O Lado Negro da Força

(Uma Retrospectiva no Abuso Religioso)

"Só conheço uma liberdade - a de pensamento" - Saint Exupéry

Índice

  1. Introdução

  2. Religião e Poder - O Testemunho da História

  3. 'Milagres' - Questão de Fé ou de Má-Fé?

  4. Cultos - a Morte Ronda a Fé

  5. Jihad - "Deus Está do nosso Lado"

  6. Entendendo o Controle Mental dos Cultos

  7. Os Casos Hearst e Walker

  8. O Perfil dos Líderes de Cultos

  9. Os Cultos no Brasil

  10. Conclusão

 

 

Introdução

 

"O cristianismo não garantiu ao homem sua segurança, sua felicidade, nem mesmo sua dignificação. Mas oferece uma esperança. Trata-se de um agente civilizador. Ajuda a encarcerar a besta. Proporciona vislumbres da verdadeira liberdade, sugestões de uma existência calma e razoável. Mesmo do modo como o vemos, distorcido pelos estragos da humanidade, não é desprovido de beleza."  

 
     Com estas palavras, o escritor Paul Johnson (1928 - ) conclui a sua obra "História do Cristianismo" (1976), na qual traça um abrangente retrospecto deste relevante movimento religioso, desde seus primórdios até os nossos dias.  Em seu comentário, o autor parece sintetizar bem um dos papéis da religião na sociedade (no caso, o cristianismo), a saber, seu efeito moderador sobre os ímpetos do homem. Segundo esta visão, o sentimento religioso funcionaria como uma espécie de 'amortecedor' sobre o espírito humano, salvaguardando os povos da barbárie. Sob o abrigo da fé, cada indivíduo 'encarceraria a besta' primitiva que carrega dentro de si - seus instintos animalescos e sua rebeldia natural - permitindo-se ser 'civilizado'. A proteção de um deus (ou deuses) traria quietude ao ser humano, pondo-o a salvo de sua inaceitável pequenez e efemeridade, diante das quais nada lhe restaria, exceto os constantes vagalhões de uma crise existencial, a mesma crise retratada de forma contundente no mundo futurístico do filme Blade Runner [O Caçador de Andróides] - dirigido por Ridley Scott - no qual os andróides criados pelo homem adquirem consciência de sua efêmera existência e tornam-se psicóticos,  rebelando-se contra seus criadores. Da mesma forma, a escritora Mary Shelley (1797-1851), em seu clássico romance Frankenstein, retrata uma criatura que, ao tomar conhecimento de sua natureza decaída, revolta-se contra seu criador. Há aqueles que vaticinariam semelhante destino para os homens, caso lhes fosse subtraída a espiritualidade. Este peculiar sentimento foi brilhantemente expresso pelo matemático Blaise Pascal (1623-1662), no século dezessete:

"Assistindo à cegueira e miséria do homem, bem como às assombrosas contradições apresentadas por sua natureza, e vendo todo o universo mudo, e o homem sem nenhuma luz, abandonado a si mesmo, e, por assim dizer, perdido neste canto do universo, sem saber quem o colocou aqui, no que se tornará ao morrer, fico temeroso - como um homem que, transportado em seu sono para uma ilha deserta e medonha, acorda sem saber onde se encontra e sem qualquer possibilidade de deixá-la; espanta-me, então, que alguém não se desespere diante de condição tão miserável."

 
     Não se pode negar que tais palavras, em sua pujança, comoveriam pessoas de origens e culturas diversas. Certamente, muitos fariam coro com esta declaração. Pascal parece ter captado, em toda sua essência, o eterno dilema humano - 'quem sou', 'de onde vim', 'para onde vou'. Sem uma resposta - factual ou não - a tais indagações, a sociedade humana, como a conhecemos, provavelmente não teria subsistido. Visto dessa forma, o sentimento religioso reveste-se de inegável relevância social e - por que não dizer - nobreza de objetivos. Todavia, como os demais atributos da humanidade, está sujeito à perversão.
 
Pascal - o eterno dilema existencial
 
      Neste respeito, os naturalistas teorizam que o alto grau de desenvolvimento alcançado pelo cérebro humano cobrou do homem um preço terrível - confrontou-o com a consciência de sua existência e, por conseqüência, com sua mortalidade. Como forma de compensação, outra área da mente teria se desenvolvido grandemente - o sistema límbico, envolvido na motivação e na capacidade idealizadora. De um lado, o intelecto, a razão, de outro, a intuição, a fé - assim caminha a humanidade. Este paradoxo induziu o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) a dizer: "...descobri ser necessário negar o conhecimento, a fim de  abrir espaço para a fé". Ao passar das gerações,  o equilíbrio entre estes dois gigantes tem aparentemente conferido alguma  estabilidade emocional e social aos seres humanos.  Contudo, o homem é, antes de tudo, um animal político. Sua visão do cosmo influencia não apenas a visão de si mesmo, mas norteia sua relação com o semelhante. De uma relação benigna com as deidades nasce uma noção de ética e, por conseqüência, um código moral. Deuses que abençoam ou castigam parecem estabelecer um sólido alicerce sobre o qual as civilizações edificam uma relação de tolerância - e não raramente de hostilidade - entre si.
 
     É significativo que a religião tenha estado presente em todas as sociedades, independentemente de sua época, grau de desenvolvimento ou origem geográfica. A necessidade de uma crença transcendental, ao que tudo indica, visitou todos os povos. Onde quer que se encontre cultura, o sentimento religioso está presente. Onde quer que se descubram ruínas de civilizações antigas, a arqueologia tem exumado templos, ídolos, símbolos sagrados, enfim, expressões da espiritualidade dos povos antigos. Um exame na história da humanidade revela-nos um interminável desfile de sistemas religiosos, alguns nascendo da decadência de outros, numa infindável sucessão de ideologias, em que cada novo movimento surge de acordo com as conveniências sociais e políticas de seu tempo. Temos desde o animismo presente nas tribos mais primitivas, passando pelo espiritismo egípcio, o panteão greco-romano, a teocracia judaica, o universalismo cristão, a submissão islâmica, até a condição atual da humanidade - mais dividida do que nunca, em uma infinidade de religiões, uma tendência que parece perdurar. Esta  autêntica 'babel' espiritual suscita uma perturbadora pergunta: teria a civilização sido edificada sobre mitos? Em caso afirmativo, quão frágeis são seus alicerces...
 
     Lastimavelmente, ao passo que o mundo fragmentou-se em credos divergentes, mais e mais foram esquecidas aquelas nobres motivações expressas por Pascal. Como diz o escritor Raymond Franz, os homens passaram de 'servos do espírito' a 'escravos de organizações', ou seja, ao estabelecerem entidades fundamentadas em propósitos piedosos, pouco a pouco, esqueceram-se dos nobres ideais do princípio, inverteram seus valores e colocaram a preservação de seu sistema à frente de suas consciências. Deveras, o coração humano é facilmente corrompido. Ocorreu o que se chama desvio de função - a instituição que fora criada com o propósito de atender às aspirações humanas e unir os homens sob a mesma esperança, tornou-se ela própria o centro da discórdia. Discórdia que se degenerou em intolerância e brutalidade. Deste modo a história da religião foi escrita - às vezes com tinta, às vezes com sangue. 
 

 Religião e  Poder - O Testemunho da História

Início

 
     O escritor Jeovah Mendes - especialista em história secular e religiosa - apresenta sua obra "Dos Porões Sombrios do Vaticano..." (Ed. Livro Técnico, 2000) com o seguinte comentário: 

     "Fartamo-nos de ouvir através dos meios de comunicação, sejam eles o rádio, o jornal ou a televisão, o apelo do Papa João Paulo II, pedindo perdão à humanidade pela intolerância religiosa e crimes cometidos em nome da Igreja Católica, ao longo de sua trajetória tenebrosa e sanguinária. A atitude do eminente pontífice é bastante louvável, embora saibamos que a atual geração nada tem a perdoar, uma vez que nada sofreu, mas sim aqueles que padeceram sob a opressão do catolicismo, nos séculos passados. Contudo, aqueles mártires já nada mais podem perdoar, pois estão mortos, ficando sem efeito os rogos e as lágrimas do bom velhinho - que, felizmente, não tem as mãos manchadas de sangue... há diversos outros fatos, que, considerados gravíssimas ofensas à coexistência humana, muitos gostariam de apagar da memória universal."

 
     Ao longo do livro, o autor passa a expor de forma bem direta - e com boa dose de ironia - a trajetória de trinta pontífices que aviltaram a história da igreja. Isto é particularmente embaraçoso para aqueles que advogam o cristianismo, pois, querendo ou não, a história do catolicismo confunde-se com a história dos movimentos cristãos dos primeiros séculos. Foi a Igreja Romana que convocou o grande concílio de Nicéia (325 DC),  reconhecido pelos historiadores como um marco decisivo na trajetória do cristianismo. Ademais, foram os teólogos católicos que estabeleceram aquilo que hoje é aceito pelas religiões em geral como o cânon sagrado. Eram católicos os primeiros grandes estudiosos e tradutores das Escrituras. Em vista disso, todas as religiões cristãs têm dívidas históricas para com a Igreja Católica, quer gostem disso quer não. É compreensível, então, que diversos historiadores cristãos tenham hesitado em relatar os fatos com isenção. Sobre isso, o autor Paul Johnson declara:

     "No passado, muito poucos estudiosos cristãos tiveram a coragem ou a confiança de colocar a livre perseguição da verdade antes de qualquer outra consideração. Quase todos estabeleceram um limite em algum ponto. Não obstante, como seus esforços defensivos provaram-se fúteis! Como seu sacrifício da integridade parece ridículo em retrospecto!... Afinal, o cristianismo, identificando verdade como fé, deve ensinar - e, adequadamente compreendido, de fato, o faz - que qualquer interferência à verdade é imoral. Um cristão com fé nada tem a temer dos fatos; um historiador cristão que estabelece limites para o campo de investigação, em qualquer ponto que seja, está admitindo os limites de sua fé." - História do Cristianismo, p. 8

 
     O escritor Jeovah Mendes complementa:

"... não devemos olvidar que a função do historiador e do pesquisador consiste em esclarecer a versão dos fatos à luz da verdade, sem se deter diante daqueles que distorcem ou adulteram a História para esconder seus crimes e ocultar suas próprias imperfeições." - Dos Porões Sombrios do Vaticano, p. 21

 
 
     Tomando como princípio norteador as palavras acima, o leitor está convidado a examinar objetivamente o lado obscuro da espiritualidade humana. Ao longo desta averiguação, testemunhará como tal atributo está sujeito à manipulação e à corrupção. Deveras, as maiores atrocidades cometidas contra a humanidade foram perpetradas em nome de ideologias religiosas. Comecemos com um período particularmente fecundo em autoritarismo eclesiástico - a Idade Média.
 
      Em uma época em que o poder religioso confundia-se com o poder real, o Papa Gregório IX - famoso pelo seu caráter irascível e intolerante -  editou, em 20 de abril de 1233, a bula Licet ad capiendos, a qual  marca o início da infame Inquisição, instituição da Igreja Católica Romana, criada com o hediondo propósito de perseguir, torturar e executar aqueles que ousassem discordar de suas doutrinas - os 'hereges', assim definidos:

     "Chamam-se hereges pertinazes e impenitentes aqueles que interpelados pelos juizes, convencidos de erro contra a fé, intimados a confessar e abjurar, mesmo assim não querem aceitar e preferem se agarrar obstinadamente aos seus erros. Estes devem ser entregues ao braço secular para serem executados. Chamam-se hereges penitentes os que, depois de aderirem intelectual e efetivamente à heresia, caíram em si, tiveram piedade de si próprios, ouviram a voz da sabedoria e, abjurando dos seus erros e procedimento, aceitaram as penas aplicadas pelo bispo ou pelo inquisidor. Denominam-se hereges relapsos os que, abjurando da heresia e tornando-se por isso penitentes, reincidem na heresia."

 
     Mais adiante, o regulamento da igreja determinava a punição a que estavam sujeitos os rebeldes renitentes:

     "Estes, a partir do momento em que a recaída fica plena e claramente estabelecida, são entregues ao braço secular para serem executados, sem novo julgamento... Serão queimados vivos em praça pública, entregues em praça pública ao julgamento das chamas...  É de fundamental importância prender a língua deles ou amordaçá-los antes de acender o fogo, porque, se têm possibilidade de falar, podem ferir, com suas blasfêmias, a devoção de quem assiste a execução.  [...] É herege quem disser coisas que se oponham às verdades essenciais da fé."

 
     Aparentemente, os intelectuais constituem a classe mais indesejável aos sistemas religiosos autoritários, pois estiveram entre as vítimas mais freqüentes da inquisição - o genial físico Galileu (1564-1642) esteve entre estes, por suas descobertas astronômicas. Em 1252, o Papa Inocêncio IV - decidido a dar prosseguimento aos planos sanguinários de seu antecessor - autorizava, por meio da bula Ad extirpanda,  o uso da tortura para a obtenção de confissões e, para isso, criava o assim chamado Tribunal do Santo Ofício. O estado não tardou a se subordinar a este perverso sistema. Os bastardos nascidos desta união espúria surgiriam na forma de inquisidores e nobres corruptos que, à custa de prestígio e poder econômico, galgavam posições na igreja e, por meio do famigerado tribunal, perseguiam e matavam seus desafetos políticos. Nesta época, a engenhosidade da mente humana produziu os instrumentos 'pedagógicos' da inquisição - os dispositivos de tortura. Por meio deles, o supliciado era 'purificado' e as 'verdades essenciais da fé' eram restauradas.
 
     Na Itália, em 1600, após oito anos de aprisionamento e acusado de blasfêmia e heresia por suas idéias panteísticas, foi queimado em público o brilhante poeta e filósofo renascentista Giordano Bruno. Milhares teriam igual destino.
 
     Na Espanha, a máquina inquisitorial foi posta a funcionar à mãos de Tomás de Torquemada (1420-1498), monge dominicano nomeado pelo Papa Inocêncio VIII para este sanguinolento ofício. Sob sua gestão, a brutalidade alcançou níveis estarrecedores, com milhares de judeus e outros - acusados de 'bruxaria' - torturados e mortos.
 
     Tal quadro horrendo suscita uma questão ainda não respondida de modo definitivo: foi o estado que se rendeu à igreja ou foi a igreja que se prostituiu junto ao estado? Os frutos dessa união indecorosa depõem contra ambos. 
 
 
Máquinas medievais de tortura - símbolos do autoritarismo religioso
 
     Séculos mais tarde, em uma carta redigida em 1770, Voltaire (1694-1778), grande filósofo do Iluminismo francês, declarou:

"...Não creio que haja, neste mundo, [uma só autoridade], tendo apenas quatrocentos cavalos chamados homens para liderar, que não reconheça a necessidade de colocar um deus nas bocas para servir de freio..."   

 
     De forma sarcástica, porém enfática, Voltaire tocou no ponto crucial - a religião como instrumento tradicional de poder. Ele sabia que a razão - tão enfatizada pelo Iluminismo - esbarraria ela própria em seus limites. Por isso, seguindo na contra-mão daquele movimento, admitia a necessidade social de uma divindade. Todavia,  opunha-se - e, aparentemente, com razão - à religião organizada tal qual se conhecia. Via nela, antes de tudo, um instrumento de opressão, um meio de legitimar o jugo do dominador sobre o dominado. Era o que havia mostrado a história até então - a profana união entre igreja e estado, um dando proteção e legitimidade ao outro. Certa vez, referindo-se ao cristianismo histórico, Voltaire escreveu a Frederico, o Grande: "Vossa majestade prestará à raça humana um serviço eterno se extirpar essa superstição infame..."  Noutra ocasião, em meio aos debates sobre a suposta 'moralidade' presente na ordem universal, ele, tomando como exemplo o terrível terremoto de 1755, em Lisboa, declarou:

     "...Lisonjeia-me que pelo menos os padres inquisidores tenham sido esmagados com os outros. Isso deveria ensinar os homens a não se perseguirem uns aos outros, pois, enquanto uns poucos santos patifes queimam alguns fanáticos, a terra engole todos de uma vez."

 

Voltaire - a razão contra o misticismo
 
     Não são palavras vazias. Naquele momento, Voltaire criticava de forma brilhante o sistema opressivo que o catolicismo mantinha há séculos em nome de Deus - instrumento hediondo cuja eficácia já houvera tentado reformadores como João Calvino (1509-1564), mais de duzentos anos antes. Já aos 24 anos de idade, Calvino havia rejeitado o catolicismo e, valendo-se da predestinação pregada por Santo Agostinho, criou um sistema que, em autoritarismo e intolerância, nada ficava a dever àquele que havia repudiado. Pelo contrário, seu radicalismo acabou por se degenerar em monstruosidade. Certa vez, em sua obra Declaratio orthodoxae fidei, definiu a forma com que se devia lidar com os 'hereges':

     "Deve-se esquecer toda a humanidade quando a glória  [de Deus] está em questão. (...) Deus não permite que sequer cidades e populações inteiras sejam poupadas, mas arrasa muros e destrói a lembrança dos habitantes e arruína todas as coisas em sinal de Sua total abominação, para que o contágio não se difunda."

 
      Mais uma vez, não são frases vazias. Parecem copiadas dos manuais de tortura da Inquisição. A brutalidade calvinista já havia se revelado meses antes, com uma execução à moda católica - na fogueira. A vítima foi outro intelectual, Miguel Servet, o qual ousou discordar publicamente da visão de Calvino sobre a natureza de Jesus Cristo. Esta era a teocracia calvinista, já em vigor na Suíça, por volta de 1538. Eis a sua definição da misericórdia divina:

     "Se indagarmos por que Deus tem pena de alguns e por que deixa que outros se vão, não há outra resposta que não o fato de agradá-lo fazer assim."

     
     É notável que tal doutrina medonha - em comunhão com a figura de Cristo - tenha atraído a tantos daquele tempo. Com base em tal sistema teológico, desenvolveu-se este ramo do movimento reformista do século XVI.  Muito embora, Martinho Lutero (1483-1546), ao contrário de Calvino, tenha inicialmente manifestado moderação, as pressões de sua aliança com a nobreza, pouco a pouco, fizeram-no sucumbir ao fundamentalismo. Em 1525, proibiu a celebração da missa. Em 1529, chegou ao ponto de criticar a "liberdade de consciência", a qual houvera anteriormente defendido. Por fim, dois anos mais tarde, aprovou a condenação à morte de Anabatistas e outros 'extremistas' por parte das autoridades. Na obra mencionada no início deste artigo, o escritor Paul Johnson declara:
 

 "Se tanto luteranos quanto calvinistas (assim como católicos) perseguiam ativamente os extremistas contrários, também se opunham e odiavam entre si." - História do Cristianismo, p. 349

 
     Assim, pois,  se resume o cenário religioso no ocidente, em meados do século XVI - um sistema corrupto e autoritário, o catolicismo papal, suscita o surgimento de duas ideologias de contestação, o luteranismo e o calvinismo. Estas últimas herdam do carcomido sistema anterior parte de suas doutrinas e, acima de tudo, sua intolerância. Deste modo, parece, no mínimo, contraditório que alguns adeptos do protestantismo não poupem críticas à Igreja Católica por suas arbitrariedades passadas, pois, conforme demonstra a história, tanto católicos quanto reformistas endossaram a violência como instrumento de doutrinação religiosa. Deveras, os três sistemas vigentes a partir do século XVI - catolicismo, luteranismo e calvinismo - a despeito de suas diferenças, guardavam notáveis similaridades, a saber, todas eram religiões compulsórias, flertando com o poder estatal e dele se valendo para impor sua hegemonia onde quer que se instalassem; todas reivindicavam o monopólio do ministério cristão. Esta situação perduraria por séculos no futuro. Mesmo na atualidade,  os ânimos entre católicos e protestantes permanecem exaltados em países como a Irlanda do Norte.
 
 
 

Calvino e Lutero - idéias diferentes, métodos semelhantes
 
     
     A Inquisição agonizou a partir do século XVIII e foi oficialmente abolida em 1834. Também, a secular aliança entre os sistemas religiosos e o estado passou por importantes mudanças. Gradativamente, as igrejas ocidentais perderam a 'mão-de-ferro' pela qual tinham imposto, desde a antiguidade, sua ideologia ao povo. Essa parecia ser uma inexorável tendência mundial. Em 1948, uma comissão especial da Organização das Nações Unidas (ONU) adotou a Declaração Universal de Direitos Humanos, a qual, entre outras coisas, defende, em seu artigo 18, a liberdade de consciência e religião. Muitas nações adotaram a Declaração. Assim, não mais podendo contar com o aparato repressor do estado, as religiões passaram a viver à sombra dele, amparadas pela lei. Tiveram que ceder à mudança dos tempos, lançando mão de métodos de persuasão não coercitivos. Novas estratégias tinham de ser traçadas. Na Idade Média, mediante a tortura, buscava-se ganhar a mente a partir do corpo. Na modernidade, segue-se o caminho inverso. A partir de então, está aberta a 'temporada de caça' às mentes humanas. Deste modo, as técnicas de controle das massas assumem grande importância no proselitismo religioso atual e têm se sofisticado. Examinemos algumas delas...
 
 

'Milagres' - Questão de Fé ou de Má-Fé?

     Início

     Os seres humanos sempre demonstraram  fascinação pelo sobrenatural. O evangelho de Mateus, capítulo 12 e versículo 38, relata que os escribas e fariseus reclamaram de Cristo um sinal milagroso como prova de sua identidade. No entanto, ele próprio declarara, em seu sermão do monte, que obras poderosas não constituíam evidência clara de idoneidade espiritual (Mateus 7: 22,23). Aparentemente, a advertência tem sido desconsiderada por muitos. De fato, o apelo ao sobrenatural tem sido uma das táticas mais empregadas pelas religiões na atualidade e - a julgar pelo número de novos adeptos - com bastante êxito. Por exemplo, na Grã-Bretanha existem cerca de treze mil 'operadores de milagres' registrados, alguns até no Serviço Nacional de Saúde. Atualmente, são os cristãos carismáticos aqueles que mais alegam receber graças milagrosas - um movimento com menos de um século de idade e que já conta com cerca de 540 milhões de seguidores em todo o mundo. É o fenômeno religioso que mais cresce no planeta. Em face da era tecnológica em que vivemos, trata-se de um colossal paradoxo. Deveras, apesar de todo avanço científico, aparentemente vivemos em uma época de exacerbação do misticismo. Uma onda de irracionalismo varre o globo, alcançando até os países mais desenvolvidos. As sociedades esotéricas pululam por toda parte. Alguns especialistas vêem isso com grande preocupação, afinal, este é um campo aberto para o fanatismo. Certamente trata-se de um fenômeno que merece ser investigado.

     A crença na cura pela fé remonta aos antigos egípcios e gregos. Estes últimos acreditavam que, Esculápio, o deus da medicina, visitava os fiéis doentes em sonhos e os curava ou lhes prescrevia uma receita para a cura. A deidade não exigia dinheiro do 'curado', apenas sua devoção. Séculos no futuro, tais crenças persistiriam. Por exemplo, na década de 1870, nascia, nos EUA, uma exótica ideologia religiosa - a 'Ciência Cristã'. Sua criadora,  Mary Baker Eddy (1821-1910) sustentava que todas as enfermidades eram manifestações do desequilíbrio espiritual e que a restauração da fé, por meio de serviços religiosos, resultaria na cura das doenças. Ela própria tinha um histórico de saúde frágil, tendo, segundo dizia, se recuperado à base de uma 'iluminação', enquanto lia a Bíblia, no ano de 1866. O poder curativo do Novo Testamento deveria constituir a terapia preferencial para tratar os doentes. Em 1875, ela lançou sua obra mais importante - Science and Health with Key to the Scriptures [Ciência e Saúde com a Chave para as Escrituras]. O que chama a atenção é o número de casos judiciais relacionados com este movimento religioso. Alguns pais têm sido levados às barras da  justiça e condenados por homicídio, após negarem socorro médico a seus bebês doentes, insistindo em ofícios religiosos, de acordo com a doutrina da Ciência Cristã, até a saúde das crianças piorar - nada mais se podendo fazer por elas. Uma mãe, após perceber que o quadro de seu filho só se agravava, contrariou, nos últimos momentos, sua crença e levou a criança ao hospital. Quando indagada pelos médicos por que demorara tanto em agir, ela caiu em si e, transtornada, assistiu ao drama do menino na sala de cirurgia. Infelizmente, em razão do atraso em buscar tratamento, a criança veio a falecer. A partir daí, sua amargurada mãe fundou uma associação de parentes de vítimas deste tipo de abuso religioso. Lamentavelmente, casos como estes continuam a acontecer e o curandeirismo tornou-se um próspero negócio.

