publicações deste período um tom inflamado e agressivo que nem de longe lembra o estilo cauteloso e diplomático hoje presente em Despertai! e A Sentinela. O linguajar desta época era áspero, irônico e por vezes arrogante, granjeando impopularidade para a organização e chegando a suscitar represálias políticas e religiosas contra as Testemunhas de Jeová. Alguns artigos publicados em sua literatura, de fato, deixavam transparecer traços de paranóia contra certas instituições - principalmente a política e a religião. Se houve alguma vez uma Torre de Vigia contenciosa e obstinada, foi, sem dúvida, na era Rutherford que ela teve seu clímax.
A história tem mostrado que a religião em geral cometeu erros gravíssimos ao imiscuir-se na ciência - com conseqüências altamente danosas para a humanidade. Foi assim na idade média e ainda é em algumas partes do mundo hoje em dia. Aparentemente, a Sociedade Torre de Vigia não constitui uma exceção. Prossigamos em nossa retrospectiva.
Mudar os hábitos de um povo - ainda que para seu benefício - não é tarefa fácil. Com o advento da vacinação em massa, as autoridades sanitárias de diversos países - inclusive o Brasil - encontraram forte resistência de diversos segmentos da sociedade, resistência esta que rebentou algumas vezes na forma de insurreições. Obviamente, tal atitude baseava-se na ignorância de muitos e no preconceito contra a medicina ortodoxa e contra as autoridades governamentais. Isto veio a gerar um grave problema de saúde pública. Não foi diferente nos Estados Unidos. Também naquele país, uma parcela da população - apoiada, às vezes, por autoridades religiosas - mostrou-se contrária a esta medida protetora. Foi diferente com a comunidade das Testemunhas de Jeová? Qual foi a postura adotada pela sua organização central? Os trechos abaixo, extraídos de diversas edições de A Idade de Ouro, falam por si mesmos:
“A
vacinação é uma violação direta do pacto eterno
que Deus fez com Noé após o dilúvio. Muito provavelmente existe alguma
conexão entre a violação do sangue humano [vacinas] e a difusão de demonismo...e
imoralidade sexual
- A Idade de Ouro de 4/2/1931,
pág. 293 (em inglês)
“Pessoas ponderadas prefeririam ter varíola
em vez de serem vacinadas, porque as vacinas propagam as sementes
da sífilis, cancros, eczema, erisipelas, scrofula, tuberculose, até a lepra e
muitas outras doenças nojentas. Portanto, a prática da vacinação é um
crime, um ultraje, e um engano.”
- A Idade de Ouro de1/5/1929, pág.
502 (em inglês)
“As vacinas nunca salvaram uma vida humana. Não previnem a varíola.
- A Idade de Ouro
de
4/2/1931, pág. 294 (em inglês)
"A vacinação nunca preveniu qualquer coisa e nunca prevenirá, é a prática mais bárbara que há... Usem seus direitos como cidadãos Americanos para abolir para sempre a prática demoníaca das vacinas."
- A Idade de Ouro
de
12/10/1921, pág.
17 (em inglês)
"Evite inoculações de soro e vacinas, pois elas poluem a corrente sanguínea com seu pus nojento."
- A Idade de Ouro
de
13/11/1929, pág.
106,107 (em inglês)
"[A vacinação é um] truque cruel de Satanás.."
- Consolação
de
31/5/1939, pág.
3 (em inglês)
Toda esta onda de ataques à prática da vacinação não se devia a qualquer evidência sólida de que ela fosse realmente uma ameaça à saúde pública, mas apoiava-se tão-somente na peculiar interpretação do texto bíblico de Gênesis, cap 9, onde Deus fala a Noé e sua família para absterem-se de sangue animal. A Sociedade Torre de Vigia evocava, portanto, não razões científicas, mas teológicas (muito embora costumeiramente enfatizasse o risco natural da terapia como reforço à doutrina). Curiosamente, esta mesma passagem bíblica tem sido usada pelas Testemunhas de Jeová, desde 1945, para justificar sua exótica postura contra as transfusões de sangue. Todavia, nesse tempo, o entendimento era que tal passagem referia-se exclusivamente ao contato com o sangue não-humano. De fato, A Idade de Ouro, na sua edição de 4 de Fevereiro de 1931, pág. 294, dizia:
"Todas as mentes racionais devem concluir que não era à ingestão de sangue que Deus se opunha, mas ao contato do sangue da besta com o sangue do homem."
Este entendimento gerou uma situação totalmente antagônica ao
posicionamento atual das Testemunhas de Jeová, pois - a despeito de toda
'racionalidade' da mente - elas sustentam hoje exatamente o contrário do
que as palavras acima dizem: as vacinas são permitidas e a ingestão ou
transfusão de sangue - que equivocadamente consideraram por anos como
equivalentes - estão proibidas. A ampla maioria das Testemunhas de
Jeová nos tempos atuais ignora o fato de que A Idade de Ouro de 29 de
Julho de 1925, pág. 683, elogiava a doação de sangue. Sua sucessora, Consolação,
na edição de 25 de Dezembro de1940, pág.
19, seguiu o exemplo, elogiando um médico que doou um quarto de seu sangue e,
com isso, salvou a vida de uma senhora.
Em face de sua arraigada postura visceralmente contrária à prática da vacinação, os editores da revista não se mantiveram dentro dos limites da teologia, mas passaram a combater os próprios princípios científicos sobejamente demonstrados pelo grande bioquímico francês Louis Pasteur (chamado de "fraude" pela organização) e outros cientistas, os quais mostraram claramente o vínculo entre muitas enfermidades e os germes, bem como a eficácia da vacinação em prevenir um rosário de doenças, salvaguardando a vida humana. A partir deste ponto, os autores de A Idade de Ouro enveredaram por um pantanoso terreno de inconsistências, emitindo opiniões sobre um tema com o qual não demonstravam a mínima familiaridade. O resultado desta mentalidade é demonstrado nos trechos extraídos de diversas edições da revista e transcritos abaixo:
"Já se demonstrou conclusivamente que não existe tal coisa como a hidrofobia [raiva]!...A vacinação é o mais anti-higiênico, bárbaro, nojento, abominável, e o mais perigoso sistema de infecção conhecido. Seu veneno vil mancha, corrompe e polui o sangue da pessoa saudável, resultando em úlceras, sífilis, scrofula, erisipelas, tuberculose, câncer, tétano, loucura e morte."