Mary Baker Eddy - fundadora da 'Ciência Cristã'

     O evangelismo televisivo tem crescido nas últimas décadas em diversos países, especialmente nos Estados Unidos. Os espetáculos oferecidos pelos assim chamados 'curandeiros da fé' nada deixam a desejar aos grandes concertos de rock - música, holofotes, danças e acessos de êxtase. No meio deste turbilhão, surge a figura do pregador, recepcionado pela platéia como um autêntico popstar. A despeito de todo o brilho, alguns destes líderes religiosos têm sido desmascarados como charlatões e expostos ao vitupério público em razão de sucessivos escândalos sexuais. Dois episódios alcançaram grande repercussão - o caso do criador do movimento Praise the Lord [Louvai ao Senhor], o 'pastor eletrônico' Jim Baker, flagrado em adultério com uma de suas secretárias, e o de Jimmy Swaggart, um santimonioso pregador da TV, que, após ser visto na companhia de uma prostituta, ensaiou, diante das câmeras, um deprimente espetáculo de simulação de arrependimento. Episódios grotescos como esses só têm feito crescer o ceticismo público sobre tal modalidade de evangelismo.

 

Jim Baker e Jimmy Swaggart- caíram as máscaras...

     

     Não menos importantes que os escândalos sexuais são os escândalos financeiros - nos bastidores, vislumbra-se uma milionária indústria da fé. Diversas igrejas estão envolvidas em fraudes fiscais e seus líderes estão sob investigação por enriquecimento ilícito. Estes episódios  demonstram que nem mesmo em suas origens algumas organizações religiosas parecem ter tido motivações nobres.

 

"Luzes... câmera... ação!" - começa o grande espetáculo da fé!

     

     À época da elaboração do presente trabalho, um interessante documentário foi produzido pela rede Carlton Television. Exibido na TV Discovery, intitula-se 'Milagres' e aborda com impressionante realismo a questão do curandeirismo religioso. Seus criadores decidiram-se por um exame imparcial e aprofundado do fenômeno, consultando os próprios curandeiros, bem como solicitando o parecer de cientistas e de autoridades eclesiásticas. Os resultados são impressionantes. O leitor está convidado a examinar o assunto por si mesmo. 

     Para representar o lado dos curandeiros, a rede televisiva escolheu dois ilustres membros do concorridíssimo mercado do evangelismo televisivo: o pregador Benny Hinn (http://www.bennyhinn.com), de origem palestina e radicado no Canadá, e seu colega, Reinhard Bonnke, um alemão filho de imigrantes da II Guerra Mundial e líder do movimento Christ for All Nations [Cristo para Todas as Nações] (http://www.cfan.org/). O primeiro fez da América sua audiência ao passo que o segundo prefere a África. Um deles afirma pregar todo ano para mais pessoas do que o Papa, ao passo que, em uma única sessão, ambos reivindicam um número de 'milagres' superior àquele registrado em todo o evangelho. 

 

Hinn e Bonnke - Parceiros na indústria da fé

     

     Representando os críticos do fenômeno, neurocientistas, psicólogos e um rabino foram consultados. Os maiores pesquisadores do assunto dão sua palavra e revelam conclusões inesperadas sobre o fenômeno das 'curas espirituais'.

     Um ponto marcante em todas as sessões públicas de 'cura' é seu ritmo progressivo, partindo de um ambiente tranqüilo, com música de fundo suave e pessoas confraternizando, seguido de um primeiro momento de êxtase, com a chegada do pregador e, finalmente, o momento mais esperado - a sessão de 'milagres'. Nesta, uma onda de movimentos frenéticos vai, pouco a pouco, disseminando-se pela platéia. De repente, o orador cerra o punho para os céus e convoca a assistência  a invocar o poder de Deus. O público atende o chamado e, a partir daí, estabelece-se uma atmosfera de histerismo - pessoas gritam, choram, riem, dançam e, às vezes, desmaiam. Nesse momento, o pregador convoca aqueles que se sentem 'curados' a erguerem a mão e subirem ao palco. Os primeiros a se manifestar normalmente são as vítimas de dores crônicas. Os mais exaltados lançam ao chão suas muletas ou deixam suas cadeiras-de-rodas, arriscando uma jornada até o púlpito. Uma vez reunidos, dão 'testemunho' entre risos e lágrimas.  Incentivados pelo exemplo, mais alguns erguem-se da platéia e juntam-se a eles. Paralelamente, muitos entram em um estado de transe convulsivo e caem ao chão se contorcendo. A essa altura, os brados da multidão já não são inteligíveis. Aos que não se sentiram curados, o pastor dirige palavras de conforto, incentivando-os a esperar por sua vez, desde que cultivem mais fé. Como não há meios de aferir a fé de uma pessoa, o curandeiro obtém um álibi perfeito. Ao final, todos entoam cânticos e gritam palavras de louvor. Está encerrada a sessão. Muitos vão para casa convencidos da 'cura', mesmo com médicos e especialistas dizendo o contrário. 

     Todos os emocionantes eventos descritos acima quase chegam a ofuscar a ocasião em que, antes da sessão de cura, o orador convoca sua audiência a fazer doações. Na apresentação de Benny Hinn, por exemplo, são distribuídos envelopes com formulários contendo sugestões de oferta que vão desde 100 a 10.000 dólares. Os ouvintes são incentivados a contribuir como forma de demonstrar sua fé no poder curativo de Deus. Centenas destes formulários são recolhidos por ministros 'obreiros' durante a sessão. O quanto eles representam em termos de lucro, pode-se apenas conjeturar. Contudo, o formidável patrimônio acumulado pelo pregador, na forma de mansões, uma 'gorda' conta bancária e um jato particular são evidências claras do destino de, pelo menos, parte destas doações. O pior - observa-se que muitos contribuintes são pessoas humildes e pouco instruídas, que doam seus parcos recursos na esperança de um milagre para si mesmas ou para um ente querido atingido por uma enfermidade.

     Um dos casos mais tocantes é o do pequeno Ashnil, um garotinho de 10 anos, filho de imigrantes indianos e acometido de dois tumores cerebrais, que gradativamente suprimiram-lhe as funções neurológicas. Seus pais, desesperados, recorreram a Benny Hinn em busca de ajuda. Dizem esperar um milagre. Tomados de forte emoção, comparecem ao espetáculo do pregador. Lá, assistem Hinn  'profetizar' um ano novo de muitos revezes econômicos e muitas mazelas. Contudo, diz ele, "aqueles que contribuírem para a obra de Deus serão poupados". O que 'contribuir' significa, logo os fiéis descobrem -  os envelopes de doação são distribuídos. Após os receberem, os presentes são convocados a responder à seguinte pergunta: "Estão prontos para dar à obra de Deus?". A maioria responde 'sim'. Uma vez coletadas as doações, o pregador dá prosseguimento à cerimônia e convoca os pais de Ashnil a vir ao palco. Lá, Benny Hinn impõe as mãos à criança e promete que Deus irá 'tocá-la'. Neste momento, pede a todos que estendam sua mão em direção ao menino. Todos vêem os pais vertendo lágrimas de êxtase. O que ninguém viu foi o que aconteceu a seguir - a família retornou esperançosa para casa, após ter decidido doar 100 dólares todos os meses e mais uma oferta especial de 2.000 dólares. Contudo, a infeliz criança não melhorou. Os pais insistiam negando os fatos e reafirmando sua fé na ocorrência de um milagre a qualquer momento, até que, finalmente, Ashnil  sucumbiu, sete semanas depois. Ao invés de carregar uma criança curada nos braços, seus pais tiveram de carregar suas cinzas após uma cerimônia de cremação. O que teria havido? Falta de fé?

     O caso acima descrito não constitui um fato isolado. Na verdade, houve outras vítimas. Uma mulher acometida de câncer nos pulmões foi declarada 'curada' naquela mesma noite. Seus médicos, contudo, discordavam e, ao que tudo indica, com razão, pois a paciente faleceu, pouco tempo depois. Um homem que sofria de uma enfermidade grave em um dos membros inferiores passou a rejeitar o tratamento após uma sessão de 'cura'. O resultado foi que seu quadro clínico agravou-se e uma cirurgia urgente foi indicada por seus médicos. Teriam estas pessoas 'falhado na fé'? Ora, elas estiveram entre os mais entusiasmados fiéis que foram ao palco dar 'testemunho' de sua cura. Quem as enganou - Deus, elas mesmas ou o curandeiro?

     O colega de Benny Hinn - Reinhard Bonnke - não tem um currículo melhor. Em uma de suas 'cruzadas' na África, quinze pessoas morreram esmagadas pela multidão que tentava sair do lugar. Enquanto isso, ele movimentava-se freneticamente, de  um lado a outro do palco, gritando expressões como "Aleluia" e "Louvado seja o nome do Senhor". Nos bastidores, um de seus ministros fazia uma triagem, elegendo os casos que valiam a pena serem apresentados no palco. Não se registrou nenhum caso de cura atestada por médicos. Na verdade, o único médico solicitado foi o legista. Todavia, o pregador partiu para outra cruzada, levando consigo um número indeterminado de contribuições financeiras.

     Confrontado com o fato de os donativos provirem de pessoas humildes - algumas em grave situação econômica - em nítido contraste com a prosperidade material dos pregadores, Benny Hinn respondeu:

"Embora eu receba um bom salário e more com conforto, embora eu voe em um avião particular, quero lhe explicar por que faço assim. Se eu não voasse em um avião particular, logo estaria esgotado. Então é um benefício, vou durar mais tempo. Serei mais produtivo para o reino de Deus... Não vejo nenhum problema no modo como angariamos os fundos. A maioria só doa porque acha que Deus os está levando a doar, não porque alguém pediu."

     É difícil levar a sério tal explicação. Além de fugir do cerne da questão, a saber, a sobrecarga financeira sobre os ombros já combalidos de pessoas pobres que se endividam para fazer doações, o pregador justifica sua vida nababesca como um tributo adequado a um missionário. Se examinarmos o precedente de Jesus Cristo, o contraste é gigantesco. No evangelho de Mateus, ele fala de si próprio, dizendo: "As raposas têm covis e as aves do céu têm poleiros, mas o Filho do homem não tem onde deitar a cabeça" (Mateus 8:20). Em seu sermão da montanha, incentiva os ouvintes a não acumularem riquezas, exceto as espirituais (Mateus 6: 19,20). Se houve um modelo deixado por Jesus Cristo, este certamente não é de prosperidade material. Por outro lado, se olharmos para os apóstolos como Paulo e outros, todos eles desprovidos de bens materiais, fica-se a imaginar de onde Benny Hinn  extraiu sua estranha justificação, senão de sua própria ganância. Quem induziu a platéia a crer que fazendo doações obteria a graça curativa do Espírito Santo?

     Consultado sobre o assunto, o rabino Harold S. Kushner declarou:

"Na verdade, espero que haja um lugar especial no inferno para as pessoas que tentam enriquecer com o sofrimento alheio. Atormentar o cego, o aleijado, o agonizante, o aflito, dar esperanças aos pais de uma criança severamente doente é de uma crueldade indescritível. Fazer isso em nome de Deus e da religião é, para mim, algo imperdoável. Atormentar as pessoas com a promessa de cura, a qual é biológica e cientificamente impossível é cruel e desnecessariamente cruel. Criar uma atmosfera de apoio que diz que mesmo que uma parte de você não esteja bem, você ainda está aqui, é nosso irmão, filho de Deus - esta é a resposta religiosa. O resto eu não sei o que é..."

     As palavras do rabino parecem inteiramente arrazoadas. Afinal, que espécie de sentimentos devem nutrir aqueles que, ouvindo todo o tempo que Deus cura os seus filhos queridos, não são agraciados com a cura? Devem eles atribuir a culpa a si mesmos? Devem duvidar de sua fé? Muito embora esta constitua, para os curandeiros, uma esplêndida 'cláusula de fuga', à qual sempre recorrem perante os casos em que a promessa de cura não se manifesta nem na aparência, o padrão bíblico - que supostamente deveria servir de modelo - parece indicar outro entendimento. A Bíblia não mostra um só relato em que Cristo ou seus discípulos coletassem dinheiro antes de operar milagres. Ao contrário, a regra era: "de graça recebeste, de graça dai... não adquirireis nem ouro, nem prata... para os bolsos de vossos cintos" (Mateus10: 8). O apóstolo Paulo confirma este princípio, dizendo: "não somos vendedores ambulantes da palavra de Deus..." (II Coríntios 2: 17). Tampouco há relatos em que quaisquer destes personagens bíblicos, fracassando na tentativa de cura, culpassem a pessoa por falta de fé. Por exemplo, o evangelho de Lucas, cap. 17 e versículos de 11 a 19, mostra dez leprosos dirigindo-se a Cristo em busca de um milagre. Todos são curados. Todavia, apenas um deles - natural de Samaria - retorna e dá glória a Deus. Os demais não aparecem sequer para agradecer pela bênção. É digno de nota que o próprio Cristo não deixasse tal fato passar em branco, censurando a atitude destes nove. Assim, pelo menos nesse momento, a fé professa do candidato - embora enfatizada em diversas ocasiões - não foi um fator limitante para o poder divino. Do contrário, estaríamos diante de uma estranha associação entre fé e ingratidão. De fato, segundo os evangelhos, Jesus Cristo operou milagres a despeito da incredulidade daqueles à volta. Os relatos da cura de um paralítico (Mateus 9: 1-8) e da ressurreição da filha de Jairo (Marcos 5:40 e Lucas 8:53) retratam-no realizando obras poderosas mesmo diante da descrença ou até zombaria da maioria dos presentes. Por outro lado, os relatos de ressurreição podem sugerir que era a fé de terceiros o fator na ocasião, já que o beneficiado - o morto - não poderia demonstrá-la. Ademais,  a tese da fé como condição essencial para a realização do milagre - convenientemente defendida pelos curandeiros - desconsidera a hipótese de Cristo enfatizá-la, não como fator limitante para uma cura, mas como condição fundamental para algo maior - a salvação da pessoa.  Assim sendo, não deveria a fé firme de alguns agraciar a fé fraca de outros com o benefício da cura? Com efeito, há relatos bíblicos de pessoas adquirindo fé após um milagre, não antes dele, sendo o apóstolo Paulo um dos exemplos mais tocantes (leia-se o relato de Atos, capítulo 9). Em vista disso, por que se dá que os curandeiros sempre se desculpam de seu fracasso por atribuírem-no à fé fraca do fiel?

 

Os fiéis - abençoados ou vítimas?

     O oportunismo religioso não é algo novo. Deveras, já no segundo século o problema era sentido. Diz o historiador Paul Johnson:

"A natureza do cristianismo, transmitida rapidamente por evangelistas errantes, atraía charlatões. Pagãos sofisticados zombavam dos cristãos por sua ingenuidade. O espirituoso satirista grego Luciano... era particularmente crítico quanto aos cristãos porque 'extraem suas crenças da tradição e não insistem em provas definitivas. Qualquer fraude profissional pode ser imposta a eles e ganhar muito dinheiro com grande rapidez'... Era sempre difícil distinguir entre os verdadeiros inspirados, os auto-iludidos e os meros criminosos." - História do Cristianismo, p. 64

    Aparentemente, os 'meros criminosos' continuam entre nós. Talvez a regra de 'por seus frutos os reconhecereis' (Mateus 7:20) continue válida, afinal, quando supostos 'milagreiros' não têm escrúpulos em fazer de seu ofício uma próspera carreira - amealhando fortunas à custa de 'auto-iludidos' - é natural questionar, não apenas suas intenções, mas também a fonte de seu aparente 'poder'. O que diz a ciência sobre isso?

     Algumas décadas atrás, um enigma intrigava um médico - ele não compreendia como certo procedimento cirúrgico contribuía para uma melhora em um quadro conhecido como 'angina do peito', no qual o paciente tem uma deficiência de irrigação sanguínea no músculo cardíaco e, por isso, experimenta fortes dores torácicas ao esforço físico. Desse modo, ele experimentou o seguinte teste: selecionou diversos pacientes anginosos e informou-lhes que seriam submetidos àquele tipo de cirurgia, podendo esperar a cura completa do mal. Os doentes foram, então, preparados e levados ao centro cirúrgico. Foram anestesiados e tiveram o peito aberto e, em seguida, fechado - apenas isso. Nenhum ato terapêutico foi realizado. Surpreendentemente, diversos deles apresentaram uma sensível melhora - na mesma proporção dos que tinham se submetido à cirurgia original. O resultado - abandonou-se o antigo procedimento. O que estava ocorrendo, então? Resposta: uma peculiaridade da mente humana, denominada 'efeito placebo'. Esta palavra de origem grega quer dizer 'agradar' e representa, em linguajar científico, o poder da mente sugestionada sobre o corpo. É algo bem conhecido pelos pesquisadores de novos medicamentos. Ao se testar uma nova droga, os pacientes são separados em grupos e a um destes grupos administra-se uma falsa droga, pois sabe-se que uma parcela das pessoas manifestará o efeito placebo, sentindo um alívio dos sintomas ao receber um falso medicamento. Se a proporção for igual nos dois grupos, então deduz-se que a droga não é eficaz. Muito embora, seja um fenômeno facilmente perceptível, possui limites. Ele não é capaz de restaurar membros perdidos ou de curar tumores. Todavia, há um sintoma para o qual mostra grande eficácia - a dor, curiosamente a maior parcela dos casos de 'cura' pela fé. 

     É cientificamente incorreto referir-se à dor como 'doença' - exceto por alguns casos de dor crônica de origem neurológica, ela é uma reação normal do sistema nervoso a algum tipo de injúria. Na verdade, trata-se de um dispositivo de proteção, um alarme de defesa, alertando a pessoa para uma disfunção do organismo ou evitando uma lesão maior. É a dor que impede, por exemplo, que uma pessoa com uma fratura óssea continue a utilizar o membro afetado, agravando o problema. Da mesma forma, a dor nos impede de colocarmos a mão em uma chama ou de forçarmos um objeto cortante ou perfurante contra a pele. Sem ela - a dor - as doenças seriam descobertas tardiamente, quando talvez já fosse tarde para tratá-las. De fato, muitas pessoas doentes só procuram o médico quando acometidas desta desagradável sensação. Assim sendo, é também incorreto falar em 'cura' da dor - ela é um sintoma apenas, não a doença em si. A dor não é 'curada', mas suprimida - e de três formas: pela reparação da injúria, pelo uso de medicamentos ou por uma ação do próprio sistema nervoso. Sendo gerada pelo corpo, a dor pode ser modulada por substâncias naturalmente produzidas nele mesmo - chamam-se 'endorfinas'.  Elas têm ação analgésica, aliviando a dor e fazendo o paciente pensar que a causa da mesma foi sanada. Equívoco - apenas o efeito foi atenuado, o problema subjacente pode persistir. A experiência demonstra que o cérebro sugestionado pode aumentar grandemente a liberação destes agentes, suprimindo, às vezes por completo, a sensação dolorosa - esta é, por assim dizer, a 'fisiologia da fé', um processo natural, mistificado e explorado pelos curandeiros para a obtenção de lucro desonesto. A propósito, é comum, em terminologia médica, falar do estágio 'subclínico' de uma enfermidade, ou seja, aquele em que  não se observam sintomas. Com efeito, a cessação de um ou mais sintomas poderá conduzir a um agravamento da doença, pelo simples fato de a pessoa, nestas circunstâncias, interromper o tratamento médico. É o que tem acontecido a muitos doentes que buscam a 'terapia' de curandeiros e é nisso que consiste o maior perigo da ação deles. É patético assistir, às vezes, aos pacientes alardeando a cura de uma doença simplesmente porque não sentem mais dor. Ora, isto nada prova. O exame posterior das lesões, comprovadamente pré-existentes, por um profissional habilitado é o único instrumento capaz de aferir a cura do mal.

     Curiosamente, os evangelhos não registram nenhum caso em que Cristo tratasse casos específicos de dor. Ao contrário, as doenças consistiam em moléstias facilmente observáveis, algumas sendo deformadoras ou mutiladoras, como os casos de paralisia congênita, lepra ou de pessoas com membros 'ressequidos' (João 5: 5-9; Mateus 8: 2,3; João 5: 3). Por que se dá, então, que não se teve registro comprovado até hoje, nas sessões de 'cura' pela fé, de coisas tais como a reabilitação de pacientes tetraplégicos por fratura da medula, ou a restauração de um membro amputado, ou a recuperação de membros deformados, por exemplo, pelo vírus da poliomielite? As Escrituras também estão repletas de casos de ressurreição dos mortos, sendo que Cristo, em Mateus, capítulo dez e versículo oito, convoca seus discípulos a fazerem o mesmo. Conseguiram realizá-las os 'curandeiros da fé'? Ou estarão eles esbarrando nos limites naturais do 'placebo'?

     Para demonstrar o tremendo poder da auto-sugestão,  um cientista realizou o seguinte experimento: selecionou sessenta pacientes vítimas de dores crônicas e os separou em dois grupos de trinta. Todos foram convidados a fazer oito sessões semanais de 'terapia', relaxando em um divã, enquanto um curandeiro, sentado dentro de um cubículo e protegido por um espelho, realizava um ritual de 'cura' direcionado ao paciente. Um importante detalhe foi omitido dos voluntários - o curandeiro estaria presente apenas para um grupo de trinta pessoas. Para as outras trinta, nada havia ao lado delas, além de uma caixa vazia. Todavia, os resultados foram impressionantes. Ambos os grupos relataram sentir fortes sensações durante o experimento. Alguns disseram enxergar pontos luminosos. Nos dois grupos, aproximadamente a mesma proporção de pacientes relatou sentir alívio das dores, ou seja, com ou sem o curandeiro. A que conclusão isso deveria levar? É óbvio - a auto-sugestão, não o curandeiro, foi responsável pela aparente cura dos sintomas.

     Perguntado se as ocorrências em suas sessões de 'cura' não eram simplesmente o efeito placebo, o curandeiro Benny Hinn admitiu que "em alguns casos, sim", sendo que ele próprio se impressionava em ver uma pessoa deixar uma cadeira-de-rodas, caminhar pelo palco e, mais tarde, retornar à cadeira. O que o pregador deixou de mencionar foi o critério pelo qual distingue os casos verídicos dos falsos.

     A mesma pergunta foi feita a Reinhard Bonnke e ele mostrou-se visivelmente perturbado pela questão. Bastante hesitante em suas palavras, mostrou-se evasivo e fugiu de uma resposta direta por dizer que não é psicólogo e deixa estas questões 'para outros'. Resumindo, o entrevistado, após titubear bastante, fez o que se chama apelo à ignorância. Deste modo, ficou também patente seu desconhecimento científico, bem como seu desinteresse por uma investigação racional do fenômeno. É compreensível que tenha agido assim, pois tal investigação acarretaria o sério risco de desmascarar uma impostura.

     O professor Dr. Herbert Benson, da Escola de Medicina de Harvard, explica as bases neurológicas do fenômeno:

"Nós humanos somos a espécie mais inteligente na terra e, por isso, controlamos e dominamos o planeta. Mas essa inteligência tem seu lado negativo. Temos um conhecimento que outras espécies não têm. Sabemos que somos mortais. Nós todos vamos morrer." 

     Tal explicação está de acordo com a teoria mencionada no início deste artigo, pela qual o desenvolvimento do lobo cerebral frontal nos humanos foi compensado pelo desenvolvimento do sistema límbico. Deste modo, nossa consciência do futuro é contrabalançada pela nossa capacidade imaginativa, nosso senso de espiritualidade, nossa noção do 'eu'. A não aceitação da fugacidade da vida reclamou de nossos ancestrais uma resposta - esta viria na forma de uma crença. Após inúmeras verificações, os seres humanos constataram que, com o tempo, nenhum vestígio dos cadáveres restava, nada que se pudesse ver ou tocar, nenhum indício de uma sobrevivência à morte. Viram-se, pois, obrigados a recorrer a algo que transcendesse aos sentidos físicos. Nascia aí o conceito de um espírito (ou alma), capaz de deixar o corpo e viver fora dele. Boa parte da arquitetura antiga baseia-se neste conceito - as pirâmides egípcias, por exemplo. Contudo, as religiões oferecem hoje muito mais que isso - elas prometem vitória sobre a decadência física já!  O médico e cientista, prof. Harold G. Koenig, explica:

"As crenças e práticas religiosas sempre foram relacionadas com saúde física e práticas de cura. Os romanos, os gregos e certamente os chineses e as primeiras civilizações do Vale do Indo, há milhares e milhares de anos, todas lidavam com saúde e cura em termos espirituais."

     Os povos antigos não dispunham dos grandes meios de comunicação. Seus curandeiros tinham fama em uma área restrita. Todavia, com o advento das transmissões televisivas via satélite, os curandeiros da modernidade alcançaram um poder sem precedentes na história. Adolf Hitler, em sua obra Mein Kampf [Minha Luta], declarou:

     "Sei muito bem que se conquistam adeptos menos pela palavra escrita do que pela palavra falada e que, neste mundo, as grandes causas devem seu desenvolvimento, não aos grandes escritores, mas aos grandes oradores." (negrito acrescentado)

     O ditador nazista estava certo. Sua formidável percepção do comportamento das massas fez dele um líder sem precedentes na história da Alemanha. Ainda hoje causa forte impressão assistir a vídeos da época, com o führer discursando energicamente diante de multidões hipnotizadas. Ele se inspirara, por anos, na figura de Benito Mussolini (1883-1945), o ditador italiano. A enorme similaridade de talento, metodologia e objetivos entre Hitler e o Duce - ambos, hábeis manipuladores de massas - os fez assinar, em 1939, o Pacto de Ferro, criando o eixo fascista ítalo-germânico. O resultado, a história conhece bem - o III Reich mergulhou o mundo no mais sangrento conflito que a humanidade já conheceu, a II Guerra Mundial.  Esse fato específico, por si mesmo, revela o risco potencial representado por líderes carismáticos, capazes de agir sobre suas audiências como manipuladores de marionetes. 