- A Idade de Ouro
de
1/1/1923, pág.
214 (em inglês)
"Nunca se provou que uma única doença seja devida a germes."
- A Idade de Ouro
de
16/1/1924, pág.
250 (em inglês)
"As doenças são causadas por fermentação e calor... não por germes."
- A Idade de Ouro
de
25/8/1926, pág.
751 (em inglês)
"Todas as doenças humanas têm seu início nos intestinos."
- A Idade de Ouro de 28/11/1928, pág. 133 (em inglês)
"Em Los Angeles um jovem de 20 anos foi flagrado enquanto sufocava uma senhora de 75 anos. Preso e suspeito de três homicídios, ele declarava que a necessidade de matar vinha de inoculações de soro [sanguíneo]..."
- Consolação
de
1/12/1937, pág.
12 (em inglês)
O conceito endossado nesta última matéria - semelhante ao artigo de 1931 - não era circunstancial, pessoal ou transitório. Na verdade, seria mantido pela organização até a década de 60. Repare o leitor o que diz esta matéria de A Sentinela (revista 'companheira' de Despertai!) de 1 de Setembro de 1961 (pág. 564):
"O sangue de qualquer pessoa é, na verdade, a própria pessoa...Os venenos que produzem o impulso para cometer suicídio, homicídio, ou roubo estão no sangue. Insanidade moral, perversões sexuais, repressão, complexos de inferioridade, crimes hediondos - estes seguem freqüentemente o rastro das transfusões de sangue."
Tais palavras neste e nos outros artigos - não se pode negar - denunciam claramente ignorância científica e uma certa medida de arrogância. Queira o leitor ter em mente que estas matérias não foram escritas nos tempos do obscurantismo ou na idade média, mas em pleno século 20, décadas após a ciência já ter demonstrado, além de qualquer dúvida razoável, a existência de germes patogênicos, nocivos à saúde humana, bem como as funções relacionadas ao cérebro. Os artigos entre as décadas de 20 e 50 - eivados de sentimentos passionais - igualmente mostram que, no afã de combater a vacinação, a redação de A Idade de Ouro (atualmente Despertai!) acabou por perder o contato com a realidade. A forma enfática com que os artigos foram redigidos mostra ser bastante provável que seus autores realmente acreditassem nestas coisas e pensassem estar prestando um importante serviço de utilidade pública. Ao lado de tais declarações surpreendentes, diversos cartoons - um recurso ausente das edições atuais - foram publicados nas revistas, representando a vacinação de forma taxativa como algo detestável e repugnante, sem, no entanto, prover qualquer base científica para tal pensamento. Eis alguns exemplos:
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Gravura da edição de A Idade de Ouro de 30 de março de 1932, pág. 409, representando a vacinação como uma deidade demoníaca, rodeada por inúmeras vítimas humanas. |
Esta gravura representa as vacinas como um coquetel de 'pus'. Os copos sobre o balcão contêm pus de vaca, cavalo, gato e cão. Enquanto o garçom - representando a Associação Americana de Medicina - serve a vítima, um ladrão - representando os fabricantes da vacina - furta a carteira do freguês. No rodapé, a expressão "Envenenando, insensibilizando e roubando a humanidade". |
Apenas na década de 50 - tendo que se curvar às incontestáveis evidências do
benefício da vacinação - os editores da revista começaram a recuar em sua
postura anterior. A revista A Sentinela
de 15/12/1952, pág.
764 (em inglês)
"A questão da vacinação é algo que o indivíduo deve encarar e decidir por si próprio."
A sucessora de A Idade de Ouro levaria ainda mais de uma década para reconhecer explicitamente o benefício das vacinas:
"As vacinas parecem ter causado uma drástica redução das doenças.."
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Despertai!
de
22/8/1965, pág.
20 (em inglês)
Apenas após a morte do antigo editor-chefe de A Idade de Ouro, Clayton Woodworth, em 18 de dezembro de 1951, a Sociedade anuncia, por carta, sua mudança na postura quanto às vacinas. É possível que tal procrastinação em assumir esta mudança vital se devesse, pelo menos em parte, ao respeito por Woodworth, um ferrenho opositor das vacinas. É de se lamentar que a falta de razoabilidade dele tenha ditado certas normas organizacionais das Testemunhas de Jeová por tanto tempo, mesmo diante do peso das evidências contrárias a estas diretrizes. É, da mesma forma, lastimável que milhares de Testemunhas de Jeová desta época tenham permitido que suas consciências fossem moldadas por uma doutrina irracional, perigosa e sem base científica ou bíblica. De fato, os adeptos da religião recusaram a vacina contra varíola por muitos anos, tanto para si como para seus filhos, os quais enfrentavam, além do risco à saúde, uma dificuldade adicional - as escolas exigiam certificado de vacinação para admissão de alunos.
Não há estatísticas disponíveis sobre o número de pessoas que morreram ou ficaram aleijadas por conta de seguir as instruções da Sociedade Torre de Vigia entre os anos 20 e os anos 50. Sobre isso, pode-se apenas conjeturar. Aqui vale lembrar que, em 1921, contabilizaram-se cerca de 100.000 casos de varíola só nos EUA, com taxa de mortalidade ao redor de 40%. A varíola, bem como outras viroses, foram erradicadas graças à vacinação em massa. Diante de tudo isto, é razoável perguntar: poder-se-iam eximir os editores de A Idade de Ouro da responsabilidade pelos danos em potencial à saúde que estes artigos promoveram? Quão eficaz mostrou-se o instrumento do 'Senhor dos senhores' e 'Rei dos reis' em prover 'verdades' ao mundo? Quão seguros eram seus conselhos?
A cruzada contra as vacinas não foi a única empreendida pelos editores de A Idade de Ouro. Houve um outro episódio, igualmente notável pela paixão com que os redatores da revista entregavam-se a uma 'nobre' causa. Trata-se da 'guerra do alumínio', travada por décadas pela Sociedade Torre de Vigia.
A descrença da Sociedade Torre de Vigia na correlação entre bactérias e vírus e as enfermidades humanas levou-a a especular sobre suas 'reais' causas. A culpa acabou por ser atribuída aos utensílios de cozinha, fabricados em alumínio. Dizia-se que este material - não as bactérias - contaminava os alimentos e causava toda sorte de doenças. Pouco a pouco esta tese adquiriu caráter fundamentalista, retratando-se o alumínio como metal 'satânico' e assassino de milhões.
Tudo começou em 1926, quando o dentista prático e membro da igreja presbiteriana, Charles Betts (nascido em Ohio - EUA) publicou uma matéria condenando o alumínio. Tempos depois, ele foi desmascarado como charlatão. Desta época até o final dos anos 60, a Sociedade Torre de Vigia endossaria plenamente a tese de Betts, devotando nada menos que 130 artigos à campanha de combate ao alumínio. A edição de 12 de Setembro de 1934, pág. 771 (em inglês) de A Idade de Ouro dizia ser ela a primeira revista a dar "ampla publicidade a esta matéria" - a maravilhosa descoberta do Dr. Betts, a quem equivocadamente a revista conferia o título de médico, pois não há qualquer registro dele em uma universidade. Examinemos agora alguns artigos típicos desta época:
"Quantos pais e mães cairão doentes; quantos bebês assassinados até que as autoridades tomem uma providência quanto a isso e evitem este massacre desnecessário?"
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Artigo
de A Idade de Ouro de 1929 (em
inglês, de autoria de C.
Woodworth)
"Evite o uso de utensílios de alumínio.... pois eles são perigosos à sua saúde, envenenando sua corrente sanguínea..."
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A
Idade de Ouro de 12/11/1929, pág. 107 (em
inglês)
"Se você quer morrer, continue ingerindo alimentos cozidos com alumínio."
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Artigo
de A Idade de Ouro de 1928 (em
inglês, de autoria de C.
Woodworth)
"Como resultado da publicação de uma verdade salutar sobre o assunto, há cada vez menos pessoas adquirindo utensílios de cozinha de alumínio. Também há uma acentuada queda no índice de mortes por câncer. Muito alumínio usado: muitos casos de câncer. Menos alumínio usado: menos casos de câncer."
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A
Idade de Ouro de 28/5/1930, pág. 651 (em
inglês)
"Alumínio orgânico também é um veneno"
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Artigo
de A Idade de Ouro de 7/8/1929 (em
inglês)
Esta última declaração revela ignorância técnica do assunto, já que a substância em questão - fosfato de alumínio - não é composto orgânico. A revista apenas copiou o erro de Charles Betts. Assim, A Idade de Ouro prosseguiu em sua cruzada contra o alumínio, atribuindo-lhe toda sorte de moléstia e intoxicação, apesar da completa ausência de base científica para isso. No final da década de 20, o Dr. Morris Fishbien - presidente da American Medical Association [Associação Americana de Medicina] e editor das duas publicações periódicas dessa associação, o Journal of the American Medical Association (JAMA) e Hygeia - publicou um artigo, no qual mencionava o resultado de todos os testes sobre o alumínio, realizados por conceituados institutos norte-americanos e ingleses. Em nenhum dos experimentos pôde-se demonstrar qualquer associação entre o uso de utensílios de cozinha em alumínio e qualquer enfermidade, muito menos o câncer. Outros cientistas também publicaram matérias expondo a futilidade de insistir com esta campanha. A resposta dos editores de A Idade de Ouro não tardaria a vir, e da pior maneira - a edição de 26 de Setembro de 1934, pág. 807 (em inglês) endossou o seguinte comentário:
O Jornal da American Medical Association é a folha mais vil que passa pelo correio dos Estados Unidos.... Nada que seja novo e útil em terapêutica escapa à sua condenação cega. Os seus ataques são geralmente ad hominem. As suas colunas editoriais são devotadas em larga medida ao assassinato das pessoas.... O seu editor [Morris Fishbien] é o tipo de Judeu que crucificou Jesus Cristo.
Assim, edição após edição, ataques pessoais e a instituições médicas assumiram o lugar dos argumentos cientificamente embasados. A revista A Idade de Ouro e sua sucessora - Consolação - passaram insinuar que todos os profissionais médicos defensores do alumínio estavam comprometidos com os grandes comerciantes do ramo. Era, pois, inevitável que estas publicações passassem a não ser levadas a sério pelos cientistas e institutos médicos de prestígio. Como resultado, a Sociedade Torre de Vigia acabou por receber um lugar de destaque entre os maiores nomes do charlatanismo médico na história - listados no clássico texto de Warner (1930).
Eis alguns cartoons da época:
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| "Os convidados ocultos da mesa de jantar feito com alumínio: envenenamento, câncer e morte" | O público consumidor de alumínio, representado por um bode expiatório morto, ao lado dos algozes | O fabricante de alumínio diz: "'todos a bordo - para a morte!' (câncer, loucura e envenenamento)" |
Paralelamente, a Sociedade Torre de Vigia, passou a publicar cartoons extremamente hostis à Associação Americana de Medicina (AMA), como este, na edição de A Idade de Ouro de 8 de Setembro de 1937, pág. 771:
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| O Hospital da Associação Americana de Medicina é representado como um monstro devorador e os médicos, como vigaristas gananciosos. No rodapé, faz-se uma pilhéria com a sigla da associação: "Fabricantes de Alumínio Associados". |
É certamente lamentável que os editores de A Idade de Ouro, no afã de manter sua doutrina, recorressem a insultos como os que vimos até agora. Todavia, ante a falta de evidência, a Sociedade Torre de Vigia, gradualmente encerrou sua cruzada contra o alumínio e seus defensores, chegando até a chamá-lo, em uma edição de A Sentinela de 1969, de "um dos mais versáteis metais conhecidos do homem, pelo qual deveria ser grato ao Grande Criador, o qual encravou-o primeiro na crosta da terra". Estranhamente, nenhuma menção é feita do radicalismo com o qual, por décadas, a organização defendia uma postura totalmente oposta ao que agora afirmava.