 

O poder dos gestos

     

     O rabino Kushner demonstra estar bem ciente disso ao dizer: 

"Uma das verdades que eles vislumbraram é que o ser humano é uma criatura social. Alguma coisa física, química, nos acontece quando estamos em uma grande multidão. Não quero exagerar, mas Hitler entendeu que podia dizer coisas a uma multidão de cem mil com mais efeito do que a uma multidão de cem."

    O Neurologista Marcel Kinsbourne completa:

     "São os passos dos soldados marchando. Eles marcham em conjunto, fazendo a mesma coisa no mesmo momento. O desfile, a aclamação do líder na enorme praça, fosse em Nuremberg ou na Praça Vermelha, o envolvimento dos tambores, a cadência dos passos, do canto, da música, dos gestos de saudação - todos estes elementos têm o efeito de submergir o indivíduo no grupo. São muitas pessoas juntas, com um único  propósito, desempenhando simples atos em cadeia. Eles são como um único organismo. Os organizadores levam as pessoas a este clímax, para que façam algo que não fariam individualmente. É como a investida na batalha, o risco de morte, o ferir o inimigo... ou levantar da cadeira-de-rodas, se for o que Deus ordenou."

     O homem que se tornou o 'braço direito' do führer, o jornalista Josef Goebbels (1897-1945), também era um perito manipulador de multidões. Sua política era a de que "uma mentira, repetida mil vezes, com convicção, torna-se verdade". Hitler rapidamente reconheceu seu talento, nomeando-o Ministro da Propaganda - uma escolha perfeita. Em uma ocasião, Goebbels  proferiu um inflamado discurso diante de uma audiência atenta, intitulado "Como se Leva um Povo a ter Consciência". Logo ficaria evidente seu extraordinário poder sobre a massa. Manuseando as palavras com a  habilidade de um maestro, ele viu uma multidão, enfeitiçada, seguir seus gestos, como músicos em uma orquestra. No decorrer de suas falas, ele foi várias vezes, interrompido por aplausos entusiasmados e, ao final, encheu a platéia de êxtase com a seguinte pergunta: "Vocês querem a guerra total?" Um retumbante "sim!" ecoou pelas galerias. Se a multidão tinha ou não consciência de que tal decisão significaria o aniquilamento de seus filhos e a destruição de suas cidades é uma questão a ser discutida. O fato é que, ao deixar o púlpito, o orador confidenciou a  seus assessores: "Se eu lhes tivesse mandado saltar do topo de um prédio, eles o teriam feito!" É bem provável que sim...

 

Mussolini e Goebbels - o controle das massas a serviço da ditadura

     Observe o leitor as fotos acima e pergunte-se: que fenômeno estava em operação ali? Haveria similaridades entre os eventos políticos de massa e os grandes acontecimentos religiosos, nos quais as multidões são impelidas ao êxtase? Não vemos o mesmo tipo de atmosfera nos estádios de futebol lotados, nos quais as torcidas comportam-se como um organismo único? É um fato que os espetáculos de cura são um fenômeno presente em diversas culturas, evocando-se uma infinidade de deuses. Na Índia, por exemplo, milhares de pessoas reúnem-se em torno de uma mulher que acreditam ser a reencarnação de uma deusa hindu. Atribui-se a ela toda sorte de ato milagroso - desde a cura da lepra até uma ressurreição. Ainda hoje, em diversas partes do mundo, as pessoas recorrem a feiticeiros chamados 'xamãs' em busca de alívio para problemas de saúde. Muitos alegam obter alívio dos sintomas. Da mesma forma, todos os anos, cerca de cinco milhões de pessoas peregrinam até Lourdes, na França, em busca das graças de Nossa Senhora. Não são poucas as que relatam tê-las alcançado. A igreja, até esta data, endossou oficialmente apenas 66 ocorrências, relutando em reconhecer inúmeras outras, da mesma forma que hesitou em dar crédito, na época da suposta aparição, a uma pequena pastora - Bernadette Soubirous (1844-1879) - que, aos catorze anos, alegava ter tido uma visão da santa. O que muitos não sabem é que relatos de visões já faziam parte do folclore da França por séculos e que o papa só endossou o caso de Lourdes após aquela nação se declarar sem religião. Para repelir tal movimento, a igreja precisava do apoio de camponeses  - gente crédula, que cria piamente em relatos de pastoras. Em outras palavras, o apelo ao fenômeno foi, na verdade, um episódio de casuísmo político. Contudo, há, até esta data, incontáveis relatos de 'milagres' supostamente alcançados por peregrinos devotos de Nossa Senhora.  Neste caso, é razoável perguntar: diferem estes fenômenos daquele encontrado entre os ramos pentecostais ou os 'curandeiros da fé'? Afinal, quando o mesmo resultado é obtido de formas distintas, alegando motivos distintos e evocando forças distintas, é de se supor que todos estes eventos tenham um denominador comum. Não seria este ponto comum o efeito placebo, ou seja, a melhora do paciente porque crê que vai melhorar?

 

Um xamã no México e os peregrinos de Lourdes, na França

     

     O neurocientista Michael A. Persinger  sintetiza a questão da seguinte maneira:

"Bons oradores, que manipulam a multidão para o bem ou para o mal têm características similares. Portanto, o estímulo que eles emitem podem influenciar multidões de modos similares. Quando se analisam pessoas como Bonnke, Hinn, Hitler, os desfiles em Nuremberg, vemos que é tudo parecido, e deveria ser, pois são humanos influenciando outros humanos. O bem ou o mal dependem de um julgamento de valores e de perspectiva histórica."

     O bem ou o mal dependem também das intenções de quem faz uso de tais habilidades. Em todo caso, o alvo de tais oradores é um só - a mente da assistência. É significativo que o curandeiro Benny Hinn, pouco antes de suas sessões de 'cura', dirija a seus ouvintes as seguintes palavras:

"Abra todas as suas defesas. Você não mais vai proteger nem suas emoções. Você se tornará completamente aberto, porque a unção exige que cada parte de você esteja aberta. Nestes momentos, você fica extremamente frágil e sensitivo."

     Este apelo parece servir bem ao propósito de um hipnotizador. Tanto o discurso quanto a expressão no olhar da multidão não deixam dúvida. Os eventos que se seguem estão bem dentro do padrão esperado. O Dr. Persinger os descreve assim:

"Você começa com o tipo de pessoa que está sempre falando de dor e dificuldades. Geralmente está um pouco deprimida. Acha que algo está faltando em sua vida.Coloque-a em grupos de milhares de pessoas, onde se sinta pequena pelo tamanho do lugar, em uma catedral, uma montanha ou ao ar livre. A proximidade de milhares de pessoas iguais a nós produz um tipo especial de estímulo psicológico, uma sensação de unidade, de humanidade. É preciso que haja música, que sobe e desce a cada quatro ou cinco segundos, para produzir um tipo de "onda de vivência", a qual aumenta o estímulo e libera substâncias opióides, que aumentam a hipnose, a sugestão. Com o grupo neste estado extático, de expectativa, aparece o orador, o evangelista, que irá coordenar as experiências com a massa. Ele deve ser um tipo de maestro, para manter a orquestração cognitiva. É preciso que haja movimentos gestuais, os quais permitem um senso de poder e controle. E, conforme a pessoa começa a passar a mensagem, a fazer declarações cheias de emoção e imagens, estas imagens ganham um enorme valor pessoal por causa das substâncias opióides e do estado de êxtase do grupo. Então vemos as características da liberação de opióides - sorrisos suaves, como se estivessem meio bêbados, é a sensação de unidade com o resto do grupo... a depressão acaba... eles se sentem revigorados e têm vontade de chorar... as pessoas vão se movimentar para manter a experiência, a qual ocorre por leves alterações elétricas no cérebro. Estas alterações, com o efeito analgésico e a euforia, também liberam componentes que produzem supressão. Assim, quem tem uma inflamação como a artrite sentirá menos sintomas. Quanto ao poder de cura, o curandeiro carismático é apenas o catalisador que desencadeia o processo na pessoa. A alteração vem do cérebro e das expectativas da pessoa, das alterações químicas e da eletricidade cerebral, as quais geram alterações em seus próprios corpos."

     As substâncias 'opióides' a que o neurocientista se refere são naturalmente produzidas no cérebro de qualquer pessoa e conferem ao indivíduo  sensações de bem estar e alívio da dor. Ainda há pouco, tratamos de uma delas - as 'endorfinas'. Em doses maiores, alguns de tais agentes podem gerar alucinações. Seus efeitos podem ser imitados pela morfina, droga bastante usada em hospitais, no atendimento a pacientes com dores fortes. Além deles, os viciados em heroína experimentam tais sensações em um grau muito elevado. A experiência com estes pacientes e o estudo dos sintomas levaram a medicina a ter uma melhor compreensão do fenômeno de sugestão e hipnose. De fato, pessoas hipnotizadas podem ter a sensação de dor suprimida. Um profissional certa vez chocou seu público em um espetáculo de TV, no qual um paciente sob hipnose teve agulhas espetadas em seu corpo sem, no entanto, referir qualquer dor. Na ocasião, o hipnotizador não evocou poderes sobrenaturais ou a intervenção de espíritos, mas disse  tratar-se simplesmente de uma habilidade da mente humana. Diante destes eventos, não é de surpreender que um paciente de 'cura espiritual' sinta alívio dos sintomas de patologias como artrite, enxaqueca, cálculo renal e assim por diante. A ciência já aprendeu a não subestimar o poder da mente sugestionada sobre a fisiologia do corpo. Infelizmente, muitos fazem disso um meio para enriquecimento ilícito.

     O narrador do documentário conclui o estudo com as perturbadoras  palavras:

"O que eu questiono é o uso destes poderes por curandeiros religiosos que aparecem na cidade por um dia ou dois, prometem milagres que são biológica e cientificamente impossíveis, coletam dinheiro e vão embora. A maior injustiça aqui é a mensagem, recebida por pessoas em momento de desespero, de que, se tiverem muita fé e derem bastante dinheiro, Deus irá restaurar o braço que não têm, curar ossos fraturados e acabar com tumores cancerígenos. Enquanto Deus não cumpre a promessa, vemos que os doentes e seus entes queridos culpam a si mesmos ou negam o fracasso, porque a necessidade de crer que estão em paz com Deus, que ele realmente recompensou sua fé com um milagre é tão grande que alguns recusam ajuda médica, mesmo quando sua condição piora... às vezes até à morte."

     É provável que os curandeiros continuem entre nós, pois eles estiveram presentes em todas as culturas. Contudo, é preciso que saibamos distinguir entre a figura um pajé - personagem tradicional de certas tribos - e o mero estelionatário urbano. Lamentavelmente, é também provável que muitos do segundo tipo se locupletem às custas de vítimas crédulas. Todavia, o acesso da população à informação e uma maior vigilância das autoridades seriam medidas oportunas no sentido de coibir este tipo nefasto de indústria.

 

Cultos - a Morte Ronda a Fé

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       A palavra 'culto' tem interpretação subjetiva, dando margem, às vezes, a polêmicas. Para efeito deste estudo, consideraremos como culto todo movimento religioso de caráter fundamentalista - geralmente minoritário - cujas crenças difiram substancialmente da ortodoxia e cuja ideologia apresente riscos à integridade física, mental, social ou patrimonial  do indivíduo. Todavia, tal definição não exclui a possibilidade de que mesmo as denominações religiosas tradicionais apresentem, ocasionalmente, ameaças ao tecido sócio-familiar, até porque tais movimentos estão sujeitos à formação de alas fundamentalistas.

     Os cultos podem diferir quanto ao objeto de devoção, mas todos eles guardam, por assim dizer, 'sinais' identificadores quanto à sua natureza. Sua ideologia repousa sobre quatro 'pilastras', a saber:

1) Louvor a personalidades: todos os cultos operam na forma de pirâmide hierárquica, com acentuado destaque à figura no topo - normalmente o fundador do movimento. O cristianismo, como qualquer outro movimento religioso, repousa sobre suas alegações históricas. Sem elas, fica sem passado e sem significado. Os cultos também precisam de passado. Como eles não têm histórico que remonte aos primeiros séculos do cristianismo - o que talvez lhes desse crédito pela tradição - precisam manter viva a memória do líder, bem como todas suas supostas realizações, de modo a manterem uma noção de identidade. Poderíamos citar a Igreja da Unificação, centralizada na pessoa do 'Reverendo' Moon, o Adventismo do Sétimo Dia, centralizado na pessoa de sua 'profetisa', Ellen G. White, o Mormonismo, centralizado na pessoa de Joseph Smith e as Testemunhas de Jeová, centralizadas na pessoa de Charles T. Russell.

 

Sun M. Moon

(1920- )

Ellen White

(1827-1915)

Joseph Smith

(1805-1844)

Charles Russell

(1852-1916)

 

2) Existência de um 'texto-guia': todo movimento religioso provém de uma corrente interpretativa de um texto 'sagrado', seja o Alcorão ou a Bíblia. Como tais textos estão sujeitos - eles próprios - a múltiplas interpretações, os cultos carecem, digamos assim, de um 'reforço' ideológico que ajude a legitimar sua autoridade. Normalmente, tal lacuna é  preenchida pelos próprios fundadores - eles emprestam parte de sua 'respeitabilidade' ao movimento por meio de compêndios escritos durante seu 'ministério'. Não raramente, o autor se diz "inspirado" por Deus. Assim, sua obra passa a servir de referência aos adeptos, tendo, em alguns casos, a mesma autoridade do manuscrito 'sagrado' em que supostamente se baseia. Podemos citar, como exemplo, o "Livro de Mórmon" (a 'revelação' de Deus a Joseph Smith), texto-guia da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, os escritos de Ellen White (também chamados de "luz menor"), texto-guia dos Adventistas do Sétimo Dia e "Estudos das Escrituras", obra da autoria de Charles Russell, a qual serviu de guia para as Testemunhas de Jeová nas primeiras décadas de seu movimento. Apesar de se encontrar totalmente obsoleta, um artigo na principal publicação da entidade apresentava "Estudos das Escrituras" como um guia mais seguro do que a própria Bíblia (A Sentinela de 1/12/ 1916).

3) Fundamentalismo: todos os cultos apresentam-se como o "único caminho para a salvação". Segundo sua ideologia, todas as outras entidades estão "corrompidas" e em "trevas espirituais". Em face de tal visão preconceituosa, os cultos são profundamente intolerantes para com outras denominações religiosas. É notável a fúria com que atacam outras igrejas pelo seu histórico e por suas crenças. Estão sempre prontos a apontar falhas morais de outras organizações, ao passo que omitem ou minimizam as suas próprias. Como exemplo, podemos citar as inflamadas obras do líder da Igreja Universal, Edir Macedo, atacando as religiões afro-brasileiras. Um de seus "bispos" chegou a chutar um símbolo da devoção católica em rede nacional de TV, chocando a população e trazendo péssima repercussão junto à opinião pública. As Testemunhas de Jeová também são profundamente intolerantes, classificando todas as outras religiões como a prostituta "Babilônia", mencionada em Apocalipse, cap. 17 (A Sentinela de1/12/1991, pág. 13).

4) Abuso de Poder: os cultos são, normalmente, movimentos minoritários. Precisam, pois, de um número significativo de 'contribuintes' para subsistir. Aí está, em parte, a raiz de sua intolerância - se fossem complacentes para com seus adeptos, permitindo-lhes freqüentar outras denominações e contribuir para elas, perderiam sua fonte de sustento. Conseqüentemente, precisam manter seus membros sob 'rédeas curtas'. Este objetivo é alcançado por meio de um sentimento natural aos seres humanos - o medo. Terríveis acontecimentos aguardam o fiel, caso ele deixe o grupo. Uma vez tenha sido suficientemente intimidado por esta idéia, o culto conseguirá arrancar dele qualquer coisa. Não é incomum a prática de extorsão de dinheiro ou bens por parte dos dirigentes de culto. De uma forma ou de outra, o rebanho é 'tosquiado' ao invés de 'apascentado'. Alguns grupos são sutis na forma de angariar fundos. À guisa de  exemplo, a Sociedade Torre de Vigia, representante das Testemunhas de Jeová, não exige 'dízimo' de seus adeptos, mas todos eles são obrigados a participar na venda de literatura de porta em porta - atualmente, a principal fonte de receita da instituição. Além disso, todos são incentivados a tornarem-se missionários ou servidores na sede da organização, trabalho pelo qual não recebem salário, apenas uma 'mesada' mensal, insuficiente para o sustento de uma família - e nem família poderia haver, já que, nestas circunstâncias, os casais não podem ter filhos, sob pena de terem de deixar o serviço. Por outro lado, as seitas neo-pentecostais não são tão dissimuladas - fazem estridentes apelos por dinheiro, enfatizando o 'dízimo' como pré-requisito para as bênçãos divinas. Todavia, o abuso de poder dos cultos não se restringe aos encargos financeiros dos adeptos, mas abrange cada aspecto da vida da pessoa - suas companhias, sua vestimenta ou corte de cabelo, bem como sua visão do mundo. 

     O fenômeno dos cultos não é algo novo. Na verdade, o próprio cristianismo foi considerado pelos romanos do primeiro século como um culto. Posteriormente, a  recém estabelecida Igreja Romana via ela mesma com grande preocupação a difusão de certos movimentos ditos 'cristãos' pelo império - um destes, o gnosticismo, chamava especialmente a sua atenção.  Sobre isso, o historiador Paul Johnson comenta:

"Por mais inconvenientes que pudessem ser os extáticos e 'falantes de línguas' individuais, sempre havia o perigo mais grave de que caíssem sob os encantos de algum excepcional carismático e profeta que constituiria uma contra-Igreja. Assim como as diversas modalidades de gnosticismo punham a personalidade da Igreja em risco de ser capturada e absorvida em uma bagunça desintegradora de cultos sub-helênicos, da mesma forma que os carismáticos poderiam submergir a voz unitária da Igreja sob uma babel de 'profecias'." - História do Cristianismo, p. 64

     Nascido da fusão de filosofias esotéricas com idéias cristãs, o  gnosticismo (do grego gnosis, "conhecimento") tinha por premissa básica a posse de conhecimentos secretos, místicos, os quais permitiriam a elevação espiritual ao mais alto nível. Os cultos em geral têm em comum com o gnosticismo esta mesma idéia - a revelação de conhecimentos especiais, normalmente a um líder ou grupo de líderes, os quais, dotados de carisma e oratória eloqüente, passam a exercer controle mental sobre seus seguidores. Aí começa o problema - uma vez o adepto esteja convencido de que pertence a um grupo especial, portador de uma 'luz' especial, em oposição a todos os demais, os quais se encontram em 'trevas' espirituais, ele perderá seu próprio senso crítico. Enxergará o mundo sob uma ótica maniqueísta - os 'fiéis' versus os 'infiéis'. Suas idéias serão as idéias da figura carismática que dirige o culto. Doravante, ele resistirá a todas as tentativas de fazê-lo examinar os aspectos negativos da crença. Sua vida girará em torno dela, assim como suas relações com aqueles à sua volta, inclusive os familiares. Carreiras promissoras, novas amizades ou até mesmo a saudável convivência com os parentes serão negligenciados ou abandonados em troca de uma dedicação de corpo e alma ao culto. Seu tempo estará preenchido, seus valores, redefinidos, sua mente, inacessível. Até as necessidades materiais da pessoa ou de sua família serão negligenciadas - seu dinheiro destina-se prioritariamente à igreja. Aos poucos, o adepto torna-se como uma espécie de autômato ou 'robô', submisso às idéias emanadas do grupo. Neste estado semelhante a transe hipnótico, ele poderá se converter, como diz o cientista Richard Dawkins, em um "míssil desgovernado da religião". Muitos destes 'mísseis' já atingiram em cheio a história da humanidade, desde épocas remotas. Examinemos alguns episódios históricos...

    No decorrer do dramático século XIV o flagelo da 'peste negra' dizimou mais de um terço da população da Europa. No turbilhão da praga, um estranho culto ajudou a aumentar os números. Seus adeptos chamavam-se 'Flagelantes' e peregrinavam pelos lugarejos onde a doença se espalhava. Em cada vila ou cidade, realizavam um macabro ritual, no qual alguns membros tinham o corpo dilacerado por chicotadas - um ritual de expiação, o qual supostamente aplacaria a ira de Deus. As feridas abertas aparentemente só facilitaram a disseminação da doença. Como se isto não bastasse, muitas pessoas foram executadas em praça pública - resultado direto do fanatismo e da intolerância dos Flagelantes.

 

Flagelantes (1348) - epidemia e fanatismo

     

     Seiscentos anos de avanço do conhecimento científico não fizeram do século XX uma época mais afortunada no que diz respeito ao morticínio relacionado a cultos. A seguir, apresentamos um retrospecto dos mais lamentáveis episódios que mancharam o altar de sangue humano neste século:  

    Agosto de 1969 - A bela atriz Sharon Tate - esposa do diretor cinematográfico Roman Polanski  e grávida de 8 meses - foi raptada em sua casa, torturada e executada a punhaladas em um macabro ritual. Alguns amigos do casal, presentes na residência, também foram mortos. Seus assassinos eram seguidores de um demente chamado Charles Manson. Oriundo de uma família esfacelada, passou sua adolescência cometendo pequenos delitos e entrando e saindo de reformatórios. A partir de 1967, sentiu-se atraído pelo estilo de vida hippie e reuniu um bando de drogados como discípulos, em sua maioria mulheres. Ele pregava uma espécie de 'Armagedom racial', no qual pessoas da raça negra assassinariam brancos. Todavia, não sendo capazes de sustentar a civilização, os negros seriam sobrepujados pelos membros do culto "Família Manson", os quais assumiriam o controle do mundo. Os motivos do massacre não ficaram muito claros. Alguns especialistas afirmam que Manson criou, na verdade, um culto de adoradores de 'Lúcifer'. Em face da fama do casal vitimado, o crime alcançou larga repercussão pelo mundo inteiro.

                      Manson, o líder...

...seus seguidores,

...e a vítima.

 

     Novembro de 1978 - Em Jonestown, Guiana Inglesa, cerca de 900 adeptos do culto "O Templo do Povo", sob as ordens de seu líder, Jim Jones, cometem suicídio bebendo uma mistura de cianureto e tranqüilizantes. Os pais, antes de se matarem, envenenam as crianças lançando a mistura em suas bocas por meio de seringas. Os adeptos que se recusavam a beber eram baleados. Ao final, o próprio Jones também se matou, com um tiro na cabeça. A comunidade estava sob investigação das autoridades por violações dos direitos humanos e seus membros assassinaram representantes do congresso norte-americano, que haviam sido enviados ao local para averiguação. Jones havia emigrado dos EUA com seu grupo - sob uma onda de denúncias - e gozava de prestígio divino entre seus seguidores, chegando a ter como concubinas as esposas dos fiéis. Na verdade, ele se considerava a reencarnação de Jesus Cristo e tinha visões de um apocalipse nuclear. 

Jones, o líder... ...e as vítimas.

 

     Fevereiro de 1993 - Após 51 dias de cerco policial, uma brigada das forças especiais dos EUA tenta invadir o quartel general do culto "Ramo dos Davidianos". Seus membros estavam entrincheirados e fortemente armados, já tendo abatido a bala quatro agentes federais americanos e ferido outros dezesseis. O resultado foi um terrível incêndio que liquidou a maioria dos fiéis. O culto originou-se de um grupo dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia e passou a estar, a partir dos anos 80, sob a liderança de Vernon Howell, um convertido que adotou o nome de David Koresh, numa alusão ao rei israelita Davi e ao monarca persa Ciro. Ele se considerava um messias retornado e pregava a vinda de eventos apocalípticos sobre sua comunidade, após os quais o antigo reino israelita seria restabelecido na terra. Assim, restaurou o antigo costume da poligamia, tomando por concubinas diversas seguidoras. Após denúncias de abusos físicos e porte ilegal de armas, o governo decidiu intervir, cumprindo a 'profecia' de Koresh, com conseqüências catastróficas. O líder do culto morreu com um tiro na cabeça. A contagem final foi de 85 mortos.

Koresh, o líder... ...e o desfecho.

 

     Outubro de 1994 - 53 adeptos do culto "Ordem do Templo Solar" cometem suicídio simultaneamente em diversos pontos da Suíça e do Canadá. Outros 18 membros também encontrariam a morte. Algumas vítimas eram crianças e foram mortas de três maneiras: baleadas, sufocadas ou envenenadas. O líder do grupo, um médico homeopata chamado Luc Jouret, estava entre os mortos. Estranhamente, a maioria dos seguidores de Jouret tinha elevado nível cultural. O culto aparentemente havia herdado sua liturgia da antiga Ordem dos Cavaleiros Templários, da Idade Média. Como se tornou uma seita suicida, ainda é assunto de discussão. Uma carta redigida pelo líder declara que os fiéis estavam "deixando a terra para encontrar uma nova dimensão de verdade e absolvição, longe das hipocrisias deste mundo".