Certamente ninguém veio a morrer por evitar utensílios de alumínio, atendendo aos apelos da Sociedade Torre de Vigia. Por outro lado, não se pode deixar de extrair deste caso uma demonstração do quanto a falta de modéstia e de cautela em emitir opiniões pode conduzir toda uma organização a um poço de inconsistências e falácias. A lição é clara: todos devemos ter prudência em questões fora de nossa área de conhecimento, especialmente em assuntos que envolvem a saúde humana. Os editores da revista A Idade de Ouro (atualmente Despertai!) não foram exceção. Caso tivessem tido a humildade necessária a todo leigo, episódios patéticos como este poderiam ter sido evitados.
As incursões pitorescas da Sociedade Torre de Vigia ao mundo da ciência não se restringiram às questões da vacinação e do alumínio. Deveras, seus representantes, por diversas vezes, endossaram o trabalho de opositores da medicina ortodoxa, os quais posteriormente foram desmascarados como charlatões em assuntos médicos. Entre estes, podemos citar Albert Abrams, George Starr White, Bernarr McFadden e outros. Alguns deles desenvolveram verdadeiras 'geringonças' que, quando não inócuas, eram prejudiciais à saúde. Outras vezes, as publicações continham conceitos totalmente ultrapassados em medicina - o caso, por exemplo do artigo de A Sentinela de 1961, que, ao classificar transfusão sanguínea de "alimento", estava apenas confirmando as obsoletas palavras de um médico do século 17, Jean Baptiste Denys. Além disso, diversos autores de artigos que saíram nas revistas das Testemunhas de Jeová eram médicos adeptos de terapias alternativas, sem qualquer base científica e freqüentemente baseadas em crendices, ocultismo e folclore.
Façamos agora uma breve incursão a alguns dos mais estranhos exemplos de 'diagnóstico', 'terapêutica', 'aconselhamento médico' e 'descobertas científicas', publicados pelas Testemunhas de Jeová ao longo do tempo:
"Nós fornecemos abaixo uma cura simples para os sintomas de apendicite. A dor na região do apêndice é causada pela mordida de vermes próximo da junção do cólon transverso com o intestino delgado, do lado inferior direito do abdômen. Este remédio é também recomendado para febre tifóide, a qual também é uma doença causada por vermes. A medicação é a dose 'Santonina', 3 grãos, uma hora antes do desjejum; repetidas por quatro manhãs, até que os sintomas desapareçam. Daí, uma dose por mês durante três meses para erradicar todos os germes. Esta receita é de INCALCULÁVEL VALOR. Não só evitará despesas, talvez de 200 dólares, com cirurgia e internação, como evitará semanas de mal-estar, inconveniência, convalescença e perda de salário."
-
Torre
de Vigia de Sião de 15/1/1912, pág. 26 (em
inglês)
Comentário: Este artigo contém uma incrível seqüência de absurdos. Primeiro, esta 'receita', além de ineficaz, pode levar o paciente de apendicite a não buscar o tratamento cirúrgico, resultando em uma septicemia fatal. Segundo, apendicite nada tem a ver com 'mordidas de vermes'. Terceiro, não existe nenhuma junção entre cólon transverso e o intestino delgado, mas deste último com o cólon ascendente. E quarto, febre tifóide não é causada por vermes, mas por bactérias.
"Alguns sentem um forte desejo de adorar a Deus, outros sentem pouco desejo e outros não sentem desejo algum. Esta diferença se deve ao formato do crânio."
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Reimpressão
de Watchtower de 15/3/1913, pág. 5201 (em
inglês)
Comentário: Esta declaração baseia-se na frenologia, a crença anticientífica e absurda que relaciona as aptidões e o caráter das pessoas ao formato da cabeça. A exemplo de seu fundador - C. T. Russell - a Sociedade Torre de Vigia endossaria esta e outras teorias estapafúrdias por décadas no futuro.
"A irmã Smith de Nebraska recentemente descobriu uma espécie de feijão, os quais ela declara ter produzido tanto que ela os chama 'Feijões do Milênio'."
- Torre de Vigia de Sião de 15/1/1912, pág. 26 (em inglês)
Comentário: Esta notícia é típica de uma época em que se buscavam evidências 'milagrosas' do proximidade do milênio de Jesus Cristo, prometido para 1914 - produzindo uma atmosfera de expectativa e sensacionalismo. Por volta desta mesma época, um outro episódio - o do 'trigo milagroso' - acabou por suscitar o escárnio público e descrédito sobre a Sociedade Torre de Vigia. Seu fundador, Russell, foi satirizado em um jornal norte-americano como charlatão. Ele processou o jornal e perdeu a questão na Justiça.
"...O uso de chupetas por bebês é uma das principais causas de amídalas enfermas e aumentadas e adenóides crescidas, como resultado da sucção."
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A
Idade de Ouro
de 26/11/1919, pág. 153 (em
inglês)
Comentário: A hipertrofia (crescimento) das adenóides ou das tonsilas palatinas (amídalas) em crianças está relacionado a fatores imunológicos e não à sucção de chupetas.
"O tamanho do nariz, e também o tamanho dos olhos, não são sem significado. Um homem de nariz pequeno não pode ter uma mente judicial, não importa que outras virtudes tenha. E um homem de nariz arrebitado não pode administrar justiça mais do que um buldogue pode ser pastor."
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A
Idade de Ouro
de 19/1/1921, pág. 224 (em
inglês)
Comentário: Outra declaração baseada na frenologia, dezoito anos após Russell ter dado publicidade a esta crendice em seu periódico Watchtower.
" Jesus era um homem perfeito e, falando em linguagem científica, tinha uma abundância de elétrons... Assim, a mulher que padecia de um problema sanguíneo estava em sintonia com Jesus - ela tinha fé - e quando tocou a aba de sua veste, elétrons saíram dele e ela foi curada."
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A
Idade de Ouro
de 20/12/1922, pág. 177 (em
inglês)
Comentário: Esta matéria representa um período em que a Sociedade Torre de Vigia esteve bastante empolgada com a teoria de um famoso charlatão - Albert Abrams - inventor de um dispositivo baseado em sua teoria das Reações Eletrônicas de Abrams (E.R.A.) - o "dinamizador". O Sr. Abrams fez fortuna com sua "invenção". A máquina 'radiônica' supostamente curava doentes à distância através de uma foto, uma amostra de sangue ou outro item qualquer da pessoa.Um adepto da religião que era médico desenvolveu um aparelho semelhante e o anunciava à venda na revista A Idade de Ouro. Tal 'terapia' esteve em uso na sede da organização (Betel) até os anos 40. Tal prática, além de absurda, fundamenta-se no ocultismo - hoje condenado pelas Testemunhas de Jeová. Incrível como possa parecer, uma Testemunha de Jeová de nome Roy Goodrich, tendo lutado contra o uso deste dispositivo entre seus irmãos de fé por considerá-lo objeto ligado ao espiritismo, acabou sendo desassociado da religião. Quanto ao inventor da falsificação - Albert Abrams - foi contemplado pela revista da American Medical Association [Associação Americana de Medicina] com o título de "Decano dos Charlatões do Século 20".
"... a mosca foi originalmente criada pelo demônio...Os odores que são altamente desagradáveis ao homem... são agradáveis para a mosca...Provavelmente o Senhor produziu alguns dos insetos úteis. Não há dúvida de que o demônio criou alguns dos outros. O Senhor é o melhor arquiteto."
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A
Idade de Ouro
de 19/12/1923, pág. 163 (em
inglês)
Comentário: Aqui - por meio de uma 'descoberta' assombrosa - a Sociedade Torre de Vigia promoveu o diabo a criador.
"Não há alimento bom para a refeição da manhã. A hora do desjejum não é hora para interromper o jejum. Mantenha o jejum diariamente até o meio-dia."
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A
Idade de Ouro
de 9/9/1925, pág. 784 (em
inglês)
Comentário: Ao despertar pela manhã, a taxa de açúcar no sangue apresenta-se baixa, de modo que é justamente este o momento adequado para uma refeição balanceada. Não há base científica para incentivar alguém a ir ao trabalho em jejum, até o meio-dia, como forma de promoção de saúde. Mais um conselho duvidoso de A Idade de Ouro.
"...A Biola Eletrônica de Rádio, a qual significa vida renovada por ondas de rádio ou elétrons. A Biola automaticamente diagnostica e trata doenças pelo uso de vibrações eletrônicas."
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A
Idade de Ouro
de 22/4/1925, pág. 454 (em
inglês)
Comentário: Este artigo representa outro modismo adotado pela Sociedade Torre de Vigia, após seu presidente Rutherford ter se tratado com uma tal 'almofada rádio-solar' para curar pneumonia. A Idade de ouro de 23 de Junho de 1920, págs. 606 e 607, publicou uma matéria de autoria do médico de Rutherford, explicando as 'propriedades' do dispositivo, seguindo-se de uma recomendação pessoal do 'juiz' em favor de tal tratamento. O mais curioso é que o editor da revista, Clayton Woodworth - na edição de 2 de Fevereiro de 1921, pág. 260, afirmou que a descoberta do elemento rádio devia-se a demônios 'honestos', os quais comunicavam-se com os seres humanos por meio de objetos de ocultismo, tais como pranchetas Ouija. É importante salientar que, além de ineficaz, tal tratamento é perigoso à saúde.
"Pegadas humanas de 2,1 m de comprimento encontradas na Califórnia [podem ser] dos gigantes [mencionados em] Gênesis, cap. 6.."
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A
Idade de Ouro
de 13/1/1926, pág. 238 (em
inglês)
Comentário: Aqui, os editores de A Idade de Ouro arriscam um 'palpite' em paleontologia, muito embora a Bíblia nada indique quanto ao tamanho dos pés dos 'nefilins' de Gênesis.
"A maioria dos acidentes se devem à gravitação e seus efeitos... Quedas de avião... podem ser evitadas por dispositivos individuais de gravidade negativa."
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A
Idade de Ouro
de 24/3/1926, pág. 404 (em
inglês)
Comentário: Esta matéria caracteriza bem a fase em que os editores da revista mostravam uma forte propensão para a ficção científica.
"Deus [poderá em breve fazer] um cometa [ser] capturado pela terra... trazendo uma mudança radical no clima... transformando a superfície de nosso planeta em um paraíso."
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A
Idade de Ouro
de 16/6/1926, pág. 583 (em
inglês)
Comentário: É muito pouco provável que a colisão da terra com um cometa resultasse em um 'paraíso'. Trata-se apenas de mais uma fantasia dos autores - típica da época.
"A pasteurização do leite e de outros alimentos é responsável por quase todos os males físicos da humanidade hoje."
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A
Idade de Ouro
de 30/6/1926, pág. 623 (em
inglês)
Comentário: Eis uma afirmação bem típica da época em que a Sociedade Torre de Vigia empreendia mais uma de suas 'cruzadas' pseudocientíficas - o ataque à teoria dos germes como causadores das doenças, o qual perdurou até, pelo menos, o ano de 1939. Os editores de A Idade de Ouro recomendavam a ingestão de leite não-pasteurizado como sendo benéfica à saúde, mesmo diante dos riscos envolvidos nesta prática. Aqui, mais uma vez, a Sociedade foi na contra-mão da ciência. Apenas 70 anos depois - em 1996 - a revista Despertai! renderia o devido louvor ao trabalho do bioquímico francês Louis Pasteur - idealizador da pasteurização.