Jouret - estranha combinação de intelectualidade e fanatismo.

 

      Março de 1995 - 12 pessoas morrem e outras 5 mil são hospitalizadas como resultado de um ataque de gás "sarin"  em uma estação do metrô de Tóquio - Japão. Os responsáveis pelo atentado foram os membros do culto "Verdade Suprema", fundado por Shoko Asahara, um fanático que se considera a reencarnação de Buda. Mantendo controle mental absoluto sobre seus seguidores, ele havia reunido um arsenal em armas de fogo e materiais para guerra química. Seu objetivo - 'agilizar' o apocalipse. Seu grupo foi acusado de realizar também seqüestros e assassinatos de dissidentes e advogados de ex-membros. Supõe-se que seguidores da "Verdade Suprema" estejam por trás de outro ataque com gás similar ao de Tóquio, ocorrido na cidade de Matsumoto, em 1994, do qual resultaram 7 mortos e 144 feridos. Asahara criou uma seita milionária, com patrimônio estimado em até 1 bilhão de dólares. Seus seguidores chegam a 10 mil no Japão e uns 40 mil em outros países. Enquanto o anunciado 'fim do mundo' não chega, o líder do culto aguardará por ele na cadeia, onde se encontra até este dia.

Asahara - 'apressando' o 'fim do mundo'.

 

     Março de 1997 - 39 membros do culto "Portal do Paraíso" - uma seita ufológica - decidem se "livrar de seus corpos" cometendo suicídio coletivo. Seu objetivo era o de libertar seus espíritos para que embarcassem em uma espaçonave na cauda do cometa Hale-Bopp, numa jornada em direção ao paraíso. As vítimas tinham entre 26 e 72 anos de idade. Elas ingeriram uma associação de vodka e barbitúricos, após o que deitaram-se tranqüilamente em suas camas, à espera da morte. Para apressá-la, uns dos membros foi designado para sufocar as vítimas. Os corpos foram encontrados em uma mansão no rancho Santa Fé, ao norte de San Diego - California. O ambiente estava limpo e arrumado e os mortos, portando identificação. Um manuscrito da seita declara: "Alegramo-nos de que nosso Membro Ancião no Nível Evolucionário deixou claro para nós que a aproximação do Hale-Bopp é o 'sinal' pelo qual estávamos esperando... Nossos 22 anos de aprendizado aqui no planeta terra estão finalmente chegando à sua 'graduação' final do Nível Evolucionário Humano. Estamos alegremente preparados para deixar 'este mundo'..." O 'membro ancião' a que o documento se refere  corresponde ao fundador do culto, Marshall Applewhite, um professor de música que vivia atormentado por sua homossexualidade. Em razão disso, chegou a submeter-se a uma castração cirúrgica. Sua personalidade apresentava traços claros de esquizofrenia. Ainda assim, conseguiu arrebanhar discípulos que também se submeteram à castração, antes de o seguiram felizes, na morte.

Applewhite, o líder... ...e uma de suas vítimas.

 

      Março de 2000 - Em uma inesquecível manhã de terror, cerca de 500 corpos calcinados foram retirados dos escombros de uma igreja incendiada em Uganda, África - ao que tudo indica, um suicídio em massa dos membros do culto "Restauração dos Dez Mandamentos". Eles foram trancados no templo e tiveram seus corpos banhados em óleo inflamável, antes de se atearem as chamas. Policiais que foram ao local afirmaram que a maior parte das vítimas estava irreconhecível. O fundador da seita, Josef Kibwetere, é o principal suspeito de ter planejado o morticínio. O movimento havia se iniciado por volta de 1980 e seus adeptos o consideravam uma espécie de "arca de Noé", que os protegeria do apocalipse, previsto para o ano 2000. Aparentemente, os fiéis decidiram antecipá-lo. Ainda não se sabe se o fundador do culto e seus colaboradores estavam entre os mortos ou se fugiram, levando os bens dos adeptos. Moradores próximos da área da tragédia descreviam os membros do culto como sendo pacíficos e educados e as autoridades os consideravam inofensivos. Infelizmente, estavam enganados...

Kibwetere, o líder... ...e as vítimas.

 

     Os episódios acima foram selecionados por sua maior divulgação junto às grandes redes de comunicação. Inúmeros outros massacres - não tão noticiados - aconteceram em diversos países. Na verdade, entre os anos de 1969 e 2000, foram registrados no mundo cerca de 40 casos de homicídios ou suicídios relacionados a cultos, com um total de mais de 2300 mortos. Isto representa uma média de mais de um caso por ano  - com 75 vítimas, cada!  Um agravante: este pesado tributo do fanatismo religioso considera apenas os grupos menores. A maioria das pessoas nem saberia da existência deles se não fosse pela carnificina que promovem de tempos em tempos. Há desde seitas da "Nova Era" a cultos satânicos, provenientes de lugares tão distantes geográfica e culturalmente entre si quanto o Japão e o Congo. Estamos diante de uma onda de misticismo que não parece respeitar barreiras culturais, tecnológicas ou econômicas.

 

 

 Jihad - "Deus Está do Nosso Lado"

     Início  

      No tempo de Jesus Cristo um movimento religioso radical recrudescia na judéia - o zelotismo. Criado por judeus contrários à tributação a Roma, tinha também caráter político. O nacionalismo exacerbado de alguns de seus adeptos tornou os atentados individuais uma ocorrência comum, já no primeiro século. Era a sangrenta reação judaica à invasão romana. É uma amarga ironia que hoje o povo judeu sofra, ele próprio, atentados por parte de grupos radicais oriundos de um povo que também se considera invadido em seu território - os palestinos. Alguns supõem tratar-se de uma mera disputa de terra, como os movimentos pela reforma agrária. É um equívoco - o que ocorre ali é, antes de tudo, o choque entre dois sistemas religiosos imiscíveis entre si: judaísmo e islamismo. Curiosamente, ambos os lados alegam direito divino à terra que disputam. Em 1987, os palestinos repetiram o  gesto dos antigos zelotes, insurgindo-se contra Israel, por meio de passeatas e atentados - um movimento que ficou conhecido como Intifada. Desde então, deflagrou-se um ciclo perene de hostilidades. Turbas enfurecidas são dispersadas a bala pelas forças israelenses, com diversas baixas de ambos os lados. Todos os dias, os noticiários exibem os terríveis efeitos deste antigo instrumento do radicalismo político-religioso, o atentado terrorista. Para agravar ainda mais a situação, o povo muçulmano tem sido convocado por seus líderes a uma 'guerra santa' - ou jihad - contra o ocidente.

 

Intifada - 'guerra santa' contra os 'infiéis'

     A maioria das pessoas julgaria que foi a cultura islâmica a criadora da jihad . Muito embora o termo seja árabe, o conceito de guerra santa já existia bem antes do nascimento de Maomé. Um texto antigo diz:

"Proclamai isto entre as nações: 'Santificai a guerra! Despertai os poderosos! Aproximem-se eles! Subam todos os homens de guerra! Forjai espadas de vossas relhas de arado e lanças de vossas podadeiras. Quanto ao fraco, diga: 'Sou homem poderoso'. Acudi e vinde, todas as nações ao redor, e reuni-vos.' "

     Reconhece o leitor as palavras acima? Não provêm do Alcorão. Trata-se de um trecho do profeta Joel - cap. 3 e versículos de 9 a 11 - escrito mais de quatrocentos anos antes de Jesus Cristo. Muito embora dirigida a todas as nações, tal conclamação parece estar bem mais de acordo com o que a própria nação israelita já vinha praticando por séculos. Senão, vejamos:

"Ponde cada um de vós a sua espada ao seu lado. Percorrei o acampamento e voltai, de portão a portão, e matai cada um o seu irmão, a cada um o seu próximo, e cada um o seu conhecido íntimo." - Êxodo 32: 27 (negrito acrescentado)

"Quando Síon nos saiu ao encontro, ele e todo o seu povo... então Yaweh, nosso Deus, no-lo entregou, de modo que derrotamos tanto a ele como os seus filhos, e todo o seu povo. E naquele tempo específico fomos capturar todas as suas cidades e devotar cada cidade à destruição, homens e mulheres e criancinhas. Não deixamos sobreviventes... É somente das cidades destes povos que Yaweh, teu Deus, te dá por herança, que não deves preservar viva nenhuma coisa que respira, porque deves impreterivelmente devotá-los à destruição: os hititas e os amorreus, os cananeus e os perizeus, os heveus e os jebuseus, assim como te mandou Yaweh." - Deuteronômio 2: 33,34; 20; 16,17 (negrito acrescentado)

"... Não deixeis o vosso olho ter dó e não tenhais compaixão. Deveis matar o idoso, o jovem, e a virgem, e a criancinha, e as mulheres - para a ruína..." - Ezequiel 9: 5,6 (negrito acrescentado)

     Textos como estes têm suscitado acalorados debates entre teólogos, afinal parecem estar em franca contradição com a doutrina cristã do 'Deus de amor'. Seja como for, não foram poucos na História aqueles dispostos a manifestar um espírito beligerante como o descrito acima, em nome da fé. As Escrituras Hebraicas mostram que povo israelita foi pioneiro no ato de invadir e saquear terras estrangeiras em nome de um deus, na busca de uma terra 'prometida'. Todavia, não seria o único...

     Por volta do oitavo século, os muçulmanos haviam conquistado, também pela guerra, o norte da África, regiões do mediterrâneo e a maior parte da Espanha. Instalaram bases na Itália e cercaram a capital do império Bizantino, Constantinopla. O interesse na rota comercial do mediterrâneo e na cidade sagrada de Jerusalém suscitou, no século onze, mais uma guerra 'santa' - a primeira cruzada. O Papa Urbano II convocou, em 1095, os cristãos a uma campanha militar contra os 'pagãos', seguidores de Maomé. O morticínio seguiu-se até o século quinze, com a ocorrência de, não uma, mas sete cruzadas!

 

1099 AD - Jerusalém é tomada em nome de Deus

     O retrospecto histórico é claro no sentido de que tanto judeus, cristãos quanto muçulmanos legitimaram a guerra religiosa. Paradoxalmente, o fato de manifestarem uma inabalável fé em um Deus de misericórdia não conferia aos soldados um espírito de compaixão. Ao contrário, só os tornava mais sórdidos, impiedosos e sanguinários, pois sua visão preconceituosa os induzia a ver os membros de outra cultura religiosa como animais para abate. Não é diferente na atualidade.

     Hoje em dia, há verdadeiras escolas de assassinos espalhadas por diversos países do oriente, doutrinando-os e armando-os para fazer aquilo que julgam ser a vontade de Deus. Aos soldados suicidas, os instrutores do Alcorão prometem a bem-aventurança no seio de Alah como recompensa pelos seus atos, da mesma forma que a Igreja Romana prometia o Reino dos Céus aos seus cruzados, na Idade Média, ou o império japonês prometia a glória aos pilotos kamikaze, os quais cometiam suicídio, lançando suas aeronaves contra os vasos de guerra aliados, durante a II Guerra Mundial. Alguns dos melhores alunos deste tipo de instituição deram, no dia 11 de setembro de 2001, uma demonstração de que aprenderam bem a lição. Trata-se do mundialmente divulgado ataque aos Estados Unidos da América.

 

 

O mestre,... ...os alunos,... ...e a lição

   

     Entre os pertences de um dos dezenove terroristas, discípulos do milionário saudita Osama bin Laden, os quais praticaram o maior atentado da história, desde Pearl Harbour, foi encontrado um manuscrito com a terrível declaração:

"Todos odeiam a morte, temem a morte. Mas só aqueles, os crentes que sabem que há vida após a morte e a recompensa da vida após a morte, serão os que buscarão a morte."

     Perceba o leitor a visão maniqueísta típica dos fundamentalistas - os 'crentes' versus os 'descrentes'. Afirmar que os terroristas simplesmente eram pessoas más seria uma super-simplificação do problema. Eles certamente nasceram como qualquer criança em outras partes do mundo. Todavia, o sistema que os moldou deixou-lhes como herança cultural o fundamentalismo político e religioso. Na infância, ao invés de brinquedos, recebiam fuzis. O ódio à cultura ocidental foi sua lição de cada dia, por toda a vida. Tal doutrinação produz seus frutos. Deveras, a mente humana é uma frágil peça de maquinaria. Quando se usa o método psicológico adequado, até o indivíduo mais pacífico pode se tornar agressivo. 

 

 

Entendendo o Controle Mental dos Cultos

     Início  

     Os episódios estarrecedores descritos neste estudo não apenas chocaram o mundo, como representaram um convite a sociólogos, psiquiatras, psicólogos e outros peritos a uma investigação cabal do fenômeno, o qual não está restrito ao campo religioso. Deveras, o controle mental é uma eficiente ferramenta para uso militar e político.

     A ciência do comportamento foi impulsionada, no início do século XX, pelos trabalhos do fisiologista russo Ivan Pavlov (1849-1936). Ele percebeu que animais podiam ser condicionados para dar respostas específicas a estímulos repetitivos. Ele submeteu cães ao seguinte experimento: ofereceu-lhes comida ao mesmo tempo em que se emitia um som. Diante  do alimento, o animal salivava. Após repetir inúmeras vezes a experiência, introduziu-se uma mudança - apenas o som era oferecido ao cão e, ainda assim, ele salivava. Isso passou a se chamar "reflexo condicionado". O animal aprendeu a associar dois eventos, respondendo a apenas um deles, isoladamente. Em outro experimento, Pavlov empregou o mesmo princípio, fazendo os cães salivarem vendo a imagem de um círculo. Gradualmente, o cientista alterou a forma do círculo, até não mais ser reconhecido pelos animais. Neste ponto, eles se tornaram agitados e não mais salivaram. Este evento foi denominado "neurose experimentalmente induzida". O pioneirismo de Pavlov induziu outros cientistas a iniciarem, anos mais tarde, experiências com humanos. Estes estudos demonstraram que estes também podiam ser condicionados por estímulos externos. Na verdade, o homem pode reagir de forma bem mais complexa do que os animais, por sua noção de valores. Imagens, sons e, acima de tudo, informação não são meros estímulos aos sentidos, mas adquirem caráter simbólico diante das pessoas, afetando sua conduta. Assim, começava-se a elucidar o mecanismo de controle mental e modificação de comportamento.

      Além dos cientistas, escritores e cineastas deram destaque aos sistemas controladores em suas obras, entre eles, George Orwell (1903-1950) e Stanley Kubrick (1928-1999). O primeiro é autor da famosa obra "1984", na qual retrata uma época em que o estado vigia e controla todos os seus cidadãos, monitorando, não só os atos, mas também os pensamentos; o segundo, dirigiu o filme "Nascido para Matar" (1987), no qual expõe o cruel e autoritário sistema de formação de soldados do exército norte-americano, durante a guerra do Vietnã, na década de 60  - uma máquina de transformar cidadãos comuns em monstros sanguinários, obcecados pelo poder de matar. A trilha mostra como o tirânico sargento Hartman faz uso de tortura psicológica e física para impor a seus recrutas a hedionda doutrina de extrema direita, endossada pelos militares. Ao final do treinamento - completamente transformado -  o pelotão faz o seguinte pronunciamento: "Eu juro perante Deus este credo - 'Eu e meu fuzil somos os defensores do meu país, somos os mestres do meu inimigo, somos os salvadores de minha vida; que assim seja, até que não haja mais inimigos, só a paz. Amém!' " Na véspera da formatura, um dos soldados, completamente esgotado pela pressão psicológica, enlouquece, mata o sargento e suicida-se. Seus colegas, convictos do êxito de sua boa causa,  partem para a malfadada campanha do Vietnã. Trata-se, sem dúvida, de obra contundente.

 

Três momentos de Nascido para Matar: no primeiro quadro, vemos o pacato e bonachão recruta Pyle tendo os cabelos rapados, por ocasião de seu ingresso ao exército; no segundo quadro, as sessões de doutrinação mediante tortura psicológica, sob o comando do perverso sargento Hartman; no último quadro, vemos o semblante psicótico do soldado, após inúmeras humilhações - neste estado, ele mataria o sargento, para, em seguida, cometer suicídio.

 

     Outros intelectuais também se interessariam pelo tema. Steve Hassan (http://www.freedomofmind.com/) e Rick Ross  (http://www.rickross.com/) estão entre estes - têm dedicado décadas de suas vidas à pesquisa das técnicas de controle mental exercidas pelos cultos religiosos. O primeiro conta com sua própria experiência como ex-adepto de culto - foi membro da 'Igreja da Unificação', até o ano de 1976 - e é autor das obras "Encorajando as Pessoas a Pensarem por si Próprias"  e "Combatendo o Controle Mental dos Cultos", em inglês. O segundo testemunhou em diversos casos judiciais nos EUA, nos quais estava envolvida a ação ilegal de grupos religiosos radicais e é considerado um especialista no assunto, tendo lecionado em respeitáveis instituições, como as universidades de Chicago e Pensilvânia. Há anos, eles prestam consultoria e dão palestras em diversos países, alertando a sociedade para o perigo dos cultos. Grandes redes de TV, como CNN e CBS, ou revistas, como a Time e Newsweek, têm divulgado depoimentos e estudos destes pesquisadores.

 

Hassan e Ross - uma causa comum

     Hassan pesquisou profundamente o tema e, de sua experiência com inúmeros pacientes, formulou uma teoria para explicar o mecanismo de controle mental dos cultos. Trata-se do sistema BITE - sigla cujas iniciais significam, em inglês, comportamento, informação, pensamento e emoção, pois é por meio do controle destas quatro variáveis que os líderes de seitas conseguem manipular totalmente seus seguidores. Segundo o autor, as pessoas não se juntam simplesmente a estes grupos, mas são recrutadas por eles. Este recrutamento ocorre de sete formas:

  1. Um amigo ou parente da pessoa, que é adepto do culto e tenta 'convertê-la'.

  2. Um estranho que aborda a pessoa (em casa ou na rua).

  3. A pessoa recebe um convite para um evento do culto (sessão, simpósio etc.).

  4. Por meio de literatura, talvez um livro que alcançou alta vendagem.

  5. Por meio da oferta de um aparentemente inofensivo "curso bíblico".

  6. Por curiosidade em relação a uma propaganda ou anúncio.

  7. Por meio de um trabalho ou emprego em um negócio mantido pelo culto.

     O processo de entrada de uma pessoa em um culto é marcado por duas fases bem nítidas, uma inicial e não coercitiva - a 'sedução' do prosélito, quando a nova fé se apresenta em cores brilhantes - e uma posterior e coercitiva, quando o candidato engaja-se ao grupo e passa a estar sujeito a um sistema de recompensa e punição. 

     Se há uma coisa que caracteriza marcantemente o proselitismo religioso é a sutileza. Freqüentemente, a pessoa não suspeita que está sendo recrutada. Talvez o amigo ou parente simplesmente tenha tido uma tocante experiência pessoal e a queira compartilhar com outro. Quando se trata de um estranho, a pessoa é levada a crer que ganhou um novo amigo. Como os membros de cultos desenvolvem habilidades para envolver os prosélitos - selecionando a informação e dando-lhe uma 'roupagem' piedosa - a pessoa é atraída pela fachada atraente do culto, sem conhecer seus bastidores. Inicialmente, ela também não conhece a fundo as crenças de quem a está doutrinando nem o que se requer dela. Na verdade, ela talvez jamais chegue a ter percepção plena da natureza do movimento como qual, pouco a pouco, está se engajando, e se chegar a ter, já estará emocionalmente envolvida, ao ponto de não mais conseguir recuar. Por outro lado, as experiências de caráter psicológico, experimentadas em espetáculos de multidão, como os descritos neste artigo, farão com que a afetividade da pessoa sobrepuje a razão. Resultado: as sensações obliterarão a consciência e o senso crítico; a pessoa, por fim, perde, literalmente, o contato com a realidade. A partir deste ponto, a vítima passará, ela própria, a ser parte da engrenagem, recrutando outros, da mesma forma como ocorreu a ela um dia. De modo semelhante a uma infecção, inicia-se novo ciclo com o contágio de outra vítima.

     Colocando a informação em compartimentos, os cultos impedem que os membros visualizem a organização como um todo. As pessoas só recebem a informação para a qual estão 'prontas', ou apenas aquilo que 'precisam' saber para desempenhar suas funções. Para isso, o conhecimento é estratificado em diversos níveis. Paradoxalmente, muitos relataram que, quanto mais se aproximavam da 'cúpula' do culto, mais abalos sofriam em sua fé. Deveras, a informação é dividida em categorias como "para os de dentro" ou "para os de fora", para "principiantes" ou para "veteranos". O material mais moderado é reservado para o público em geral e contém versões suavizadas das crenças do grupo, bem como um amplo  'branqueamento' de sua história. Fatos desagradáveis ou aspectos negativos são omitidos ou minimizados. Prosélitos que fazem questionamentos ou indagações profundas são avisados de que não estão ainda suficientemente "maduros" para ter todo o conhecimento. As diretrizes internas são reservadas apenas para aqueles completamente doutrinados. Deste modo, o acesso à real ideologia do grupo é retardado até que o senso crítico do indivíduo tenha sido totalmente suprimido.

     Uma vez recrutado, o adepto é mantido pela liderança do grupo em um meio tão 'estéril' quanto possível - sem questionamentos ou insubordinação - e totalmente refratário às influências externas. Esta é a fase coercitiva. Bloqueando o acesso do fiel a informações vindas de fora, os líderes de cultos, atingem um duplo objetivo - não só mantêm o controle sobre seus seguidores, como se eximem de responder, eles próprios, a questionamentos sobre sua conduta pessoal e sua  metodologia. Assim, pode-se dizer que os membros de cultos vivem em uma 'bolha' social. Sendo projetado para este fim, tal ambiente possui características bem peculiares, que o distinguem de qualquer outro. Algumas de suas características são:

a) Isolamento:

  b) Abuso de poder:

  c) Criação da identidade do culto:

      Caso uma ou mais características como as acima sejam encontradas em um grupo religioso, há boa probabilidade de se estar diante de um culto destrutivo. Neste ponto, é provável que os antigos amigos afastem-se da pessoa, por ela estar sempre 'pregando' para eles, ou que seus parentes passem a admoestá-la insistentemente, por ela negligenciar outros aspectos de sua vida em razão da religião. Na sede do culto, a pessoa é informada de que isto constitui "prova" de que o demônio controla seus parentes e amigos, que eles estão em "trevas espirituais" e que apenas ela está na "luz". Reconfortada, é incentivada a ver os colegas de seita como seus 'verdadeiros' pais e irmãos. O drama é ainda maior tratando-se de uma casal, em que um dos cônjuges se 'converte'. Para muitos, o resultado inevitável é a separação judicial. Não é, pois, incomum que a ação dos cultos suscite sério abalo nos laços familiares e sociais.

     Converter um prosélito não é o único desafio dos cultos. Eles precisam, antes de tudo, mantê-lo sob controle. Para isso, entra em ação o sistema anteriormente mencionado, no qual o comportamento, a informação, o pensamento e a emoção do adepto são rigorosamente monitorados. Os cultos podem diferir em sua orientação filosófica, contudo são muito semelhantes em seus métodos. Examinemos, de modo conciso e sistematizado, as principais técnicas...

 

I - Controle de comportamento:

1. Regulação da realidade física do indivíduo:

    1.a - Onde, como e com quem o adepto vive e com quem se associa 
     1.b - Que vestimenta ou estilo de cabelo a pessoa usa
     1.c - O que se deve comer ou beber, aceitar ou recusar
     1.d - O quanto é desejável que a pessoa durma 
     1.e - Dependência financeira

     1.f - Pouco ou nenhum tempo para entretenimento, férias ou leitura (exceto se for literatura do culto)

2. Maior parte do tempo dedicada a sessões de doutrinação e rituais do grupo. Em um culto, há sempre muita atividade, de modo a suprimir o tempo livre do adepto, tempo este que o poderia levar a pensamentos "perigosos".

3. Necessidade de solicitar permissão para decisões de maior importância, tais como aceitar um emprego, cursar a universidade, namorar ou casar-se. Ex: os membros da Igreja da Unificação têm de solicitar autorização ao líder para cada passo decisivo de suas vidas.

4. Necessidade de relatar pensamentos, sentimentos e ações aos superiores.

5. Recompensas e punições - os membros mais dedicados são agraciados com 'cargos' e lisonjas, enquanto os pouco engajados são apontados como 'fracos' ou 'mau exemplo'. Aqueles considerados pela liderança como infratores são definitivamente afastados do convívio dos demais. Todas as religiões têm sistemas de "excomunhão" ou o equivalente a ela.

6. Individualismo ou pensamento independente é desencorajado, prevalece o pensamento do grupo. Ex: as Testemunhas de Jeová são exortadas a evitarem pensar por si mesmas, alinhando-se inteiramente com o ensino que emana de sua sede (A Sentinela de 15/7/1983, pág. 22).

7. Regras e regulamentos rígidos. Ex: as Testemunhas de Jeová são proibidas de votar, prestar serviço militar, celebrar aniversários ou feriados e de receber tratamentos à base de sangue.

8. Necessidade de obediência e dependência. Ex: o líder do culto 'Portal do Paraíso', Marshall Applewhite, determinava cada pormenor da vida de seus seguidores - a dieta, a vestimenta, os pensamentos etc.

 

II - Controle de Informação:

1. Uso de logro:

    1.a - Ocultar deliberadamente informação (como o as práticas ocultas da organização)
     1.b - Distorcer informação para torná-la mais 'aceitável' ("branquear" o passado)
     1.c - Mentir, caso seja necessário, para proteger o culto
(mentir às autoridades)

2. Acesso a informação de outras fontes é reduzido ou desencorajado:

    2.a - Desencorajada a consulta a livros, artigos, jornais, revistas, TV ou rádio 
     2.b - Evitar informação crítica
     2.c - Evitar ex-membros do culto 

     2.d - Membros são mantidos tão ocupados que não têm tempo para  checar a veracidade das informações

3. Informação em compartimentos; doutrinas para os "de dentro" e para os "de fora". Ex: as Testemunhas de Jeová possuem manuais 'secretos' (como o "Livro dos Anciãos"), dirigidos apenas pessoas em cargos especiais.

    3.a - A informação não é posta livremente à disposição

     3.b - A informação varia em diferentes níveis dentro da pirâmide hierárquica 

     3.c - Os líderes decidem quem "precisa saber" o quê e quando 

4. Vigilância de uns sobre os outros é encorajada:

    4.a - Ingressar em um sistema de 'irmandade' para monitorar e controlar 

     4.b - Delatar pensamentos, ações ou sentimentos "errôneos" à liderança do culto

     4.c - O comportamento de cada adepto é monitorado pelo grupo inteiro

5. Uso extensivo de informação e propaganda geradas pelo culto. Ex: Igreja Universal - proprietária de redes de TV e rádio - e Testemunhas de Jeová, divulgadoras de revistas com tiragem de milhões de exemplares.

    5.a - propaganda por meio de cartas, revistas, jornais, gravações e mídia
     5.b - Citações críticas são deturpadas, declarações de dissidentes, tiradas de contexto 

6. Uso antiético de confissões :

     6.a - Informação usada para estabelecer 'limites' de conduta
     6.b - 'Pecados' passados são usados para manipular e controlar

 

III - Controle de Pensamento:

1. Necessidade de internalizar as doutrinas do grupo como a 'Verdade'. Ex: os grupos fundamentalistas, como Adventistas do Sétimo Dia, Mórmons e Testemunhas de Jeová.

    1.a - Adotar a visão do culto como 'realidade' (grupo=verdade) 
     1.b - Pensamento maniqueísta (tipo "tudo ou nada")
     1.c - Bem versus Mal
     1.d - Nós versus os outros ("os de dentro" versus "os de fora")

2. Uso de jargão (por exemplo, clichês supressores do pensamento). Palavras são os instrumentos para guiar a mente. Estas palavras 'especiais' tendem a restringir o pensamento ou suprimi-lo completamente. Sua função é reduzir a complexidade das experiências à banalidade pelo uso de 'chavões'. Ex: as expressões "mundano", "incrédulo" e "apóstata", usadas pelas religiões para induzir seus adeptos a simplificar e categorizar as idéias e sentimentos dos não-adeptos, sem analisá-los de forma isenta.

 

3. Somente pensamentos 'bons' e 'apropriados' são incentivados. É claro, os do primeiro tipo são aqueles que refletem a ideologia do grupo.


4. Uso de técnicas hipnóticas para alterar o estado mental do adepto. Ex: os 'curandeiros da fé', como Benny Hinn.


5. Manipulação de lembranças verdadeiras e implantação de falsas.

 

6. Uso de técnicas supressoras do pensamento, as quais bloqueiam a análise dos fatos; pensamentos 'negativos' são repelidos e só os 'bons' são permitidos.

    6.a - Negação, racionalização, justificação, pensamento tendencioso 
     6.b - Manter-se ocupado no trabalho de pregação
     6.c - Meditar
     6.d - Fazer preces
     6.e - Falar em "línguas"
     6.f - Cantar ou cantarolar

7. Rejeição da análise racional, do pensamento crítico ou da crítica construtiva. Críticas ou questionamentos quanto ao líder, à doutrina ou à metodologia são considerados ilegítimos.

8. Nenhum outro sistema de crenças é visto como legítimo, bom ou útil.

 

IV - Controle de emoções:

1. Manipular e estreitar o campo de sentimentos da pessoa.

2. Fazer a pessoa pensar que, caso haja problemas, é por sua culpa, nunca do líder do grupo.

3. Uso excessivo do sentimento de culpa:

     3.a - Culpa de Identidade: "quem sou eu, minha família, minhas companhias, meus pensamentos, sentimentos e ações"

     3.b - Culpa social
     3.c - Culpa pelo passado

4. Uso excessivo do medo:

     4.a - Medo de pensar por si mesmo
     4.b - Medo do mundo "lá fora"
     4.c - Medo de inimigos
     4.d - Medo de perder a "salvação"
     4.e - Medo de deixar o grupo ou de ser evitado por ele
     4.f - Medo de desaprovação

5. Manifestação extrema de "altos" e "baixos" emocionais.

6. Freqüente confissão pública de "pecados".

7. Doutrinação à base de fobias: medo irracional de algum dia deixar o culto ou de questionar a autoridade do líder. A pessoa sob controle mental não consegue visualizar um futuro positivo fora do grupo:

     7.a - Nenhuma felicidade ou realização é possível aos que deixam o culto 
     7.b - Terríveis conseqüências terão lugar se a pessoa sair do grupo: inferno, possessões demoníacas, doenças incuráveis, acidentes, suicídio, insanidade, falência etc. 
     7.c - Evitar os que saem; medo de ser rejeitado pelos semelhantes, pelos amigos e pela família
     7.d - Nunca há uma razão legítima para sair do grupo. Do ponto de vista do culto, todos os que saem são "fracos", "indisciplinados", "sem espiritualidade", "mundanos", "corrompidos pela família" ou "seduzidos" por sexo, dinheiro etc.

     Todos os cultos - e, às vezes, também as igrejas ortodoxas - utilizam-se de, pelo menos, algumas das técnicas acima descritas. A metodologia, evidentemente, segue o princípio de "para cada peixe, uma isca certa", ou seja, o meio adequado para  doutrinar e manter cada adepto toma em conta fatores como nível de escolaridade, histórico familiar, condição sócio-econômica e, principalmente, a suscetibilidade psicológica do indivíduo. É significativo que os cultos introduzam importantes alterações em sua propaganda ao se instalarem em países distintos ou regiões distintas de um mesmo país. Pessoas de caráter místico e pouca escolaridade são mais facilmente seduzidas por apelos ao sobrenatural - a figura do 'demônio' costuma ser o 'cabo eleitoral' predileto. É o caso das populações de periferia em grandes metrópoles ou dos camponeses - um sermão simples, a evocação de deidades, uma sessão de 'exorcismo' e pronto! Para muitos, os percalços da vida e a sôfrega necessidade de crer em uma alternativa viável - seja ela qual for - sobrepujam-lhes a lucidez, tornando-os presa fácil de aproveitadores da miséria alheia. Já os indivíduos mais pragmáticos e ambiciosos são atraídos aos cultos pela oferta de prosperidade, enquanto outros - sem qualquer destaque em suas vidas pessoais - encantam-se com a possibilidade de galgar 'posições' na hierarquia da igreja, experimentando uma autoridade que dificilmente teriam em sua vida profissional ou familiar. É o caso do indivíduo iletrado que, durante o dia, é um serviçal obediente em uma firma e, à noite, é um inflamado 'pastor' em seu local de culto - em um turno, recebe ordens, em outro, ele as dá. Seja como for, anos e anos de submissão a este sistema podem gerar desajustes sociais ou acentuar graves distúrbios psíquicos, desde depressão até comportamento paranóide. Pessoas pacíficas, naturalmente calorosas, podem tornar-se irreconhecivelmente frias e hostis. Alguns, saudosos pela 'velha autoridade', sentir-se-ão reconfortados em julgar as pessoas com base em um critério legalista - regras e mais regras. Por sua vez, aqueles com caráter obsessivo encontrarão no ambiente xenófobo dos cultos sua pátria espiritual - tornar-se-ão fanáticos. Serão convencidos a praticar qualquer ato, se assim a liderança ordenar. Um exemplo grotesco é o de um culto secreto existente em San Francisco - EUA, no qual o 'guru' convenceu seus súditos de que a imortalidade estaria presente nos órgãos internos dos mortos. Assim, em uma de suas sessões, o cadáver de um adepto recentemente falecido foi aberto e devorado pelos presentes num horrendo e macabro ritual. A cerimônia atingiu seu ápice  em uma sanguinolenta orgia sexual. Antes de perguntar como alguém em gozo de suas faculdades mentais perpetraria tal seqüência de insanidades, talvez devêssemos indagar por que meios um único indivíduo induziu uma multidão a crer em tal absurdo. 

 

     Segundo Hassan, o processo de ganhar controle sobre a mente passa por três estágios:

 

  1. "Descongelamento" - processo de desintegrar a personalidade do indivíduo.

  2. Modificação - o processo de doutrinação propriamente dito.

  3. "Recongelamento" - processo de fixar a nova identidade.

      As fases acima descritas, por sua vez, podem ser subdivididas em diversas etapas. A obra "Persuasão Coercitiva", de Kurt Lewin foi adaptada por Hassan, chegando-se ao seguinte esquema:  

 

I. Descongelamento:

 

   a) Desorientação e confusão

    b) Privação ou sobrecarga sensorial

    c) Manipulação fisiológica: privação de sono, alteração de dieta, ausência de privacidade
  
  d) Hipnose: regressão, visualização, contos, sugestão, meditação, preces, cânticos

    e) Questionamento da própria identidade

    f) Redefinição do passado

 

II. Modificação:

 

   a) Criação e imposição da nova personalidade, passo a passo: sessões de doutrinação

   b) Uso de técnicas de modificação de comportamento: recompensa, punição, jargão etc.

   c) Manipulação mística (a pessoa é constantemente lembrada da figura do 'diabo')

   d) Hipnose ou outras técnicas para alterar o estado mental: repetição, preces e êxtase

   e) Uso de confissão e testemunhos

III. Recongelamento:

  a) Nova personalidade reforçada: separação dos amigos, doações, novas responsabilidades

  b) Novo nome, novo estilo de vestir ou de corte, nova linguagem, nova "família"

  c) Sistema de vigilância mútua entre os membros

  d) Preenchimento do tempo com mais sessões, seminários, experiências, proselitismo etc.

 

    Uma matéria na revista "Época", datada de 28 de abril de 2003, examina as técnicas de manipulação em massa, amplamente utilizadas pelos cultos como ferramenta de proselitismo. Alguns pontos do artigo são de suma importância para a plena compreensão dos eventos de massa e, por isso, receberão destaque em nosso estudo.

 

   Os movimentos pentecostais e carismáticos têm chamado a atenção pela frequência com que realizam cerimônias de êxtase coletivo, nas quais a platéia é levada um estado de transe, geralmente manifesto na forma de convulsões, danças, gritos e choro, acompanhados de um balbuciar ininteligível. Aqueles que passam por tais experiências tendem a considerá-las como evidência do favor divino. Todavia, transes religiosos são registrados desde a Grécia antiga, quando sacerdotisas diziam receber espíritos em rituais embalados por música e vinho. O fenômeno é, pois, muito antigo, mas seu estudo é recente. Coube a pesquisadores do século XIX a tarefa de averiguá-lo e desmistificá-lo. Em 1862, o neurologista francês Jean-Martin Charcot (1825-1893), instalado no Hospital Sapêtrière, formulou a hipótese de que as visões de espíritos vivenciadas por alguns pacientes eram causadas por disfunções do sistema nervoso. A partir daí, desenvolveu um tratamento à base de hipnose - a técnica envolvia a repetição de sons e cores. Pouco a pouco, Charcot começava a desmontar a aura sobrenatural em torno das supostas possessões. Um de seus melhores alunos também interessou-se pelo campo da hipnose - ninguém menos que Sigmund Freud, o pai da psicanálise. Mas foi Carl Jung quem se dedicou a explicar de onde vêm os "maus espíritos" que supostamente atormentam pessoas. Segundo ele, essas figuras aterrorizantes acham-se gravadas coletivamente na mente humana, fazendo, portanto, parte do imaginário popular. Batizadas de arquétipos, têm acompanhado a humanidade desde as culturas mais antigas. De acordo com a psicanalista Aurea Roitman, "o diabo [evocado pelas religiões] é uma dessas imagens e representa forças destrutivas dentro da própria pessoa. Já o chifre e o rabo são adereços acrescentados pelo imaginário cristão."

 

Charcot - desmistificando as "possessões"

 

   Enquanto os fundadores da psicologia ocuparam-se em descrever o mecanismo dos transes, os antropólogos buscaram determinar a função social deles. Missionários e pesquisadores que viajaram para a África ou investigaram territórios dominados por índios nas Américas ficaram impressionados com as cerimônias realizadas pelas tribos. Segundo explica o antropólogo Scott Atran, da Universidade de Michigan, "os exorcismos têm a função de provar a existência de um agente sobrenatural capaz de punir os delinquentes, por mais poderosos que sejam." A novidade é que alguns cultos têm feito das sessões de exorcismo um instrumento de marketing, tanto em suas sessões regulares quanto em exposições na mídia.

 

   Há tempos, os líderes de cultos perceberam que a combinação de superstição com exclusão social faz de boa parcela da população nos países ditos subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento) um alvo perfeito para sua propaganda. De fato, é em lugares como a África e América Latina que os cultos experimentam maior crescimento - e também onde obtêm o maior volume de doações. O caráter místico de tais povos os torna uma presa fácil para os espetáculos de massa, já mencionados neste trabalho. Contudo, a despeito da forte impressão que os supostos eventos sobrenaturais, a eles associados, causam à primeira vista, seus orquestradores recorrem a truques antigos, porém desconhecidos ao público leigo. Examinemos alguns deles:

 

   I. Trilha sonora: um tecladista executa melodias leves nos momentos de alusão a bênçãos divinas, criando uma atmosfera de refrigério espiritual. Momentos depois, o pastor gesticula de forma enérgica e, em tom grave, menciona as ações do demônio. Como em um espetáculo teatral, o público é conduzido a um clímax emocional, embalado pela música que, nesse momento, consiste em uma sucessão de acordes pesados, lembrando um filme de terror.

 

   II. Roteiro: evocando poderes sobrenaturais, os 'pastores' fazem orações repetitivas e em tom cada vez mais forte. A mente humana tende a aceitar como verdadeiras as frases proferidas repetidamente, em um tom autoritário e em um clima de emoção. Curiosamente, Adolf Hitler demonstrou estar bem ciente disso, pois, certa vez, declarou que as massas eram obtusas em sua capacidade de assimilar idéias, sendo necessária a repetição das mesmas coisas, vez após vez.

 

   III. Adereços: os cultos frequentemente lançam mão de símbolos que tocam as emoções da platéia. Por exemplo, o orador incentiva sua assistência a segurar objetos, tais como fotografias de entes queridos, resultados de exames, currículos impressos, carteiras de trabalho etc. para serem abençoados.

 

   IV. Figuração: o murmúrio de pessoas rezando evolui para um estado de histeria coletiva. O resultado disso é a redução do nível de consciência dos fiéis suscetíveis. No meio da multidão, a pessoa é facilmente manipulada, passando a crer em tudo que lhe é dito - ocasião ideal para pedir-lhe dinheiro.

 

   V. Coreografia: é comum, durante os ritos, 'pastores' ou 'obreiros' comprimirem e balançarem a cabeça e o corpo do fiel, executando movimentos circulares. A tontura resultante - associada à atmosfera de êxtase - contribui para que a pessoa ceda mais rapidamente ao transe.

 

   VI. Iluminação: alguns cultos são realizados à noite e, neles, os 'pastores' desligam as lâmpadas principais da igreja. Envoltos na penumbra, os espectadores ficam mais sugestionáveis. Uma técnica alternativa seria pedir aos ouvintes que fechem os olhos.

 

   VII. Sonoplastia: em alguns cultos, a música é acompanhada de sons fantasmagóricos, criando um ambiente de sobrenaturalidade. Tais ruídos afetam o inconsciente das pessoas, estimulando-as a considerar real aquela manifestação.

 

   Cada um desses recursos tem um papel decisivo no processo de condução de uma platéia ao êxtase religioso, sendo que o efeito deles, somados, pode facilmente produzir um estado denominado 'catarse' (do grego kátharsis). Etimologicamente, significa purgação, purificação, limpeza, ou ainda, segundo Aristóteles, o efeito moral e purificador da tragédia clássica, cujas situações dramáticas, de extrema intensidade e violência, trazem à tona os sentimentos de terror e piedade dos espectadores, proporcionando-lhes o alívio, ou purgação, desses sentimentos. No teatro de conversão praticado pelos cultos, a viagem até a catarse segue uma técnica calculada. Em outras palavras, quem quer que esteja por trás desses espetáculos de multidão tem pleno conhecimento da eficácia dos recursos ora descritos.

 

     Neste ponto, seria apropriado analisarmos alguns casos extremos de doutrinação que alcançaram notoriedade na mídia. Eles ilustram bem a eficácia do sistema até aqui descrito, o qual, como já foi dito, é utilizado tanto por extremistas religiosos quanto políticos. 

 

 

Os Casos Hearst e Walker

     Início  

     Em fevereiro de 1974, teve início um caso que tanto chocou quanto fascinou a opinião pública mundial. Uma bela e rica jovem, Patricia Hearst, foi seqüestrada de seu apartamento na Califórnia por um grupo terrorista que se denominava Exército Simbionês da Libertação (SLA). A mídia deu ampla cobertura ao caso. Os seqüestradores não eram muito conhecidos pela população até esta época, exceto por um assassinato, cometido meses antes contra um superintendente de escola. O rapto de Patricia, contudo, não seguiria o curso esperado neste tipo de crime, a saber, um  pedido de resgate, o pagamento e a libertação da refém. Seus algozes emitiram mensagens declarando que se tratava de uma 'prisão' e que a seqüestrada receberia o mesmo tratamento que outros membros do grupo - anteriormente capturados e condenados - estavam recebendo. A seguir, o grupo ordenou que os pais da moça providenciassem 70 dólares de alimento para cada pessoa pobre no estado. Obviamente, esta foi uma manobra cujo objetivo era granjear a simpatia de, pelo menos, algumas comunidades. Todavia, isto estava além das posses da família. Foi feita uma oferta de 2 milhões de dólares. Posteriormente, os criminosos exigiram 6 milhões. Os pais de Patricia disseram que pagariam a diferença, desde que ela fosse libertada, sã e salva. Com isso, as negociações foram declaradas 'mortas' pelo grupo. O público ficou temeroso pelo destino da infeliz jovem e um programa de doações foi implementado, com o intuito de sensibilizar os seqüestradores do SLA. Entretanto, não houve uma resposta positiva no sentido de libertar a refém. Muitos achavam que ela já estava morta.

 

     Foi quando começou a parte mais impressionante do caso: chegou às mãos da imprensa uma seqüência de gravações, nas quais Patricia fazia declarações em nome do grupo. De início, ela parecia nervosa e ficava claro que estava sendo coagida. Contudo, pouco a pouco seu tom de voz foi mudando e suas declarações - agora em favor do SLA - pareciam proferidas com convicção. A partir deste ponto, seus pais temiam, não só por sua vida, mas por sua sanidade mental. O desfecho foi inesperado: ao invés de um anúncio de libertação, o SLA tornou pública uma gravação, na qual Patricia declarava estar se juntando ao seqüestradores e que renunciava ao seu nome - de agora em diante, chamar-se-ia Tania. Como evidência, foi publicada uma foto dela, trajada em uniforme de guerrilha e segurando uma metralhadora, em frente ao símbolo do grupo terrorista. Uma farsa? É o que todos desejariam. Porém, logo depois, os pais da jovem, horrorizados, constataram que o pior, de fato, acontecera - ela era fotografada pelo sistema de segurança de um banco enquanto praticava um assalto em companhia de seus antigos algozes. Pelo crime, ficava óbvio tratar-se de criminosos comuns e não um grupo idealista, lutando por alguma causa política. Alguns meses mais tarde, Tania  (ou Patricia) foi vista enquanto dava cobertura a dois comparsas do SLA, que praticavam outro delito. Contudo, não tardaria até que a polícia desbaratasse a quadrilha: seis membros do grupo - seu líder, inclusive - foram mortos em um tiroteio. Com isso, a identidade do grupo se perdeu e Patricia, foragida, foi capturada, em setembro de 1975. Acusada de assalto e formação de quadrilha, foi condenada em março do ano seguinte. Uma decisão justa? A opinião pública ficou dividida - eram Patricia  e Tania a mesma pessoa? Alguns especialistas teorizam que não. Muito embora pareça, a princípio, tratar-se da clássica 'síndrome de Estocolmo' - na qual surge uma relação de empatia entre raptor e raptado - alguns peritos sustentam que, na verdade, a vítima foi submetida a um processo de persuasão coercitiva, comumente denominado lavagem cerebral. Uma reconstituição do ambiente ao qual ela ficou confinada pode lançar uma luz sobre o assunto.

 

     Durante seu cárcere, Patricia  foi mantida por longos períodos dentro de um cubículo e com os olhos vendados. Não tinha privacidade, sendo obrigada a fazer suas necessidades fisiológicas na presença dos seqüestradores. Foi seguidamente humilhada, espancada e estuprada pelo líder dos terroristas. Palavras de ordem foram repetidas aos seus ouvidos, constantemente. Mantida neste estado miserável, ela foi vencida física, mental e espiritualmente. Seus algozes conseguiram quebrantar sua resistência. Ela perdeu seu senso de identidade e uma nova personalidade - definida pelo grupo - aflorou. Sua mente fragilizada acatou os argumentos falaciosos dos criminosos sobre uma suposta 'causa' de relevante valor social. Até mesmo a relutância dos pais de Patricia  em pagar a quantia absurda proposta pelo grupo - um valor com o qual, de fato, não podiam arcar na ocasião - foi exposta à vítima como evidência de que sua família não se importava com ela. Àquela altura, sua mente havia se tornado 'massa de oleiro' às mãos do líder do SLA. Esta tese parece ter sido, de forma tácita, acatada pelas autoridades, pois a pena de Patricia foi comutada, em 1979, para uma forma mais branda e, finalmente, ela recebeu o perdão oficial do presidente Bill Clinton, em 2001. Ela leva hoje uma vida aparentemente normal.

 

 

Pat Hearst em quatro momentos: no primeiro quadro, vemos uma foto dela antes do seqüestro - uma inocente menina de classe alta; no segundo quadro, a famosa foto de Tania, sua nova identidade como guerrilheira do SLA; no terceiro quadro, seu julgamento - perceba o leitor que ela, algemada, sorri, como se nada estivesse acontecendo, sinal típico de alienação mental; por último, uma foto recente dela, agora Patricia  novamente.

 

 

     A bizarra transformação de Patricia Hearst  não é o único caso famoso de controle mental por parte de grupos radicais. No mesmo estado de origem dela - a Califórnia - outro episódio atrairia a atenção do mundo, mais de vinte anos no futuro. Trata-se do caso de John Walker Lindh, um pacato jovem de classe média que, subitamente, trocou de 'mundo'. Aos 16 anos de idade, ele interessou-se pela vida de um líder negro, que se convertera ao islamismo, Malcolm 'X'  - assassinado em 1965. Algum tempo depois, o rapaz manifestou aos seus pais o interesse em ir ao oriente médio para estudar a religião de Maomé. No Paquistão, ele matriculou-se em uma madrassa - um tipo de escola fundamentalista que inculca em seus alunos estrita obediência ao Alcorão. Incidentalmente, os 'melhores' alunos destas instituições tornaram-se assassinos em massa - os famigerados 'homens-bomba' de grupos radicais, como o Hamas ou o Hezbollah. O jovem Walker converteu-se ao islamismo em 1997 e voltou aos EUA, mas - como era de se esperar - não conseguiu se readaptar à vida em seu país de nascimento. Viajou ao Iêmen e, de lá, retornou ao Paquistão. Em junho de 2001, ele juntou-se ao Talebã, grupo fundamentalista que governou o Afeganistão com 'mão-de-ferro', por vários anos, até a invasão norte-americana. Walker teve treinamento militar em uma base da Al-Qaeda e, em meio à caçada a Osama bin Laden foi capturado e enviado de volta aos EUA, onde aguarda julgamento. Está sujeito a passar o resto de seus dias na prisão. Os repórteres lhe perguntaram se ele tinha certeza de ter tomado a atitude acertada, apoiando o Talebã e a organização Al-Qaeda, contra seu próprio país, ao que ele respondeu: "certeza absoluta!". Seus pais não reconhecem o filho e acham que ele foi submetido a lavagem cerebral. Aparentemente, com razão...

 

 

John Walker em três momentos: em seus anos de adolescência, nos EUA; a seguir, a transformação, após anos de doutrinação em uma madrassa, no Paquistão; finalmente, exausto e abatido, após sua captura, no Afeganistão.