"...O rádio está realizando uma profecia diante de nossos olhos... Jesus disse que... as pedras clamariam... a galena é usada na maioria dos aparelhos de rádio... galena não passa de um pedaço de pedra... as pedras estão sendo usadas para clamar pelo Rei dos reis..."
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A
Idade de Ouro
de 1/12/1926, pág. 157 (em
inglês)
Comentário: Nesta matéria pode-se ver até que ponto ia imaginação dos editores de A Idade de Ouro, buscando mirabolantes cumprimentos 'proféticos' nas coisas mais banais do dia-a-dia. Por volta desta época, era costumeiro a Sociedade Torre de Vigia relacionar até suas transmissões radiofônicas e assembléias às grandes profecias de Apocalipse para o 'fim do mundo'.
"O rádio [poderá brevemente] transmitir... calor, luz, visão, som e força."
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A
Idade de Ouro
de 14/7/1926, pág. 644 (em
inglês)
Comentário: Aparentemente tal previsão futurística jamais se cumpriu - apenas mais um fruto das mentes criativas de C.J. Woodworth e seus associados.
"Se um médico mais fervoroso condenar suas amídalas, vá e se mate com uma faca de mesa. É mais barato e menos doloroso."
- A Idade de Ouro de 7/4/1926, pág. 438 (em inglês)
"Um cura para catarro e febre do feno... 30 gramas de casca de pimenta-da-jamaica... aspirar... algumas vezes por dia..."
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A
Idade de Ouro
de 26/1/1927, pág. 272 (em
inglês)
Comentário: Acima vemos mais conselhos pueris e receitas 'milagrosas' da equipe editorial de C.J. Woodworth.
"No futuro a humanidade vai obter seu alimento diretamente do sol"
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A Idade de Ouro de
5/10/1927, pág. 10 (em
inglês)
Comentário: O sol é uma estrela composta principalmente de hidrogênio a formidáveis temperaturas. Sua energia sustenta processos vitais como a fotossíntese. Entretanto, requer uma boa dose de imaginação fantasiosa para prever uma extração direta de alimento do sol.
"Existe apenas uma doença, a prisão de ventre."
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A Idade de Ouro de
3/3/1929, pág. 434 (em
inglês)
Comentário: A afirmação acima representa mais um endosso da Sociedade Torre de Vigia ao charlatanismo médico. Trata-se do "Sistema Ehret de Eliminação" - cujo criador afirmava que todas as doenças tinham como origem o acúmulo de matéria fecal e que a prática de jejuns possibilitaria a eliminação desses resíduos, restabelecendo a saúde da pessoa. Contrário a toda forma de ortodoxia na medicina, Clayton Woodworth advogou este pensamento por anos e concedeu-lhe amplo espaço nas páginas de A Idade de Ouro.
"O corpo humano, como tudo o mais, é composto de elétrons... se estes átomos forem normais, então seus elétrons funcionam apropriadamente e ordeiramente, a saúde é usufruída. Contudo, qualquer desarranjo atômico causa uma doença no corpo e seus sintomas se manifestarão..."
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A Idade de Ouro de
29/5/1929, pág. 564
(em
inglês)
Comentário: Tais palavras denunciam claramente a ignorância do autor do artigo no que se refere às leis físicas que regem o comportamento do átomo. Não há átomos "normais" ou "anormais" por trás da saúde ou da enfermidade e os elétrons sempre funcionam 'apropriada' e 'ordeiramente'. Na verdade, o artigo acima foi escrito na época em que a Sociedade Torre de Vigia não acreditava nos germes como causadores de doenças e, portanto, punha-se a fazer especulações pseudocientíficas. Neste artigo em particular, as estranhas afirmações originam-se da "Teoria das Reações Eletrônicas de Abrams", mencionada anteriormente.
"...O cirurgião pode cortar fora o 'caroço' ofensivo, não importando onde esteja, e a vítima talvez viva... todavia, mais cedo ou mais tarde... a morte ocorrerá como resultado da decomposição, ou da putrefação dessa matéria morta e venenosa, e de sua absorção de volta ao sistema..."
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A Idade de Ouro de
30/10/1929, págs. 79-80
(em
inglês)
Comentário: Neste artigo, Clayton Woodworth arrisca uma explicação 'científica' para a causa do câncer. Segundo ele, os tumores tinham origem no acúmulo de matéria fecal ou resíduos que caiam na corrente sanguínea, de nada adiantando a remoção cirúrgica do tecido lesionado. Todavia, a remoção cirúrgica é uma técnica empregada até hoje e, quando corretamente indicada, pode levar à cura completa da doença. Além disso, sabe-se que o câncer é uma doença celular multifatorial - nada tendo a ver com 'putrefação' ou 'decomposição'. Mais uma vez, o editor de A Idade de Ouro deixou passar uma esplêndida oportunidade de permanecer em silêncio numa questão com a qual não demonstrava a menor familiaridade.
"Durma virado para a direita ou de costas, com a cabeça virada para o norte, de modo a se beneficiar das correntes magnéticas da terra."
-
A Idade de Ouro de
12/11/1929, pág. 107 (em
inglês)
Comentário: Eis mais alguns conselhos sem sentido a enriquecer o folclore da Sociedade Torre de Vigia.
"Pare de usar gomas de mascar, pois você precisa da saliva para os alimentos."
- A Idade de Ouro de 12/11/1929, pág. 107 (em inglês)
Comentário: Muito embora as gomas de mascar contribuam para as cáries, elas não reduzem o fluxo salivar - muito pelo contrário, aumentam-no. E a saliva não se esgota, como o autor parece crer, mas é continuamente produzida pelas glândulas salivares.
"Parecerá aos leitores do livro 'Criação' do Juiz Rutherford que a condição atual de Vênus é semelhante à da terra antes do dilúvio, e é significativo que alguns astrônomos lançaram a idéia de que animais como os dinossauros que, uma certa época, perambulavam por este planeta, estão agora encontrando em Vênus um lugar feliz onde viver."
-
A Idade de Ouro de
1/4/1931, pág. 428 (em
inglês)
Comentário: A atmosfera de Vênus é rica em ácido sulfúrico e, em sua superfície, reinam altas temperaturas. Em tal ambiente inóspito para a vida é muito pouco provável que possam sobreviver vírus ou bactérias, muito menos dinossauros. Nesta matéria, mais uma vez, os editores da revista lançam-se desastradamente ao mundo da ficção.
"Um assinante acha que uma gota ou duas de querosene é algo excelente para limpeza rápida de pias e banheiras.... e quando aplicadas em feridas, elas saram mais rápido. Experimente."
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Consolação
de 1/12/1931, pág. 12 (em
inglês)
Comentário: O querosene é tóxico quando absorvido pelas mucosas. A última coisa que uma mãe conscienciosa faria seria tratar os ferimentos de suas crianças com querosene. Este é mais um estranhíssimo conselho.
"Tratamento Osteopático para Loucura"
-
A
Idade de Ouro
de 26/10/1932, pág. 53 (em
inglês)
Comentário:
A Osteopatia - crença segundo a qual todos os males resultam de 'subluxações'
na coluna vertebral - foi inventada pelo filho de um missionário
metodista, Andrew Still, o qual afirmava que sua descoberta havia
sido inspirada por Deus. Seu lema era: 'nada de drogas, nada de cirurgias, nada
de soros'. Apesar de inúmeros artigos científicos expondo o charlatanismo
envolvido nesta prática, a Sociedade Torre de Vigia continuou a endossá-la
até o ano de 1961, quando publicou um artigo favorável a ela na edição de 8
de Dezembro de 1961da revista Despertai!.
"Quanto mais cedo na manhã tomar o banho de sol, maior será o efeito benéfico, porque apanhará uma quantidade maior de raios ultra-violetas, que são curativos"
-
A Idade de Ouro de
13/9/1933, pág. 777 (em
inglês)
Comentário: Outra seqüência de absurdos. Nem a incidência de raios ultra-violeta é maior quanto mais cedo na manhã nem são eles curativos. Na verdade, a exposição prolongada a eles - especialmente no fim da manhã - provoca queimaduras e contribui para o aumento na incidência de câncer de pele e cegueira. O escritor demonstra completa ignorância do assunto e, ainda assim, põe-se a aconselhar seus leitores.
"Apendicite: pegue 30 gramas de flor de sabugueiro, hortelã-pimenta e pilefólio e ferva em meio-litro de água... tome um copo de vinho cheio a cada 15 minutos... não se assuste com a 'suadeira' que causa, ou se você vomitar. Você se sentirá melhor se estiver de estômago vazio."
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A Idade de Ouro de
19/12/1934, pág. 187 (em
inglês)
Comentário: Eis outra 'receita' ineficaz e perigosa para se tratar apendicite. O editor-chefe de A Idade de Ouro, C. J. Woodworth seguia - com grande empolgação - a mesma trilha de seu mestre, Russell, publicando 'curas naturais' para as doenças e expondo a vida dos leitores ao risco.
"... Muitos foram curados de problemas de fígado...Um irmão que, por anos, sofria de dores na região do apêndice, ficou inteiramente restabelecido pelo tratamento com azeite."
-
A
Idade de Ouro
de 5/7/1935, pág. 632 (em
inglês)
Comentário: A bíle, produzida pelo fígado, coopera com a digestão por promover a emulsificação das gorduras. Um paciente com problemas hepáticos terá dificuldades em digerir o azeite ou qualquer alimento gorduroso. Portanto, é pouco recomendável seu emprego como remédio para tratar moléstias hepáticas. Da mesma forma, se as dores abdominais forem oriundas de um quadro de apendicite, a coisa certa a fazer é buscar assistência médica urgente. Agir de outra forma é expor a saúde da pessoa ao risco.
"Aspirina - a ameaça de doença cardíaca"
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A Idade de Ouro de
27/2/1935, pág. 343 (em
inglês)
Comentário: Ao contrário do que afirma este artigo, a aspirina continua a ser um poderoso aliado no tratamento de doenças cardíacas relacionadas à formação de coágulos.
"Pasteur - a Fraude"
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A Idade de Ouro de
23/9/1936, pág. 814 (em
inglês)
Comentário: Este é um dos mais estapafúrdios artigos já publicados pela Sociedade Torre de Vigia e representa com exatidão o pensamento de Clayton J. Woodworth - o homem a quem o presidente Rutherford designou como editor chefe da revista A Idade de Ouro. Sessenta anos depois, na edição de 8/12/1996 - págs. 24-27 - da revista Despertai! (em inglês), a mesma Sociedade não mais classifica Pasteur como fraude, mas chama-o de "benfeitor da humanidade". É natural perguntar: em qual dos artigos estava ela sob a 'direção' do Espírito Santo - no de 1936 ou no de 1996? Ou em nenhum dos dois?
"..Por conseguinte, é razoável concluir-se que, antes de Deus a ter amaldiçoado, a serpente possuía pernas que a elevavam acima do solo... Deus teve o poder de transformar o corpo dela, de modo a que deixasse de ter pernas e pudesse mover-se sobre seu ventre."