 

     

Madrassa - escola de religiosos ou de fanáticos?      

     

 

 

     A frieza de Walker diante do massacre de 11 de setembro, o qual ele aprova, faz lembrar o caso do carrasco nazista que, indagado pelo repórter se tinha algum arrependimento em sua vida, declarou: "Sim, por ter faltado a aulas no colégio...." Tal resposta dispensa comentários. O que está em discussão aqui não é a cultura islâmica, mas o uso que suas escolas de religião fazem de insidiosas técnicas de controle mental, ao arrebanhar discípulos para a praga do fundamentalismo religioso - símbolo máximo de  intolerância, o qual já mancha de sangue a história da humanidade, há séculos.

 

     

O Perfil dos Líderes de Cultos

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     Muito tem se discutido sobre as pessoas que aderem a cultos, por mais exóticos que eles sejam. Pouco, porém, se tem investigado sobre aquilo que talvez constitua a chave do problema - a personalidade daqueles que criam os cultos. A esmagadora maioria do povo é de seguidores, meros instrumentos às mãos da autoridade religiosa. Como diz Steve Hassan, as pessoas não se juntam a tais grupos, mas elas são recrutadas por eles. Sua nova identidade é, na realidade, uma autêntica 'clonagem' da personalidade do líder. Os episódios de Jonestown, Waco e Uganda  refletem, primariamente, a personalidade de seus principais protagonistas. Não teriam acontecido sem a intervenção decisiva deles. Desse modo, é natural indagar: que pontos em comum poderia haver entre as personalidades de Jim Jones, David Koresh, Shoko Asahara e outros? Este será nosso próximo enfoque.

 

     O neurocientista Michael Persinger, já citado neste estudo, divulgou os resultados de suas experiências com um dispositivo, o qual aplica, por meio de eletrodos conectados a certos pontos do crânio, pequenas descargas elétricas, dirigidas especialmente ao sistema límbico. Segundo ele, por meio desta máquina, podem-se simular em laboratório as experiências de presenças sobrenaturais e o estado de enlevo e êxtase decorrentes delas. Todos os pacientes que se submeteram ao tratamento, de fato, experimentaram sensações incomuns, oníricas. Um voluntário relatou ver uma onda de escuridão, seguida de um ponto luminoso - isto se assemelha às experiências de "pós-morte", relatadas por alguns. Outra pessoa relatou ver coisas e ouvir vozes. Uma mulher declarou ter tido a visão de muitos rostos distorcidos, enquanto um jovem disse ter pressentido uma presença estranha próxima de si, vigiando-o. Uma paciente disse ter sentido a mesma coisa, só que a presença não a assustava, ao contrário, era reconfortante. Um dos voluntários se perguntava, "as vozes que ouvi - vinham de Deus ou era o Dr. Persinger apertando os botões e falando?" O próprio cientista explica o fenômeno:

 

"Descobrimos que os indivíduos que têm sensibilidade no lobo temporal, ou mostram criatividade, ou são religiosos, neste contexto, terão uma experiência religiosa. Podemos gerar a presença que é descrita como Deus."

 

     Citando o caso de alguns líderes de cultos, o Dr. Persinger completa:

 

"Geralmente, trata-se de crianças imaginativas e fantasiosas, rejeitadas ou isoladas pelas pessoas de seu grupo ou pela família. Estas pessoas, então, tornam-se introvertidas e voltam-se para seus problemas internos. Eles se tornam mais egocêntricos. Muitos têm histórico infantil de atividade límbica. Por exemplo, talvez ouçam uma voz chamá-los, à noite. Sentem vibrações percorrendo seus corpos. Sentem que são escolhidos ou diferentes. E então, ocorre a real conversão. Quando esta experiência tem lugar, de repente, sentem que são pessoas diferentes. Sentem-se elevados, agora entendem o que devem fazer. Eles têm uma crença - a reorganização do mundo. É algo pessoal para eles - são indivíduos únicos e precisam difundir a palavra. Todas as emoções profundas e a propensão irresistível de contar ao mundo, de partilhar as experiências, geralmente com sinceridade, são apenas resíduos de segundos de atividade elétrica num  cérebro humano normal."

 

     Um retrospecto da vida de dois 'curandeiros da fé' - já citados neste estudo - parece confirmar as palavras do cientista. As infâncias de Benny Hinn e Reinhard Bonnke contêm todos os elementos para fazer deles o que são. Há uma história comum de sofrimento e rejeição em suas vidas. O primeiro, um palestino que emigrou para o Canadá após a humilhante derrota para Israel, na Guerra dos Seis Dias, tendo se sentido, como diz ele próprio, freqüentemente desprezado por suas crenças; o segundo, é filho de imigrantes alemães que fugiram de seu país diante da invasão russa, quando ele tinha apenas quatro anos de idade, tendo levado um vida dura nos campos de refugiados até os nove anos. Indagado sobre isso, Hinn  admite ter tido momentos em que se indagava, "será Deus ou sou eu mesmo?" Infelizmente, ele não permitiu aos seus seguidores alimentarem esta mesma dúvida. No final, resta o simples fato de que tais líderes se corromperam em algum ponto de sua trajetória - provavelmente no momento em que perceberam quão lucrativo seu 'dom' se tornaria. Afinal, os seres humanos sempre foram facilmente seduzidos por dinheiro e poder.

 

     Tal perfil não é exclusivo dos líderes religiosos, mas também dos políticos. Adolf Hilter, por exemplo, teve uma infância conturbada, um pai autoritário e uma grande frustração - queria ser arquiteto ou pintor. Não foi  uma coisa nem outra. Seus anos em Viena - Áustria, em busca de uma vaga na Academia de Artes, foram descritos por ele mesmo como dias de 'sofrimento e aprendizagem'. Desde sua adolescência, teve a sensação de ser alguém especial, escolhido para um propósito único. Seu professor de História incutiu-lhe idéias anti-semíticas, que seriam a argamassa com a qual Hitler construiria, décadas no futuro, seu odioso Reich. Sua experiência amarga nos campos de batalha da I Guerra, de onde saiu ferido por um ataque de gás, bem como a humilhante rendição da Alemanha, só o convenceram mais ainda de que ele estava destinado a mudar o curso da História. O que muitos desconhecem é o lado místico de Hitler - ele cultuava os seres da raça ariana e pregava uma nova ordem mundial. Sua máquina de propaganda fez da história da Alemanha a pré-história do nazismo. Para seus comandados, ele era um messias - o homem 'forte' que arrumaria a bagunça e restauraria a ordem nacional. Castelos medievais foram transformados em locais de culto e foram criados rituais de iniciação às diversas ordens do Reich alemão. Os membros da "SS" faziam um juramento de fidelidade ao supremo chefe da nação ariana, até à morte. Não se dá algo semelhante no ambiente dos cultos religiosos? Sobre isso, o historiador Alan Wykes comenta:

 

"... o culto semi-religioso do salvador difundiu-se entre os milhares que o ouviam com uma histeria só comparável à dele - uma histeria que, como dizia o próprio Hitler, não era involuntária e sim 'uma tática baseada no cálculo preciso de todas as fraquezas humanas'..." - Hitler (1970), p.37 (negrito acrescentado)

 

     É claro - nem toda pessoa que experimenta sensações incomuns ou passa por adversidades funda um partido ou um culto. Há diversos outros fatores envolvidos. Assim, além dos aspectos relacionados à infância e à hiperatividade límbica, podemos destacar alguns pontos em comum na personalidade dos líderes de cultos:

 

I) Megalomania - eles se sentem acima das demais pessoas, dotados de um visão ou de um valor que elas não têm.

 

II) Carisma pessoal - eles são indivíduos entusiasmados com o que fazem e conseguem cativar os outros; têm espírito de liderança.

 

III) Boa oratória - eles, instintivamente, sabem como motivar as multidões mediante frases de efeito e gestos enérgicos; são bons manipuladores das massas.

 

IV) Intransigência - eles não admitem ser contrariados em seus propósitos; sua palavra deve ser a última.

 

V) Sede de poder - eles buscam obstinadamente o topo; como poder e dinheiro estão intimamente interligados, eles facilmente caem vítimas da ganância.

 

     Curiosamente, a maioria destas características são consideradas ideais aos grandes empreendedores e é exatamente isto que alguns líderes de culto se tornam - grandes empresários da religião!

 

     Adicionem-se à características acima as condições sociais apropriadas e pronto - nasce um novo culto! Para ilustrar, a segunda metade do século XIX foi particularmente prolífica em movimentos religiosos, nos EUA. A atmosfera era propícia - havia liberdade religiosa e as últimas conquistas da revolução industrial induziam muitos a achar que estavam vivendo uma época ímpar, um limiar da história humana. Foi assim que um pastor batista isolou-se em sua fazenda e começou a estudar as Escrituras Hebraicas. Seu nome - William Miller. Ele leu as profecias de Daniel e calculou a data para a vinda de Jesus Cristo - seria o ano de 1843. Nascia o movimento denominado 'Adventismo'. Curiosamente, não parecia ser intenção de Miller criar uma igreja. Todavia, milhares o seguiram e sua previsão só levou ao que os historiadores chamam de "Grande Desapontamento" - a tão prometida data nada trouxe de especial. O pastor aprendeu a lição, mas não suas 'ovelhas'. Toda aquela excitação foi o suficiente para reacender a centelha do misticismo - vários 'talentos' se revelaram e, como conseqüência, inúmeros cultos irradiaram-se a partir dali. Entre estes, podemos mencionar o Adventismo do Sétimo Dia e as Testemunhas de Jeová, cujos fundadores eram ex-milleristas ou associados deles.  De diversas partes surgiam pessoas alegando ter "visões", "sonhos", "dons proféticos" ou algum tipo de conhecimento 'especial'. Algumas das denominações surgidas naquele tempo são hoje prósperas organizações, com filiais por todo o mundo. 

    

 

W. Miller - acendeu o pavio e não pôde apagá-lo

 

     Assim como o Adventismo do século XIX, outros movimentos religiosos propiciaram o ambiente perfeito para a 'fermentação' de novas ideologias, sob o comando de pessoas com o perfil adequado e à espera de oportunidades. Entre estes, os assim chamados 'reavivamentos' merecem destaque especial, pois são cíclicos, isto é, renascem de tempos em tempos, deixando em seu rastro mais algumas centenas de cultos. Eles freqüentemente promovem eventos de massa, o que os torna um autêntico 'laboratório' de experimentos na área de comportamento humano.  Uma série destes movimentos teve início, nos EUA, a partir do século XVIII. Um deles, o pentecostalismo - nascido de doutrinas metodistas e batistas - começou por volta de 1906 e espalhou-se pelo mundo. Um aparentado seu, o movimento carismático - ou neo-pentecostalismo - iniciou-se cerca de sessenta anos depois, também nos EUA, e continua a crescer. Ambos os movimentos enfatizam o 'batismo' com Espírito Santo e os 'dons' milagrosos decorrentes dele - uma alusão ao episódio de Pentecostes, relatado no capítulo 2 de Atos dos Apóstolos. Tal peculiaridade os torna bastante atraentes à massa, ávida por espetáculos 'sobrenaturais'. Afinal, quem não gostaria de experimentar 'bênçãos milagrosas' em sua vida? O apelo apocalíptico e futurista do antigo Adventismo aparentemente não comove as pessoas tanto quanto os benefícios imediatos prometidos pelo pentecostalismo. Esperar por um futuro glorioso e distante pode parecer enfadonho - as pessoas preferem receber benefícios aqui e agora! Isto talvez ajude a explicar a migração de adeptos de uma denominação para outra. Daremos agora um enfoque especial à ação de alguns representantes destas correntes ideológicas em um país prolífico em cultos - o Brasil.

 

Os Cultos no Brasil

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      Atualmente, em diversos países, qualquer pessoa pode fundar e registrar uma igreja - e com muita facilidade. As leis concedem ampla liberdade de culto e não há mecanismos de fiscalização do funcionamento de tais instituições. Na verdade, elas contam com total isenção de impostos, o que só vem a estimular o oportunismo. Certos países têm se tornado um autêntico 'celeiro' místico, importando e exportando ideologias religiosas. É o caso do Brasil.

 

     Segundo uma pesquisa, encomendada pela revista "Veja" ao Instituto Vox Populi e destinada a aferir a espiritualidade do povo brasileiro, 99% da população acreditam em Deus. No entanto, quando indagada sobre a figura do demônio, apenas metade da população professa acreditar na existência dele. Por outro lado, dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) demonstram que tem crescido o contingente da população que não professa qualquer religião - ele representa, na atualidade, cerca de 5% do povo. Trata-se de um notável paradoxo. Com efeito, o Brasil é um país fecundo em contrastes - sociais, culturais e religiosos. 

 

     Ainda segundo estimativas do IBGE, na década de 40, mais de 95% dos brasileiros se diziam católicos, percentual que caiu para 80% na virada do século. Por outro lado, os evangélicos saltaram de humildes 2% para 13% no mesmo período, ou seja, o percentual dos que professam esta corrente religiosa mais do que sextuplicou em 60 anos. A Igreja Católica tem se mostrado apreensiva com estes números e com razão, pois é de suas fileiras que saem os recém-convertidos dos inúmeros movimentos religiosos surgidos nos últimos anos. Por esta razão, tratou de adaptar-se aos 'novos tempos'. Já em 1975, o Papa Paulo VI deu um parecer favorável ao movimento de renovação carismática, o qual tem crescido grandemente no seio da igreja. Suas razões não são difíceis de deduzir - a monotonia dos ritos católicos seculares havia produzido um estado de "letargia" espiritual entre os fiéis, que, entediados, afastavam-se da igreja, em busca de "algo mais". As inflamadas sessões de glossolalia (falar em 'línguas') e exorcismo - oferecidas pelas denominações pentecostais e carismáticas - acabaram por prover a emoção que faltava na vida dos católicos. Alguns ramos deste movimento levaram suas crenças às últimas conseqüências - por exemplo, nas colinas do Kentucky e Tenesse, EUA, um culto pentecostal denominado "Ramo Sagrado da Igreja de Deus" oferece um bizarro espetáculo ao público. Tomando literalmente o relato do capítulo 16 do evangelho de Marcos, seus membros promovem um festival de transe coletivo, no qual as pessoas, em estado de histeria e convulsão, manipulam serpentes venenosas, expõem-se ao fogo e tomam beberagens. É claro, caso alguém morra envenenado ou sofra queimaduras, a culpa será sempre atribuída ao fiel, por sua pouca fé...

 

Neo-pentecostalismo - remédio contra a monotonia

     

     Os líderes de cultos logo perceberam o fascínio do povo brasileiro pelo sobrenatural e quão bem sucedido - e, eventualmente, lucrativo - tal apelo seria neste país. Como conseqüência, uma acirrada disputa por fiéis lançou, nos últimos anos, o mercado religioso em estranha combinação de fé e consumismo. O imediatismo travestiu-se de espiritualidade. A ênfase cada vez maior aos benefícios materiais fez nascer uma autêntica "teologia da prosperidade". Tal propaganda gerou também a visão do 'deus executivo', sempre pronto a negociar suas bênçãos no balcão dos cultos. A fé dos adeptos passou a ser expressa, não mais em atos de solidariedade humana ou abnegação, mas, sobretudo, por cifras - quanto mais fé em Deus, mais doações nos cofres da igreja. Ademais, a certeza apregoada por alguns cultos de que o retorno se dará em forma de bênçãos faz parecer que quem doa passa à condição de 'credor' - surge aí a inusitada figura do 'deus endividado'. Para todos os efeitos, o donativo equivale a uma espécie de 'nota promissória'. Como o calote divino é impensável, a demora na manifestação da graça só pode indicar uma coisa - o fiel está sonegando  parte de suas obrigações financeiras. O termo 'fiel' talvez devesse, neste caso, ser substituído por 'cliente'. E o ato de doar talvez fosse melhor definido como 'investimento'. Da mesma forma, a inusitada figura do pastor 'comissionado' - aquele que participa nos lucros da igreja - fez do ministro religioso o equivalente a um 'gerente de vendas'. É notável - os termos de economia de mercado jamais se ajustaram tão bem ao ramo religioso como em nossos dias. Um provérbio árabe diz, "um tolo e seu dinheiro são rapidamente separados" - no campo religioso, tal afirmação tem se mostrado notavelmente apropriada. Deveras, os cultos assemelham-se cada vez mais a empresas prestadoras de serviços, nas quais a propaganda continua a ser a "alma do negócio". Em vias comerciais movimentadas, igrejas - improvisadas em galpões empoeirados e com nomes pouco originais - ostentam, lado a lado, cartazes e faixas repletos de promessas mirabolantes, tal qual uma butique exibe seus produtos na vitrine, à busca de fregueses. Não apenas a localização e a fachada, mas o horário de funcionamento de algumas delas também segue os moldes empresariais - ao invés das tradicionais reuniões nas tardes do fim de semana, sessões a cada uma ou duas horas, em pleno horário comercial. Por outro lado, a disposição com que certas instituições religiosas incentivam seus adeptos a se despojarem de seus bens em favor de suas igrejas contrasta nitidamente com o gigantesco patrimônio material que elas retêm para si, ano após ano, na forma de templos cada vez mais suntuosos e contas bancárias milionárias, às quais apenas uma minoria privilegiada tem acesso. Um exemplo contundente desse tipo de instituição tem sido um verdadeiro fenômeno de crescimento no Brasil - a Igreja Universal do Reino de Deus, fundada na década de 70, pelo bispo-empresário Edir Macedo. Como disse um jornalista, "sua forte inserção na mídia eletrônica, sua desenvoltura no campo político-partidário, sua diversificada atuação empresarial, sua vertiginosa expansão no país e no exterior, bem como sua capacidade de gerar escândalos e mobilizar miríades de fiéis não encontram paralelo na história do protestantismo brasileiro". Proprietária de uma rede de televisão, inúmeras estações de rádio, um banco, agências de turismo e empreendimentos em diversas outras áreas, a Igreja Universal também conta com mais de três mil templos e está presente em cerca de 50 países. Além disso, é força majoritária em um importante partido político. 

     

     Se examinarmos o histórico de seu fundador, veremos em sua vida todos os elementos que lhe conferem o perfil adequado aos líderes de culto. Vejamos: Edir Macedo nasceu na cidade de Rio das Flores (RJ), em 1945. Seu pai era um pequeno comerciante e a mãe, dona de casa. Perdeu vários irmãos e uma de suas irmãs sofria de asma brônquica. Viveu períodos de crises existenciais, enquanto freqüentava a Igreja Católica e os terreiros de umbanda, simultaneamente. A doença da irmã acabaria por impeli-lo em outra direção - ela fora supostamente curada em uma igreja pentecostal denominada "Nova Vida", no ano de 1963. A exaltação espiritual logo o levaria a converter-se ao referido movimento. Todavia, sua personalidade egocêntrica não poderia ser confinada indefinidamente dentro de um círculo social que não refletisse seu pensamento e estivesse sob seu controle. Cerca de doze anos mais tarde, ele rompeu com sua anterior congregação, criando um movimento dissidente, denominado "Cruzada do Caminho Eterno". Este também não ficaria incólume por muito tempo - em apenas dois anos, uma nova cisão daria origem à Igreja Universal. Macedo chegaria a ingressar na universidade, porém não concluiu qualquer curso. Em 1977, largou seu emprego de servente em uma casa lotérica no Rio de Janeiro, para dedicar-se exclusivamente à sua recém-criada igreja. Quem a visse em seu humilde começo, no prédio de uma antiga funerária, no bairro da Abolição, dificilmente lhe prognosticaria um futuro diferente de muitas outras - esquecidas na obscuridade de ruas de periferia enlameadas, nos guetos de miséria do país. Todavia, a partir de uma perfeita combinação de mídia e misticismo, um império religioso, político e econômico foi erguido. Resumindo: uma infância conturbada, uma história de sofrimento e crise existencial, um caráter místico, uma personalidade megalômana e carismática, um extraordinário talento empresarial e o ambiente propício; a combinação destes fatores - a história assim o mostra - só poderia resultar no nascimento de um culto. A diferença estava em seu líder - um visionário que discernia a importância de ter, em uma mão, o poder da mídia e, na outra, o poder político. Nada o deteria!

 

     Para atingir seu objetivo, Edir Macedo ressuscitou um velho, mas eficiente recurso religioso - o fetichismo. Segundo o historiador Paul Johnson, a partir do 4o. século, o bispo de Milão, Ambrósio, introduziu o culto a relíquias - havia quem alegasse possuir o corpo de Sto. Estêvão, a cabeça de João Batista, a própria cruz de Cristo e até um dente de São Benedito. Cemitérios foram saqueados em busca de objetos preciosos dos 'santos'. Espalhadas pela Europa, havia cinco tíbias do jumento sobre cujo lombo Jesus entrou em Jerusalém - como se o animal tivesse possuído cinco patas! Tal prática caiu no ridículo, lançando vitupério sobre o cristianismo. Ainda assim, vestígios dela permanecem até hoje. Por exemplo, a Igreja Católica guarda, desde o século XIII, em uma catedral de Nápoles, na Itália, um recipiente supostamente contendo uma amostra de sangue de São Genário, o qual se liquefaz 'milagrosamente', todos os anos. Em  Turim, persiste até hoje um dos diversos sudários surgidos na Idade Média. Apesar de apontado, por análises científicas, como uma falsificação do século XIV, a reverência à relíquia é mantida pelo fascínio que exerce sobre os fiéis. De fato, milhões de fiéis peregrinaram, por séculos, até ele, eventualmente deixando gordas contribuições para os cofres da Igreja Romana. A Igreja Universal relançou a antiga fórmula, desenvolvendo seus próprios fetiches. Por exemplo, em suas sessões, é costumeiro apresentar um copo d'água para ser abençoado, lembrando de perto a liturgia espírita, na qual o mesmíssimo objeto - um copo com água - é posto para ser 'energizado' por espíritos; ou a aspersão de água benta, realizada em ritos católicos. Lençinhos 'abençoados' também são, ocasionalmente, distribuídos ao público. Há algum tempo, a igreja criou sua própria versão do sudário de Turim – um gigantesco pedaço de pano, ao qual se atribuem poderes sobrenaturais, tem sido passado por sobre as cabeças dos fiéis durante os cultos, fazendo lembrar as inflamadas torcidas de futebol quando realizam um ritual semelhante usando as bandeiras de seus clubes, em estádios lotados. E, como acontecia na Idade Média, o recurso tem surtido forte efeito, levando as pessoas a um estado de euforia coletiva. Deveras, a criatividade dos dirigentes da Universal parece não ter limites. De tempos em tempos, novos 'lançamentos' têm gerado nas platéias um frenesi semelhante àquele do século XIII. Há 'produtos' para todos os gostos, desde sabonetes, folhas de arruda e até palmilhas. Com efeito, todo e qualquer fetiche que Edir Macedo e seu pessoal criem ou venham a criar – por mais bizarro que seja – encontrará sempre uma resposta positiva da parte de seus crédulos seguidores.

 

     Curiosamente, os rituais de exorcismo, com pessoas supostamente possessas, contorcendo-se e sendo dominadas por pastores trajados de branco, bem como o jargão empregado nos cultos e tão comum no cotidiano dos adeptos - "encosto", "amarrado", "descarrego" etc. - lembram de perto a liturgia da umbanda e do candomblé, ferozmente atacados por Edir Macedo, em seus livros. O empréstimo desses termos são indícios claros de sua antiga fascinação por tais temas e de seu passado envolto em ocultismo. É irônico que ele próprio tenha enxergado nos símbolos religiosos afro-brasileiros, tão enraizados na cultura popular, um eficaz instrumento de marketing. Todavia, a rápida ascensão da Igreja Universal não estaria livre de problemas...