- A Sentinela de 15/2/1965, págs. 127 e 128
Comentário: Aqui, o redator emite um parecer pueril sobre o relato bíblico de Gênesis 3: 14, esquecendo-se de que o texto também diz que a serpente "comeria pó". Sabe-se que as serpentes alimentam-se de outros animais, os quais caçam, matam e engolem. Além disso, todos os répteis rastejam sobre o ventre - a própria palavra 'réptil' significa rastejar. Quando possuem patas, elas emergem da face lateral do corpo, mantendo o ventre do animal em contato com o solo. Curiosamente, o evolucionismo - do qual a Sociedade Torre de Vigia discorda totalmente - teoriza que, de fato, as serpentes atuais descendem de ancestrais cujas patas regrediram, muito embora não se atribua esse fato à maldição de Gênesis ou a qualquer outra maldição. Assim sendo, vemos que não é preciso muito bom senso para perceber a futilidade de buscar uma aplicação literal para essa passagem bíblica. Bom senso que aparentemente faltou aos editores de A Sentinela.
"O coração, no entanto, está intrincadamente conectado ao cérebro pelo sistema nervoso e é bem suprido por terminações nervosas sensoriais. As sensações do coração são gravadas no cérebro. É aqui que o coração leva até a mente seus desejos e afeições, até chegar a conclusões que tem que ver com as motivações... Há uma estreita relação entre o coração e a mente, mas eles são duas diferentes faculdades, centradas em diferentes localizações. O coração... mais significativamente contém nossa capacidade emocional e nossa motivação...Uma coisa é certa, [quando os transplantados] perdem seus próprios corações, eles perdem as propriedades do coração neles contido ao longo dos anos e que contribuiu para fazer deles quem são no que diz respeito à personalidade... Devemos lembrar-nos de que o coração também raciocina."
-
A
Sentinela de 1/5/1971,
em inglês (ou 1/9/71, págs. 518 - 524, em português)
Comentário: Passados 20 anos desde a morte de Clayton Woodworth, a Sociedade Torre de Vigia ainda parece encontrar no exemplo dele alguma inspiração para divulgar pseudociência. As funções cognitivas e as emoções têm sua sede no sistema nervoso central. Os batimentos cardíacos acelerados são uma conseqüência do estado emocional, não sua causa. E não há qualquer fundamento científico para supor um transplante de 'personalidade' em pacientes que recebem um coração novo. Atribuir propriedades cognitivas ao coração remonta aos antigos egípcios e babilônios, milênios atrás. Trata-se, pois, de uma teoria demasiado fantasiosa para a década em que o artigo foi publicado, representando um fantástico retrocesso no conhecimento científico - algo, infelizmente, corriqueiro no curriculum da organização.
"Psiquiatras e psicólogos... não são aqueles a quem se deve recorrer quando alguém está deprimido e assediado por toda sorte de problemas... os suicídios entre eles correspondem ao dobro da freqüência encontrada na população em geral... ao invés de recorrer a psiquiatras e psicólogos, os quais também, na maior parte, não possuem tal fé, que os amantes da retidão recorram à Bíblia em busca de sabedoria..."
- Despertai! de 22/8/1975, pág. 26 (em inglês)
Comentário: Aqui, a religião desaconselha a seus adeptos a busca de tratamento psiquiátrico ou psicológico, sob a alegação de que estes profissionais médicos 'não têm fé'. Além disso, busca denegrir a reputação desses profissionais. Artigos como o acima estão por trás da relutância das Testemunhas de Jeová em recorrer a especialistas médicos nos casos de desordens psíquicas e afetivas - mesmo naqueles de alta gravidade - em favor de uma abordagem meramente religiosa do problema. Sabe-se que diversos distúrbios mentais, tais como depressão e esquizofrenia (as quais podem envolver fatores genéticos) infligem enorme padecimento à pessoa e seus familiares. O não tratamento destes pacientes poderá resultar - e, amiúde, tem resultado - em suicídio. Na verdade, o provável temor da Sociedade Torre de Vigia - aquele que motivou o lançamento do artigo - é que estes profissionais detectem na religião do paciente um fator agravante por trás de seus distúrbios psíquicos. O psiquiatra clínico, Dr. Jerry Bergman (PhD e ex-adepto da religião) relata estudos demonstrando que tais doenças são mais freqüentes entre as Testemunhas de Jeová do que em meio à população em geral.
A essa altura das evidências, é compreensível certa medida de espanto por parte do leitor - especialmente quando se considera que os artigos expostos e comentados acima foram supostamente produzidos pela 'única' organização do mundo 'dirigida' pelo Espírito Santo de Deus. Ao lado de tais matérias, sem dúvida, 'assombrosas', diversos outros artigos divulgados na literatura da Sociedade Torre de Vigia prosseguiram endossando as mais inimagináveis 'terapias' alternativas. Entre elas, podemos acrescentar:
a) Terapia de Zona (Despertai! de 22 de Setembro de 1951, págs. 27 e 28)
b)
Iridiagnose, quiropatia, a dieta das uvas, o purificador biológico de sangue, o
matador de doenças de rádio (A Idade de Ouro de 17 de Novembro de 1926)
e outras aberrações.
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RDK - O "Matador de Doenças a Rádio" : uma das 'geringonças' endossadas pela Sociedade Torre de Vigia nos anos 20 - mais um risco à saúde pública. |
Em face do exposto acima, não é de surpreender que diversos estudiosos da história da medicina tenham colocado a literatura das Testemunhas de Jeová entre as fontes mais completas (e divertidas, até) de folclore 'científico', afinal, sua evolução caminha paralelamente aos casos mais célebres de fraudes na medicina e na ciência em geral. É mister lembrar que tais invencionices expuseram milhares de pessoas ao risco de lesões permanentes ou óbito, induzindo-as a abandonar o tratamento médico adequado em troca de verdadeiras 'poções milagrosas'. Pelo risco envolvido na própria pseudoterapia recomendada - sendo em si mesma danosa - ou pela protelação em buscar assistência médica, mascarando os sintomas ou concedendo tempo à progressão da doença, dificilmente poder-se-ia eximir a cúpula da Sociedade Torre de Vigia pela responsabilidade neste caso. A saúde e a vida de milhares de seres humanos foi desnecessariamente exposta ao perigo.