 

    Como se sabe, as sessões de culto da igreja têm sido marcadas por uma abundância de símbolos ditos 'sagrados', tais como vinho, água, óleo etc. Surpreendentemente, um dissidente declara que o vinho 'curativo', oferecido nas reuniões, era, na verdade, suco de uva em pó - desses à venda em qualquer mercearia; que a água, apresentada nas sessões do culto como obtida do Rio Jordão, era oriunda da companhia municipal de água e esgotos, e que o óleo de 'unção', supostamente proveniente de Jerusalém, não passava de azeite comum, comprado em supermercados. O dissidente acima mencionado chama-se Mário Justino de Souza, um menino pobre nascido na Bahia e que, aos 15 anos de idade, abandonou a família e recusou uma bolsa de estudos para residir na sede da igreja. Sua carreira foi meteórica - logo se tornaria um dos mais ardorosos e prestigiados pastores da Universal. Sua presença era suficiente para atrair milhares de fiéis. Todavia, à medida que se aproximava da cúpula do culto - como é, aliás, costumeiro - sua fé, inexoravelmente, declinava. Atormentado por sua homossexualidade, ele acabaria se envolvendo sentimentalmente com outro pastor. Padecendo de dores de consciência, procurou um superior e relatou o acontecido. Após a conversa, foi incentivado a manter sigilo absoluto e esquecer o caso. Segundo ele, pressionado pela igreja, ingressou em um casamento infeliz e, sobrecarregado com os afazeres da fé, sequer pôde estar presente ao funeral de sua mãe.  Na fase mais crítica de sua vida, envolveu-se com drogas e prostituição. Em 1995, afastado da organização por ser portador do vírus HIV, ele lança um bombástico livro intitulado "Nos Bastidores do Reino de Deus", nos quais disseca toda a entidade e faz revelações estarrecedoras sobre seu funcionamento. Familiarizado com os interstícios da igreja, tinha conhecimento de fatos que jamais chegaram ao conhecimento dos fiéis. Aqueles que esperavam encontrar no livro um tom rancoroso e vingativo, ficariam surpresos com o linguajar simples e franco do autor, o qual acabou, na verdade, produzindo uma autobiografia, na qual relata toda sua trajetória, desde o humilde começo, passando pelos momentos de glória no púlpito da igreja, até sua maior aflição, abandonado no exterior por seus ex-associados e sem, ao menos, ter como retornar ao Brasil. Mário não poderia falar das graves transgressões da igreja sem falar nas suas próprias, e ele o faz de forma aberta, citando nomes de pessoas e lugares, bem como assumindo plenamente suas culpas. Talvez esse seja o ponto mais forte do relato. A obra, porém, não passaria mais do que um mês no mercado - uma ação judicial impetrada pela Universal retirou o livro de circulação, em 15 de dezembro de 1995. Deveras, considerando seu conteúdo,  a organização de Macedo muito teria a temer com sua divulgação. Eis alguns trechos, particularmente chocantes:

 

"As reuniões dos pastores, que nos anos anteriores continham leituras de salmos (...) assumiam agora características de reunião de conselho administrativo de megaempresa. Os assuntos do dia eram a compra e venda de imóveis ao redor do mundo, as cotações do ouro e do dólar ou os movimentos das bolsas de São Paulo e Londres. O único Evangelho pregado nesses encontros era aquele segundo Lilian Witte Fibe".

 

"Jogávamos pesado nos programas de televisão. Quebrávamos imagens de santos católicos e, durante os cultos, queimávamos as roupas de candomblé e colares de miçangas levados pelos filhos-de-santo que se convertiam. O povo vibrava. Nós o fazíamos vibrar."

 

"Havia tido minha primeira relação sexual, com um homem, também pastor, da própria Igreja Universal do Reino de Deus. Pensei em largar tudo, pois já não me sentia mais digno de continuar pregando a palavra de Deus. A condenação do Levítico martelava diuturnamente a minha mente: 'Maldito é o homem que se deita com outro homem'."

 

"Sexo e dinheiro eram as maiores causas de queda dos pastores. Talvez pelo fato de esses dois itens serem muito acessíveis dentro da igreja. Quase todos os pastores recebiam bilhetinhos de mulheres se declarando apaixonadas e implorando por uma tarde de amor em um motel de beira de estrada. Algumas mulheres que freqüentavam a igreja viam os pastores como galãs de telenovelas que povoavam as suas fantasias. Sempre vinham a nós confessando os sonhos sexuais que tinham conosco... Sexo, porém, não era motivo para mandar um pastor embora. A não ser quando o adultério ganhava proporções de escândalo..."

 

"Quando o bispo fechou a compra da Record, por US$ 45 milhões, nós tivemos de 'pagar o pato'. Apesar de que não havia necessidade disso, nossos salários foram cortados por três meses com a desculpa de que a igreja precisava economizar dinheiro para o investimento. Ninguém se atreveu a protestar."

 

 

     Esse último trecho refere-se a uma gigantesca e obscura operação financeira sobre a qual pairam, até hoje, graves suspeitas, a saber, a compra de uma rede de televisão. Edir Macedo tornou-se, algumas vezes, vítima de uma coisa que sempre caracterizou sua trajetória - a dissidência. Só que ela veio de uma fonte inesperada - alguém que tinha sido, por anos, seu associado íntimo e "braço direito", o pastor Carlos Magno de Miranda, afastado da igreja em 1991. Em entrevista à maior emissora do país, a TV Globo, Magno entregou um dossiê, no qual denunciava, entre outras coisas, o envolvimento da Igreja Universal em lavagem de dinheiro do narcotráfico colombiano. Além disso, levou a público duas fitas de vídeo: uma mostrava uma 'aula' de Edir Macedo a seus bispos sobre a melhor técnica de extorquir dinheiro dos fiéis, e a outra - mais chocante - mostrava o bispo-empresário, nos bastidores, agarrado a sacos de dinheiro, em meio a caretas, e caçoando de suas vítimas (os vídeos podem ser vistos neste endereço: http://media.putfile.com/macedo). Infelizmente, as investigações foram eclipsadas no turbilhão de uma degradante rixa entre as duas emissoras, a que divulgou as denúncias e aquela controlada pela igreja.

 

À esquerda, o ex-pastor da Igreja Universal, Carlos Magno, concede entrevista, na qual faz graves denúncias contra a instituição. À direita, uma das reportagens que foram a público como conseqüência das denúncias.

 

     Magno descreveu seu antigo colega como um indivíduo inescrupuloso, fanático por vídeos eróticos e sexualmente insaciável - sem dúvida, um quadro bem diferente da figura piedosa e entusiástica que aparecia no púlpito da igreja. Uma autoridade do ministério público, ao assistir a fita, requisitou-a, afirmando tratar-se de um crime. Obviamente, Macedo pôde contar contar com hábeis advogados para protelar o inquérito ou  livrá-lo da pena. Seu patrimônio lhe permitia tal privilégio. Além disso, inquéritos não eram novidade na história da organização. Por volta da mesma época, um dos bispos da igreja cometeu crime de vilipêndio a objeto de devoção religiosa, ao chutar a imagem de uma santa católica, diante das câmeras. Uma juíza da comarca do Rio de Janeiro, após anos de acompanhamento das atividades do bispo, declarou, em entrevista televisiva, "a Igreja Universal não passa de uma rede de estelionatários". Enquanto isso, uma onda de denúncias varria as páginas dos principais jornais brasileiros. Seriam todas improcedentes?

 

Edir Macedo em três momentos: diante de seu público, nos grandes espetáculos da Igreja Universal; a seguir, no instante mais desonroso de sua trajetória, brincando com dinheiro, no intervalo de uma sessão de doações; por último, na cadeia, após uma das denúncias de que foi alvo na década de 90.

 

     Curiosamente, o denunciante Magno - a despeito do 'arsenal' de denúncias contra seu antigo associado - parece ter continuado a crer no modelo proposto por Macedo, pois  fundou ele próprio sua igreja na cidade do Recife, nos mesmos moldes litúrgicos daquela da qual desertou. Obviamente, com a diferença de não ter alcançado o mesmo sucesso. Esse episódio mostra que o líder da Universal fez 'escola' - agora é ele que perde adeptos para alguns de seus ex-pastores...

 

     Diante do peso das imagens, amplamente divulgadas na mídia, e não podendo negá-las, a direção da Igreja Universal lançou mão de uma estratégia muito comum na política demagógica, o argumento dissociativo - tudo não passaria de erros individuais de Macedo, sem qualquer conexão com o verdadeiro espírito da organização. Ele não era a igreja, apenas um membro dela e tudo não passava de perseguição de opositores religiosos. Dito de outra forma, seria o mesmo que dissociar da Igreja Católica a figura do Papa. Os partidos políticos também costumam usar esse argumento quando suas figuras de destaque são flagradas em crassa corrupção. Em tais circunstâncias, invariavelmente, se dizem alvo de perseguição política. Neste caso, a alegação poderia até apresentar alguma consistência, caso o acusado tivesse sido afastado de suas funções - não foi o caso de Macedo, pois ele exerce normalmente seu mandato e ainda goza de prestígio e respeito entre seus comandados. Ora, como seria possível dissociar o criador de sua criação? Não é ele, além de líder espiritual e fundador, a máxima autoridade civil e eclesiástica da igreja, até hoje?  Não representa ela - a Igreja Universal - a personalidade de seu fundador e presidente? Para os fiéis, como seria de esperar, a defesa foi convincente. É compreensível, pois, para eles, seria mais fácil abrir mão da lucidez do que renunciar àquilo ao qual já haviam dedicado suas vidas e seus recursos. Trata-se de gente crédula e simples, em sua maioria. 

 

     A prática de prometer um derramamento de bênçãos em troca de generosas doações a uma igreja nada mais é do que uma versão moderna das famigeradas indulgências da Idade Média, por meio das quais o Papa Leão X garantia a seus súditos o perdão de pecados e a bem-aventurança celestial em troca de dinheiro, suscitando os protestos de Lutero e outros. Foi a gota d'água para a deflagração da Reforma, no século XVI. No cenário atual, há um agravante - o pontífice não prometia riquezas materiais àqueles que tiravam de seus bolsos para a construção de suntuosas catedrais góticas. Com efeito, a prosperidade material tem sido um tema constante nos cultos da Igreja Universal - é impressionante a frequência com que termos financeiros, tais como "cheque", "promissória", "dívida" etc., aparecem nos discursos dos pastores. É também digno de nota que, em face da falta de relatos de prosperidade no Novo Testamento - de fato, não há um só exemplo bíblico de alguém que foi 'abençoado' com riqueza material após se tornar cristão -, Edir Macedo e seus associados vejam-se obrigados a recorrer constantemente ao Antigo Testamento, em busca de exemplos como os de Abraão, Jó e Salomão, os quais viveram em grande riqueza, séculos antes do cristianismo. Desse modo, conseguem justificar, perante os adeptos, seus estridentes apelos por dinheiro. Todavia, não se pode deixar de notar o gritante contraste entre essa prática e os repetidos alertas contra o materialismo, proferidos por Cristo no sermão da montanha e em outras ocasiões, tendo feito duas célebre declarações: "é mais fácil a um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que é para um rico entrar no reino de Deus" (Lucas 18: 25), e "não podeis trabalhar como escravos para Deus e para as riquezas" (Mateus 6: 24). Diante disso, é, sem dúvida, estranho que professos seguidores de Jesus estejam tão avidamente à busca de conforto material como recompensa por sua fé. Obviamente, a famigerada "teologia de prosperidade"' e o pensamento cristão são inconciliáveis.

 

     Instituições como a Igreja Universal tornaram a religião um negócio sórdido. Incentivar uma pessoa pobre e desvalida a desviar seus parcos recursos da boca de suas crianças famintas ou subnutridas, para engrandecer um próspero empreendimento, em troca de promessas vazias, é desumano, antiético e - por que não dizer - criminoso! É chocante ver pastores inflamados prometendo aos ouvintes um mundo de prazeres físicos, na forma de empresas lucrativas, mansões e automóveis de luxo. A mensagem de simplicidade, pregada pelos apóstolos de Cristo, foi reduzida a tagarelice sem sentido. Em sua segunda carta a Timóteo, Paulo diz: "Tendo sustento e com que nos cobrir, estaremos satisfeitos com estas coisas" (II Tim. 6: 8). Por outro lado, os arautos em torno daqueles que doam percentuais fixos de sua renda à igreja - os assim chamados "dizimistas"-, glorificados em sessões preparadas especialmente para eles, constituem uma clara violação do princípio expresso em Mateus 6: 2-4, ou seja, "ao fazeres doações, que a tua esquerda não saiba o que faz a tua direita". Em suma, apenas a ignorância das escrituras cristãs e o desespero popular em um país de extremas desigualdades sociais podem explicar a adesão de tantas pessoas a essa doutrina hedionda e teologicamente órfã.

 

     Uma pesquisa realizada pelo Instituto Superior de Estudos da Religião no Grande Rio de Janeiro, em meados da década de 90, revelou ser a Igreja Universal, basicamente, uma religião de mulheres - elas correspondem a cerca de dois terços dos membros. Além disso, de acordo com o mesmo estudo, 63% dos fiéis da Universal  ganhavam menos de dois salários mínimos e 28% recebiam entre dois e cinco salários. Em outras palavras, 91% recebiam mensalmente menos de cinco salários; 50% tinham menos de quatro anos de escolaridade e 85% não haviam superado o primário. A partir destes dados, é fácil constatar que o êxito deste culto consiste, em grande parte, na exploração do desespero e miséria populares. Um jornalista sintetizou tal cenário social de forma brilhante, com as seguintes palavras:

 

"Embora tal fenômeno religioso não seja mero efeito de nossa modernização e política econômica excludentes, sua pujança advém da tentativa de milhões de excluídos de superar a injustiça social e os problemas afetivos, psíquicos e físicos de toda espécie. Desiludidos e frustrados com os poderes constituídos, inseguros e dotados de baixa auto-estima, crêem contar apenas com o poder divino, ainda que tal poder supostamente seja intermediado, entre outras, por uma eficiente e implacável caixa registradora chamada Igreja Universal do Reino de Deus."

 

     A velha fórmula de Edir Macedo funciona bastante bem, mas não é perfeita - já apresenta sinais de desgaste. À época da produção desse texto, uma reportagem da revista "Isto É" retratou uma crise empresarial sem precedentes na história do culto. Segundo o artigo, a Universal assiste ao pior momento de sua história - o faturamento da igreja começou a despencar no Brasil. Caiu de R$ 1 bilhão ao ano, no início de 1990, para R$ 420 milhões, em 96. No pico, em 1989, havia chegado a US$ 1,5 bilhão. Atento às planilhas e gráficos que lhe são apresentados diariamente, o 'bispo' foi informado de que 30% dos fiéis da Universal migraram para as igrejas pentecostais "Assembléia de Deus", "Deus é Amor", "Renascer em Cristo" e, em menor escala, para outras denominações tradicionais. Além disso, o Banco Crédito Metropolitano, de propriedade de Macedo, está na mira do Banco Central, após investigações terem apontado para fraudes da ordem de R$ 13 milhões. Para salvar seu império, o líder da Universal anuncia uma série de medidas: remover pessoas de cargos-chave, construir, no Rio de Janeiro, uma monstruosa catedral - segundo ele, a maior do mundo - e investir em entidades filantrópicas. Todas as medidas são administrativas e de cunho político - próprias de um grande empresário. Afinal, a prática de investir em benefícios sociais para a população, como forma de marketing,  já é conhecida dos traficantes de drogas nos morros do Rio de Janeiro, os quais, às vezes, buscam granjear a simpatia da comunidade por este meio. E, não raramente, conseguem...

 

     A crise parece estar visitando também outras ideologias. Um antigo  estandarte das religiões, o apelo apocalíptico, parece ter perdido sua força na virada do século. É compreensível - um significativo número de cultos, baseados na escatologia, havia previsto grandes acontecimentos para o século XX. Algumas denominações chegaram a anunciar a vinda de Jesus Cristo diversas vezes. Ingressar no século XXI, sem que nada espetacular e sobrenatural acontecesse ao mundo, parecia impensável para muitos religiosos. Entre eles, um grupo, merece destaque - as Testemunhas de Jeová. O movimento chegou ao Brasil em 1920. Dois anos depois,  a Sociedade Torre de Vigia - representante mundial da religião - enviou seu primeiro representante ao Brasil, cuja visita ensejou a primeira reunião pública, realizada no Estado do Rio de Janeiro, no auditório do Automóvel Clube do Brasil. Suas atividades chegaram a ser proscritas em território brasileiro, durante a gestão do presidente Getúlio Vargas, na década de 40, sendo restauradas na década seguinte, por Juscelino Kubitschek. A organização tinha contra si um processo judicial, o qual fora arquivado. 

 

     A História das Testemunhas de Jeová remonta ao fenômeno do "Segundo Advento", já mencionado neste trabalho. O fundador dos então "Estudantes da Bíblia", Charles Taze Russell, era um próspero comerciante, que vagava de religião em religião, até se deter em um culto Adventista, no ano de 1869. De sua convivência com os adventistas, herdou suas crenças básicas - a mortalidade da alma, a inexistência do inferno, a restauração de um paraíso terrestre e a parusia de Cristo, supostamente ocorrida no ano de 1874. A crença em datas apocalípticas não era nova nos tempos de Russell. Sobre isso, o historiador Paul Johnson comenta:

 

"... A prova em contrário por parte dos acontecimentos parece não ter contribuído em nada para abalar a crença humana na profecia; anos cruciais vieram e se foram - 1260, 1290, 1305, 1335, 1350, 1360, 1400, 1415, 1500, 1535; nada ocorreu tal como predito, mas, ainda assim, as pessoas acreditavam." - História do Cristianismo, p. 311

 

     Na verdade, o declínio da escatologia começara já no primeiro século, seguido de sucessivos 'reavivamentos'. Coube a rabinos como Akibah Ben Joseph (50 - 132 DC) o papel de impulsionar a arte de interpretar profecias, com resultados sofríveis. Antes dele, os cristãos primitivos esperavam um curtíssimo prazo entre o batismo e a salvação. Morreram sem ver a tão esperada vinda do Senhor, da mesma forma que as gerações futuras. No século XII, os cristãos reiniciariam as previsões para o 'fim do mundo', na pessoa do monge italiano Joachim de Fiore (1132–1202) - com novas frustrações. Com efeito, quem ignora o passado, condena-se a repeti-lo. Este certamente têm sido o caso das Testemunhas de Jeová - ao longo de sua história, seus líderes as induziram a alimentar fortes expectativas com respeito aos anos de 1914, 1925, 1975 e, finalmente, a virada do século XXI. Contudo, de modo semelhante aos primeiros séculos ou à Idade Média - após sucessivos desapontamentos, seus adeptos ainda continuam a crer na iminência de um evento espetacular. Obviamente, assim procedem muito mais pela necessidade de crer do que pelo peso das evidências factuais. 

 

     Nada há de condenável em ter esperanças gloriosas quanto ao futuro - ao contrário, pode ser algo extremamente saudável. Elas só começam a ser objeto de preocupação quando adquirem caráter fundamentalista, influindo no curso normal da vida do indivíduo. Foi exatamente o que ocorreu a milhares de Testemunhas de Jeová na década de 70. De acordo com relatórios provenientes da própria organização, muitos adeptos se desfizeram de seus bens ou abandonaram as atividades cotidianas para se dedicar à divulgação da tão esperada data (Ministério do Reino de julho/1974). Até cirurgias foram adiadas em função do evento. Além disso, muitos jovens abandonaram os estudos ou carreiras promissoras em razão de contínuos apelos aos adeptos para que agissem desta forma (Ministério do Reino de junho/1969). Infelizmente, não há estatísticas disponíveis sobre o número de jovens que foram seriamente prejudicados em suas vidas profissionais em razão de darem ouvidos às determinações emanadas da Sociedade Torre de Vigia. Como também não há estimativas quanto ao número de mortes decorrentes de um aspecto muito mais grave das crenças da organização - sua proibição ao uso medicinal de sangue e derivados (mais informações em http://www.geocities.com/torredevigia/medicos.htm). Vários casos médicos envolvendo Testemunhas de Jeová e sua recusa a tratamentos ocuparam as páginas de importantes jornais brasileiros, tendo péssima repercussão junto à população. Se adicionarmos a isto a proibição ao voto válido nas eleições, a proibição ao serviço militar - acarretando a cassação do jovem - e a proscrição de celebrações populares, comprometendo a vida social do indivíduo, não é difícil compreender o lento crescimento desta denominação, exceto na iminência de datas 'proféticas'. Deveras, relatórios provenientes da sede da  organização mostram esta tendência. Por exemplo, nos anos que antecediam 1975, a entidade apresentou sucessivos crescimentos, atingindo um pico extraordinário no ano de 1974 - mundialmente, quase 300 mil novos candidatos se batizaram! Porém, ao passo que ficava claro o completo fracasso da previsão, os gráficos apontavam para um rápido decréscimo aos níveis anteriores à malfadada 'profecia'. Mas, restava ainda um último trunfo - a virada do século. A despeito do fiasco de 75, a literatura da Sociedade Torre de Vigia ainda alimentava as mentes dos fiéis com expectativas quanto ao século XX - na verdade, muitas seitas e sociedades esotéricas ao redor do mundo faziam o mesmo. Bastaria que uma Testemunha fosse indagada durante os anos 80 sobre a possibilidade de o mundo entrar no século XXI sem a materialização de suas esperanças, para perceber o quão incogitável isto seria. Todavia, como ocorre há gerações, o tempo passou, o incogitável aconteceu e os grupos religiosos baseados na escatologia entraram numa séria crise de identidade. Com efeito, o relatório de 2001, publicado pela Sociedade Torre de Vigia, revela que o movimento estagnou ou está em decréscimo no Canadá, EUA, Japão e Europa. Só registrou um pequeno crescimento no México, Brasil e alguns países africanos. Em outras palavras, o culto só cresce em países pobres ou em desenvolvimento, nos quais as condições sociais são precárias e o povo tem baixo nível de escolaridade - um mercado que outras seitas já estão explorando, com sucesso. 

 

     Don Adams, o sexto presidente da Sociedade Torre de Vigia, em Brooklyn-EUA, é o herdeiro deste quadro sombrio e cabe a ele tentar revertê-lo. Todavia, é pouco provável que o consiga, pelo menos a curto prazo. Ele não possui o carisma pessoal de alguns de seus antecessores. Além disso, seus recursos estão limitados às doutrinas históricas do culto, o que encurta bastante seu raio de ação.

 

     O problema com as Testemunhas de Jeová repousa sobre seus alicerces ideológicos - trata-se de um culto fundamentalista cujo atrativo central consiste na perspectiva de um paraíso terrestre, repleto de prazeres físicos. A literatura da organização, principalmente a partir de 1935, tem estampado belíssimas gravuras de um mundo onírico, com fartura de alimentos e paisagens encantadoras, povoado por pessoas jovens, belas, saudáveis, felizes e eternas, vivendo em paz entre si e com os animais - uma utopia que perde pontos para o paraíso capitalista prometido para já pelas seitas carismáticas. A despeito do quanto os olhos possam anelar tal cenário deslumbrante, permanece o fato de que é uma idealização futura, continuamente adiada - as pessoas estão muito mais inclinadas a ceder a apelos imediatos. É exatamente nesse ponto que reside o contraste entre a explosão dos cultos neo-pentecostais e o esvaziamento das religiões escatológicas. As massas parecem se voltar hoje para um tipo inusitado de cristianismo - o 'de resultados' (especialmente resultados materiais). Para agravar ainda mais o quadro, as Testemunhas de Jeová vão na contra-mão do movimento carismático - não advogam dons miraculosos nem prometem prosperidade material aos fiéis. O processo de entrada na organização não é sumário. Os novos conversos são atraídos ao movimento por uma medida de apelo intelectual - eles têm de estudar um, às vezes dois livros, antes de se candidatarem ao batismo. As doutrinas pouco ortodoxas do culto os obrigam a familiarizarem-se com alguns termos gregos e hebraicos. Ainda são submetidos a um curso antes da tão desejada imersão. Talvez resida aí a maior força e, paradoxalmente, a maior fraqueza das Testemunhas. Como elas não são submetidas a experiências 'sobrenaturais' - na verdade, julgam-se esclarecidas demais para cederem a tais 'superstições' - suas convicções repousam sobre as alegações históricas de sua comunidade. É um vínculo frágil por carecer de bases afetivas, as quais costumam obscurecer o raciocínio, mantendo cativo o adepto, mesmo diante da inconsistência doutrinal. A verdade perturba quando a mentira convence. Uma vez um membro do culto seja exposto a fatos questionáveis sobre sua religião, isto provavelmente produzirá um sério abalo em sua fé. Esta possibilidade real obriga os líderes das Testemunhas de Jeová a impor um rigoroso sistema de censura. Consultar literatura crítica ou falar com ex-membros implica no banimento social da pessoa - uma prática que fere claramente o artigo 18 da Declaração Internacional dos Direitos Humanos. Como o espírito humano é historicamente insubmisso, mais e mais adeptos têm transigido e desertado da religião, após terem acesso a informações na rede de computadores. Há uma quantidade surpreendente de páginas na internet , as quais concentram seus esforços em fazer denúncias contra a Sociedade Torre de Vigia. Talvez tal reação adversa de ex-membros possa se justificar no hermetismo social que impera no ambiente em que vivem as Testemunhas. O tribunal eclesiástico delas funciona em moldes bem diferentes das cortes democráticas do mundo, produzindo, freqüentemente, revolta nos réus que recebem a sentença máxima - relegando-os ao ostracismo, fora do contato com amigos de longa data e, às vezes, a própria família. É cada vez menor o número de pessoas dispostas a pagar tal preço por uma promessa que vem sendo adiada há mais de um século. Deste modo, o destino da entidade dentro do cada vez mais concorrido mercado religioso parece um tanto sombrio. O novo século apenas começa. Não há datas especiais à vista. A liderança do culto encontra-se em um sério dilema: ou mutila sua ideologia, a fim de criar novos atrativos - o que, sem dúvida, terá seu preço - ou será a própria organização mutilada pela perda massiva de membros. É esperar para ver...

 

Don Adams - Pela frente, uma ingrata tarefa...

 

     O território brasileiro tem sido pasto para toda sorte de movimento esotérico ou culto, a ponto de um deles cobiçar - não apenas adeptos entre os brasileiros - mas o próprio solo nacional. Trata-se da Igreja da Unificação, um movimento cujo criador, o coreano Sun Myung Moon (conhecido como 'Reverendo' Moon), visualizou, neste país, um novo "jardim do Éden". Segundo uma reportagem do famoso jornal New York Times, ele teria investido cerca de 30 milhões de dólares em propriedades rurais no Estado do Mato Grosso do Sul, despertando a preocupação do governo estadual. A área total adquirida é de cerca de 570 quilômetros quadrados. Ninguém sabe ao certo quais as pretensões do homem que, há mais de sessenta anos, se descobriu o "sucessor" de Jesus Cristo, mas, a julgar pelo rastro deixado por ele em outros países, as autoridades brasileiras têm razões para apreensão. O 'Reverendo' Moon tem o hábito nada saudável de freqüentar a prisão nos países onde se instala. Já foi encarcerado em seu país de origem, a Coréia do Norte, depois mudou-se para a Coréia do Sul, onde também foi preso e, finalmente, foi condenado e cumpriu pena nos EUA - as principais acusações, nestes casos, foram sonegação de impostos e evasão de divisas. Moon criou sua igreja oficialmente em 1954 e ficou famoso por aliciar jovens para seu movimento. Sobre isso, os autores George Mather  e Larry Nichols comentam:

 

"Moon alcança o maior sucesso evangelístico entre os jovens, os quais, ao abandonar o lar e os estudos, freqüentemente sentem-se inseguros e solitários. São abordados por pessoas simpáticas e amáveis, que lhes oferecem a necessária segurança durante o momento da vulnerabilidade. O candidato recebe o convite para uma visita inicial a uma casa onde outros membros da seita concedem-lhe amor e compaixão. Depois disso, segue-se um retiro de final de semana, no qual o candidato é cercado de atenção especial, palestras, cânticos e orações. O bombardeio dos ensinos da Unificação, juntamente com a manipulação emocional feita durante as muitas horas de treinamento, são armas eficientes na conquista do indivíduo, a fim de transformá-lo em um convertido totalmente comprometido." - Dicionário de Religiões, Crenças e Ocultismo (2000), p. 202

 

     O estudioso Steve Hassan, mencionado neste trabalho, foi ele próprio um devoto seguidor deste culto por vários anos. Em seu testemunho, ele expõe o abuso de autoridade praticado pelo líder do culto, o qual, segundo ele, exerce controle total sobre a mente de seus comandados. "Mais que uma seita, trata-se de um negócio que se esconde atrás da fachada de religião, a fim de ganhar dinheiro", diz o arcebispo de Campo Grande, capital do Mato-Grosso do Sul. As palavras do sacerdote não parecem infundadas - o culto da Unificação foi criado nos moldes de uma religião-empresa, possuindo hoje, pelo menos, cinco organizações eclesiásticas, quatro grupos políticos e seis empresas. No entanto, desde 1996, seu império econômico entrou em declínio. Escândalos financeiros rebentaram de todos os lados. Seus débitos ultrapassaram a cifra de US$ 1 bilhão e dezessete de suas companhias estiveram sob intervenção. Desse modo, sua entrada em qualquer país sempre desperta a desconfiança das autoridades. O governador do estado onde Moon adquiriu as terras diz:  "Ninguém sabe o que ele pretende aqui, quais os objetivos de seus investimentos ou a origem de seu dinheiro. Isto tornou-se uma questão  de segurança nacional, e eu acho necessária uma investigação". 

 

     A julgar pelo desfecho de inúmeros outros inquéritos envolvendo as atividades ilegais de cultos, é pouco provável que as autoridades consigam uma ação eficaz em defesa da população e da soberania nacional. Se as fitas do caso Edir Macedo - requisitadas pelo ministério público, em face das bizarras cenas de exploração da fé pública - em nada resultaram até esta data, é normal indagar o quê, afinal, constituiria evidência irrefutável de crime, ensejando as penas cabíveis por lei. O rito processual brasileiro é marcado pela lentidão, ante a virtualmente infinita possibilidade de interpor recursos protelatórios - alguns inquéritos passam por centenas deles. Uma investigação feita por uma equipe jornalística demonstrou que, por exemplo, nos EUA, os advogados buscam, acima de tudo, a composição de acordos judiciais, ao passo que, no Brasil, busca-se, primariamente, retardar o andamento do processo. Algumas sentenças levaram décadas para ser emitidas e, em certos casos, nada mais se pôde fazer, em virtude de já se ter alcançado o prazo de prescrição da culpa. Além disso, a benevolência das leis que regulam a atividade religiosa dificultam a distinção entre as associações que o legislador tinha, de boa-fé, em mente, e as meras quadrilhas de estelionatários, travestidas de religião. Talvez um dos maiores escudos para atividade ilícita seja a isenção total de impostos - as igrejas podem servir de fachada perfeita para a 'lavagem' de dinheiro obtido criminosamente. A relutância delas em, ao menos, declarar sua renda deixa no ar certas dúvidas - o que temem, afinal? O controle do estado sobre suas ações ou, antes disso, o conhecimento da sociedade acerca de sua riqueza? Um caso típico é o das Testemunhas de Jeová na França, onde foram recentemente condenadas a pagar milhões em impostos atrasados - milhares de fiéis saíram em passeata pelas ruas, se dizendo alvo de perseguição religiosa. Além do gesto ser estranho àquela comunidade, a qual prega a total neutralidade política - o que incluiria manifestações públicas de protesto - o argumento usado desvia a atenção da questão central, que é tributária  e não religiosa. As autoridades francesas não proscreveram a atividade da Sociedade Torre de Vigia em seu território, apenas cobraram dela uma obrigação que a todos é imposta legalmente. A reação desta comunidade reflete a ideologia das religiões como um todo. Por que os sistemas religiosos insistem em privilégios fiscais? Não ensinam as Escrituras, claramente,  a render, "a quem exigir imposto, o imposto" (Romanos 13: 7)?

 

     A experiência tem mostrado que o desenvolvimento de um culto destrutivo - ou de qualquer outra organização criminosa - bem que poderia ser comparado ao crescimento de uma frondosa árvore. No início, não passa de uma humilde semente, a qual, lançada em solo fértil, põe-se a germinar, produzindo um broto. Este, por sua pequenez, poderia ser tragado por qualquer cordeiro. Neste estágio de fragilidade, e por algum tempo à frente, o processo poderá ser detido. Todavia, se deixado incólume, o arbusto tornar-se-á um ser gigantesco - nem uma manada de paquidermes dará, então, conta dele. De modo análogo, enquanto a complacência das leis ensejarem a proliferação de organizações religiosas sinistras, permitindo-lhes prosperar à custa da miséria alheia, até a maturidade, será quase impossível ao estado democrático detê-las. Neste ponto, elas disporão do poder econômico, podendo financiar campanhas políticas, criar lobbies, pagar propinas, fazer aplicações em paraísos fiscais, investir em entidades de fachada ou contratar os mais caros advogados para defendê-las, com boa probabilidade de êxito. Assim como um vírus se utiliza dos processos naturais da célula para se reproduzir, os cultos se servem dos princípios da democracia para perverter o sentido de liberdade de fé e expandir seu poderio financeiro. Este certamente tem sido o caso no Brasil, como em muitos outros países.

 

Conclusão

Início

 

     Não se pode afirmar, com propriedade, que o sentimento religioso não é legítimo. Na verdade, ele é uma das peculiaridades humanas, distinguindo o homem de outros seres, com os quais compartilha a vida neste planeta. Sepultar os mortos sem cerimônia, por exemplo, parecia tão condenável às tribos antigas como parece a qualquer comunidade urbana na atualidade. Realizar um rito para marcar esta ocasião parece 'correto', 'justo' e 'apropriado'. Não realizá-lo parece 'desumano' ou 'vergonhoso'. Tais sentimentos são comuns a qualquer pessoa, seja qual for sua origem  cultural. De modo que, a espiritualidade é um inegável atributo humano, com o qual temos de conviver, queiramos ou não. O conceito de valor social está inexoravelmente ligado à nossa espécie. Esta realidade foi percebida pelo pai da Sociologia, o francês Émile Durkheim, em diversas de suas obras, entre elas,  Elementary Forms of Religious Life [Formas Elementares de Vida Religiosa], escrita em 1912. Durkheim cria que os métodos científicos poderiam ser aplicados ao estudo da sociedade. Sua teoria era a de que as características dos grupos transcendem à soma dos comportamentos individuais daqueles que os compõem. Uma coisa em especial era objeto de sua atenção - a base da estabilidade social, manifesta na forma de valores compartilhados, como a moral e a religião. Uma ruptura destes valores resultaria em sentimentos de ansiedade e insatisfação individuais, culminando, finalmente, com o colapso social.

 

 Émile Durkheim (1858-1917)

     

     A veracidade das afirmações do brilhante sociólogo não excluem o fato de que a espiritualidade humana, como todos os demais atributos, está sujeita à perversão e à corrupção. Nosso retrospecto mostra isso além de qualquer dúvida razoável. Ademais, outros intelectuais se deram conta deste fato específico, bem antes das conclusões de Durkheim. Entre eles, podemos citar Karl Marx (1818-1883), Friedrich Nietzsche (1844-1900), David Hume (1711-1776) e Thomas Paine (1737–1809). O primeiro, autor do famoso Manifest der kommunistischen Partei  [Manifesto Comunista] (1849), considerava a religião como fator de alienação do povo; o segundo contestava vigorosamente os valores religiosos de seu tempo, tendo se tornado famoso - e, ao mesmo tempo, mal compreendido - pela declaração "Deus está morto"; o terceiro publicou, em 1748, uma obra crítica das crenças religiosas - especialmente o apelo ao sobrenatural - e o quarto era um filósofo político, cujos escritos tiveram grande influência no processo de independência dos EUA. Paine é erroneamente considerado por alguns como um ateu. Na verdade, sua crença em um Deus Todo-Poderoso foi expressa por ele próprio na obra Age of Reason [Idade da Razão] , escrita entre 1793 e 1807. No entanto, nesta mesma publicação - lançada em meio a efervescente atmosfera da Revolução Francesa - ele critica duramente os principais sistemas religiosos do mundo, a saber,  Judaísmo,  Cristianismo e  Islamismo. Segundo ele, tais instituições  escravizam os povos por meio de uma 'trilogia' - mistério, milagres e profecias:

 

"Os dois primeiros são incompatíveis com a verdadeira religião, e o terceiro deve ser encarado com suspeita... a palavra 'mistério' não pode ser aplicada à verdade moral, mais do que a escuridão pode ser aplicada à luz... Mistério é antagonista da verdade... A religião, deste modo, sendo a crença em um Deus, e a prática da verdade moral, não pode ter conexão com mistério... Como as aparências facilmente enganam, e coisas que não são reais têm forte semelhança com coisas que são, nada pode ser mais inconsistente do que supor que o Todo-Poderoso faria uso de tais meios, os assim chamados 'milagres', os quais colocariam aquele que os realiza sob suspeita de ser um impostor, a pessoa que os relata como suspeita de estar mentindo, e a doutrina que se quer apoiar, como suspeita de ser uma fábula... isso implicaria na fraqueza ou deficiência da doutrina que é pregada... seria reduzir o todo-Poderoso ao papel de uma mágico, fazendo truques para as pessoas verem e se maravilharem... pois é mais difícil obter credibilidade para um milagre do que para um princípio evidentemente moral, sem qualquer milagre. Milagres podem ser coisa do momento, e vistos por poucos; após isso, requerem a transferência da fé em Deus para a fé no relato de homens... a palavra 'profeta' presumivelmente indica pessoas a quem Deus comunicou algum evento a ocorrer no futuro... se existiram, é consistente supor que o evento assim comunicado fosse expresso em termos que pudessem ser entendidos, e não relatado de modo solto e obscuro à compreensão de quem ouve, e tão ambíguo que pudesse se encaixar em qualquer circunstância que viesse à frente... é uma concepção muito irreverente do Todo-Poderoso supor que ele lidaria com a humanidade desta forma infantil."

 

     Sobre o uso da figura do demônio como instrumento de intimidação por parte das religiões, o autor declara:

 

"A fim de criar uma fundação sobre a qual edificar, os inventores se viram obrigados a conceder ao ser a quem chamam Satã um poder tão grande quanto, senão maior do que aquele que atribuem ao Todo-Poderoso. Não apenas deram-lhe o poder de libertar a si próprio das profundezas, após o que chamam de 'derrocada', mas eles fizeram tal poder aumentar posteriormente, até o infinito. Antes desta queda, eles o representam como um anjo de existência limitada, assim como representam os demais. Após sua queda, ele se torna, pelo relato deles, onipresente. Ele está em todo lugar... Não contentes com esta deificação de Satã, representam-no como derrotando, por meio de um estratagema, na forma de animal da criação, todo o poder e sabedoria de Deus. Representam-no como tendo compelido o Todo-Poderoso a entregar sua criação inteira ao governo e soberania de Satã, ou a se render por meio de uma redenção, vindo à terra e exibindo-se em uma cruz, na forma de homem... fazem o transgressor triunfar e o Todo-Poderoso cair...  muitos homens bons têm crido nesta estranha fábula, e vivido suas boas vidas sob tal crença, disto estou ciente...  eles foram educados para acreditar nisso, e acreditariam em qualquer outra coisa da mesma maneira... Quanto mais desnatural uma coisa é, mais passível é de se tornar objeto de triste admiração."

 

     As palavras de Thomas Paine não foram bem recebidas em seu tempo e, provavelmente, não  seriam prestigiadas agora, afinal, ele ataca a base de sustentação dos poderes religiosos constituídos. Seus argumentos põem em xeque a legitimidade das igrejas como representantes de Deus. Isto lhe custou sua reputação e diversas amizades. Este costuma ser o preço por opor-se ao assim chamado senso comum. Certamente, pode-se questionar a validade das idéias do autor no tocante à teologia, porém não se pode negar que suas denúncias, no tocante ao abuso religioso, são inteiramente procedentes. A própria história tem testemunhado a manipulação das massas por meio do temor religioso - as ameaças do inferno ou do purgatório foram os instrumentos pedagógicos da igreja medieval por séculos e a figura do diabo continua a ter amplo destaque nos cultos atuais. Como diz Paine, "ele está em todo lugar", à espreita - a igreja é o único refúgio. Esta cadeia de medo tem gerado entre os líderes de culto e seus seguidores uma relação análoga àquela existente entre um traficante de narcóticos e um viciado. Em ambos os casos o processo de recuperação pode ser lento e penoso, amiúde com seqüelas vitalícias. A espiritualidade humana, infelizmente, contribui para a manutenção deste estado de dominação e sua temíveis conseqüências.

 

Thomas Paine - atacando o abuso religioso

 

     O psicólogo Daniel Goleman, em sua obra Emotional Intelligence [Inteligência Emocional], de 1995, ajuda-nos a desvendar certos mecanismos da mente, os quais seriam a base do comportamento irracional dos adeptos de cultos. Segundo ele, uma porção do sistema límbico, a amídala cortical, seria a sede das paixões. Deveras, um paciente que teve esta parte do sistema nervoso lesada apresentou um quadro de embotamento afetivo, sendo incapaz de demonstrar emoções. A teoria é de que os animais desenvolveram, inicialmente, uma mente emocional, capaz de lhes prover respostas imediatas em situações de emergência - o olfato tinha, então, um papel destacado no processo. Há cerca de cem milhões de anos, os mamíferos teriam dado um passo gigantesco - formava-se uma parte do cérebro chamada neocórtex, capaz de prover respostas mais elaboradas aos estímulos do meio ambiente. Nos seres humanos, esta porção do sistema nervoso apresenta-se mais desenvolvida do que em qualquer outro animal. Na verdade, o neocórtex confere aos homens todas as características que os distinguem das outras criaturas. Representa a mente racional. Todavia, tem de dividir esta função com o sistema límbico - os dois se equilibram, muito embora o segundo possa, em certas circunstâncias sobrepujar completamente o primeiro. Trata-se daquilo que Goleman chama de "seqüestro emocional", ou seja, uma privação momentânea da capacidade de raciocinar, a qual toma lugar em circunstâncias particularmente estressantes. É o que ocorre, por exemplo, quando alguém tem um acesso de fúria e, uma vez recobrada a lucidez, se pergunta, "como fui capaz de fazer isso?" Por outro lado, existe uma via mais complexa, na qual o pensamento antecede a emoção - a pessoa evoca idéias e estas informações produzem um estímulo ao sistema límbico, gerando uma resposta afetiva. Podemos comparar a interação entre estas duas áreas da mente com os pratos de uma balança, ora pendendo para um lado, ora para outro.

 

     Com base nos mecanismos agora estudados, podemos compreender melhor o que provavelmente acontece na mente dos líderes de culto e seus seguidores. Eles, por assim dizer, condicionam sua mente emocional - o sistema límbico - a produzir respostas afetivas sempre que um pensamento é evocado. Uma vez, este processo tenha sido repetido um número suficiente de vezes, o comportamento torna-se 'automatizado'. Esta hiperestimulação límbica acaba por deformar o intelecto do indivíduo, colocando-o a serviço de suas emoções. Linhas de pensamento alternativas são bloqueadas em favor de uma única via. Isto supostamente explicaria como indivíduos cultos tornam-se fanáticos - com efeito, até utilizando seu conhecimento para justificar seu fanatismo. Poderíamos mencionar o caso de Abimael Guzmán, um filósofo e professor universitário, que, a partir de suas convicções políticas, criou, na década de 60, o mais temido movimento terrorista do Peru - a organização comunista Sendero Luminoso. A partir dos anos 80, o grupo iniciou uma série de sangrentos atentados, ceifando muitas vidas entre civis e militares. A brutalidade dos ataques induziu o governo peruano a suspender direitos constitucionais, em 1982. Atribuem-se cerca de 25 mil mortes às atividades desta organização. A crença de seus membros nas idéias de seu líder tem traços quase hipnóticos. Em 1992, Guzmán foi capturado e sentenciado à prisão perpétua. Vendo-o enjaulado, como uma fera, e gritando palavras de ordem, fica-se a imaginar por que razão a educação não protegeu este intelectual dos abismos espirituais em que ele e muitos outros cairiam. A resposta, como vimos, está na própria mente...

 

Guzmán - o intelectual e a besta

 

     Exemplos como este ilustram bem a que ponto as pessoas podem ir e quão cegas podem ficar em virtude de um ideal obsessivo, a ser concretizado a qualquer custo. O desejo de mudar a realidade deixa, muitas vezes, um rastro de sangue no caminho. Isto é verdadeiro tanto no caso das organizações políticas quanto das religiosas.  No turbilhão dos cultos, a realidade cinzenta coagula-se em ilusão cor-de-rosa. O preço desta ilusão costuma ser aquilo que deveria ser uma prioridade - a vida humana.

 

     Não se pode negar que as religiões tradicionais produziram importantes personagens no cenário mundial - Francisco de Assis (1182-1226) e a ganhadora do Prêmio Nobel da paz de 1979, Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), eram católicos; Gandhi (1869-1948) era hindu;  Martin Luther King (1929-1968), prêmio Nobel da paz de 1964,  era protestante; o ganhador do prêmio em 1979, Anuar Sadat (1918-1981), era muçulmano; o de 1984, Desmond Tutu (1931 - ), é anglicano; o Dalai Lama do Tibet, Nobel da paz de 1989, é budista; uma destacada figura da filantropia no Brasil, Francisco de Paula Cândido Xavier (1910 - ) ou simplesmente 'Chico' Xavier, indicado para o Nobel de 1981, é espírita; Yitzhak Rabin (1922-1995), o Nobel da Paz de 1994, era judeu. Pode-se questionar a ideologia religiosa de cada uma destas pessoas, mas não se podem negar seus relevantes serviços à causa do humanitarismo mundial. Por outro lado, o próprio ateísmo produziu importantes figuras históricas,  entre estas, o filósofo e pacifista britânico, Bertrand Russell (1872 - 1970). Prêmio Nobel de literatura (1950), ele recebeu uma comenda do império britânico por seus serviços em favor da paz e chegou a ser encarcerado em sua velhice, por suas atividades contra as armas nucleares. O grande estadista Mikhail Gorbachev (1931- ), prêmio Nobel da Paz de 1990, foi membro do Partido Comunista Soviético, uma entidade ateísta. Outro importante protagonista da história, o 'pai da psicanálise', Sigmund Freud  (1856-1939), um ateu professo, prestou enormes serviços à humanidade. Ele fundou uma nova disciplina médica e formulou terapias, cujos princípios ainda estão em uso no tratamento de pacientes que sofrem de neuroses ou psicoses. Outros exemplos poderiam ser citados, porém esta análise demonstra a futilidade de se tentar estabelecer o caráter de uma pessoa (ou grupo) com base exclusiva em sua orientação religiosa ou na simples crença em uma divindade. Tanto o teísmo como o ateísmo já cometeram suas atrocidades. Como representantes do primeiro, poderíamos citar as cruzadas da Idade Média e o terrorismo islâmico atual, e do segundo,  as ditaduras anti-religiosas de Stalin, na Antiga União Soviética (1924-1953), e de Pol Pot, no Cambodja (década de 70). Fica, assim, demonstrada a falácia das entidades religiosas quando reivindicam para si a reserva moral exclusiva da sociedade. Os ilustres membros da galeria de benfeitores do prêmio Nobel são patrimônio da humanidade, antes que de uma religião em particular. Por outro lado, não podemos olvidar o fato de que os sistemas religiosos continuam a produzir os mais sórdidos déspotas da história, o que mostra seu caráter ambíguo - um potencial para a edificação ou para a destruição. 

 

     O debate sobre os benefícios ou malefícios da religião organizada está aberto. Será a religião mais um bem ou um mal? Pode-se abrir mão dela e, ainda assim, saciar a espiritualidade? Talvez jamais cheguemos a uma conclusão definitiva. Ao que tudo indica, muitos indivíduos são portadores de uma fragilidade de caráter que não lhes permite ver sentido algum na virtude ou na solidariedade, se não tiverem, como dizia Voltaire, um 'freio nos lábios' na forma de uma divindade, bem como uma igreja dentro da qual servi-la. Para estes, a religião é, antes de tudo, uma imposição psicológica, assumindo, às vezes, o caráter de 'mal necessário'. Trata-se de uma condição perigosa, pois a sanidade de tais pessoas repousa sobre um conjunto de crenças, que, por sua frágil base histórica, científica ou mesmo teológica, pode desabar a qualquer momento, sepultando suas esperanças sob os escombros do desapontamento religioso. Por outro lado, milhões de pessoas levam uma vida digna e construtiva sem pertencerem a qualquer religião. Seja como for, mesmo trazendo alguma medida de conforto espiritual, nenhuma entidade religiosa será legítima enquanto empregar técnicas de controle mental para explorar a boa-fé pública, especialmente para ganho desonesto; enquanto seus líderes se valerem de ardis para se locupletarem; enquanto tornar a devoção religiosa uma prática abominável de serviço a dois 'senhores' - Deus e as riquezas (Mateus 6: 24); enquanto colocar os símbolos religiosos à frente do ser humano; enquanto dividir e discriminar pessoas por seu credo, separando amigos e entes queridos; enquanto cercear a liberdade de consciência e opinião; enquanto puser em risco desnecessário a integridade física ou a vida de seus adeptos; enquanto se arvorar em detentora da verdade absoluta; enquanto semear a intolerância e o ódio religioso; enquanto, por qualquer pretexto, esfriar o coração dos homens para o sofrimento do próximo, seja qual for a forma de espiritualidade dele; enfim, enquanto violar quaisquer direitos humanos.

 

     A liberdade de religião certamente deve ser preservada, pois os ideais democráticos assim o exigem. Todavia, liberdade implica responsabilidade. Mário Justino, já mencionado neste estudo, inicia seu livro "Nos Bastidores do Reino de Deus", com as seguintes palavras:

 

"Lamento pelas pessoas que se sentirão traídas por esta obra. Mas espero que ela contribua para que se forme uma discussão de âmbito nacional sobre a influência nociva que pseudo-pastores vêm exercendo sobre as massas, fazendo com que menores abandonem famílias e estudos, desgraçando assim seu futuro e sua vida. Isso, se não é, deveria ser caso de polícia... Recuso-me a acreditar que a Constituição, quando protege a liberdade de culto, também proteja a lavagem cerebral e a exploração financeira da credulidade pública."

 

     Certamente não era pensamento do legislador prover, nos interstícios da lei, abrigo para os mercadores da fé. Seu objetivo era o de garantir o pleno exercício dos direitos humanos, os mesmos de que os criminosos se valem, só para violá-los. A característica marcante dos tiranos religiosos é sua astúcia. Astúcia também é requerida para identificar lobos sob peles de ovelha, de modo a coibir sua ação nefasta sobre a sociedade. O controle da mente de uma pessoa só deve ser exercido por ela própria. Que a espiritualidade não sirva de pretexto para aliená-lo a outrem. Que o sentimento religioso sirva para reconfortar os homens em seus momentos de adversidades, para trazer-lhes júbilo e incutir-lhes fraternidade, não para torná-los escravos de outros homens!

 

 

"Nada pode ser mais contraditório à religião e ao clero do que a razão e o senso comum."

Voltaire, Dicionário Filosófico (1764)     

 

 

 

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