O Lado Negro da Força

(Uma Retrospectiva no Abuso Religioso)

"Só conheço uma liberdade - a de pensamento" - Saint Exupéry

Índice

  1. Introdução

  2. Religião e Poder - O Testemunho da História

  3. 'Milagres' - Questão de Fé ou de Má-Fé?

  4. Cultos - a Morte Ronda a Fé

  5. Jihad - "Deus Está do nosso Lado"

  6. Entendendo o Controle Mental dos Cultos

  7. Os Casos Hearst e Walker

  8. O Perfil dos Líderes de Cultos

  9. Os Cultos no Brasil

  10. Conclusão

 

 

Introdução

 

"O cristianismo não garantiu ao homem sua segurança, sua felicidade, nem mesmo sua dignificação. Mas oferece uma esperança. Trata-se de um agente civilizador. Ajuda a encarcerar a besta. Proporciona vislumbres da verdadeira liberdade, sugestões de uma existência calma e razoável. Mesmo do modo como o vemos, distorcido pelos estragos da humanidade, não é desprovido de beleza."  

 
     Com estas palavras, o escritor Paul Johnson (1928 - ) conclui a sua obra "História do Cristianismo" (1976), na qual traça um abrangente retrospecto deste relevante movimento religioso, desde seus primórdios até os nossos dias.  Em seu comentário, o autor parece sintetizar bem um dos papéis da religião na sociedade (no caso, o cristianismo), a saber, seu efeito moderador sobre os ímpetos do homem. Segundo esta visão, o sentimento religioso funcionaria como uma espécie de 'amortecedor' sobre o espírito humano, salvaguardando os povos da barbárie. Sob o abrigo da fé, cada indivíduo 'encarceraria a besta' primitiva que carrega dentro de si - seus instintos animalescos e sua rebeldia natural - permitindo-se ser 'civilizado'. A proteção de um deus (ou deuses) traria quietude ao ser humano, pondo-o a salvo de sua inaceitável pequenez e efemeridade, diante das quais nada lhe restaria, exceto os constantes vagalhões de uma crise existencial, a mesma crise retratada de forma contundente no mundo futurístico do filme Blade Runner [O Caçador de Andróides] - dirigido por Ridley Scott - no qual os andróides criados pelo homem adquirem consciência de sua efêmera existência e tornam-se psicóticos,  rebelando-se contra seus criadores. Da mesma forma, a escritora Mary Shelley (1797-1851), em seu clássico romance Frankenstein, retrata uma criatura que, ao tomar conhecimento de sua natureza decaída, revolta-se contra seu criador. Há aqueles que vaticinariam semelhante destino para os homens, caso lhes fosse subtraída a espiritualidade. Este peculiar sentimento foi brilhantemente expresso pelo matemático Blaise Pascal (1623-1662), no século dezessete:

"Assistindo à cegueira e miséria do homem, bem como às assombrosas contradições apresentadas por sua natureza, e vendo todo o universo mudo, e o homem sem nenhuma luz, abandonado a si mesmo, e, por assim dizer, perdido neste canto do universo, sem saber quem o colocou aqui, no que se tornará ao morrer, fico temeroso - como um homem que, transportado em seu sono para uma ilha deserta e medonha, acorda sem saber onde se encontra e sem qualquer possibilidade de deixá-la; espanta-me, então, que alguém não se desespere diante de condição tão miserável."

 
     Não se pode negar que tais palavras, em sua pujança, comoveriam pessoas de origens e culturas diversas. Certamente, muitos fariam coro com esta declaração. Pascal parece ter captado, em toda sua essência, o eterno dilema humano - 'quem sou', 'de onde vim', 'para onde vou'. Sem uma resposta - factual ou não - a tais indagações, a sociedade humana, como a conhecemos, provavelmente não teria subsistido. Visto dessa forma, o sentimento religioso reveste-se de inegável relevância social e - por que não dizer - nobreza de objetivos. Todavia, como os demais atributos da humanidade, está sujeito à perversão.
 
Pascal - o eterno dilema existencial
 
      Neste respeito, os naturalistas teorizam que o alto grau de desenvolvimento alcançado pelo cérebro humano cobrou do homem um preço terrível - confrontou-o com a consciência de sua existência e, por conseqüência, com sua mortalidade. Como forma de compensação, outra área da mente teria se desenvolvido grandemente - o sistema límbico, envolvido na motivação e na capacidade idealizadora. De um lado, o intelecto, a razão, de outro, a intuição, a fé - assim caminha a humanidade. Este paradoxo induziu o filósofo alemão Immanuel Kant (1724-1804) a dizer: "...descobri ser necessário negar o conhecimento, a fim de  abrir espaço para a fé". Ao passar das gerações,  o equilíbrio entre estes dois gigantes tem aparentemente conferido alguma  estabilidade emocional e social aos seres humanos.  Contudo, o homem é, antes de tudo, um animal político. Sua visão do cosmo influencia não apenas a visão de si mesmo, mas norteia sua relação com o semelhante. De uma relação benigna com as deidades nasce uma noção de ética e, por conseqüência, um código moral. Deuses que abençoam ou castigam parecem estabelecer um sólido alicerce sobre o qual as civilizações edificam uma relação de tolerância - e não raramente de hostilidade - entre si.
 
     É significativo que a religião tenha estado presente em todas as sociedades, independentemente de sua época, grau de desenvolvimento ou origem geográfica. A necessidade de uma crença transcendental, ao que tudo indica, visitou todos os povos. Onde quer que se encontre cultura, o sentimento religioso está presente. Onde quer que se descubram ruínas de civilizações antigas, a arqueologia tem exumado templos, ídolos, símbolos sagrados, enfim, expressões da espiritualidade dos povos antigos. Um exame na história da humanidade revela-nos um interminável desfile de sistemas religiosos, alguns nascendo da decadência de outros, numa infindável sucessão de ideologias, em que cada novo movimento surge de acordo com as conveniências sociais e políticas de seu tempo. Temos desde o animismo presente nas tribos mais primitivas, passando pelo espiritismo egípcio, o panteão greco-romano, a teocracia judaica, o universalismo cristão, a submissão islâmica, até a condição atual da humanidade - mais dividida do que nunca, em uma infinidade de religiões, uma tendência que parece perdurar. Esta  autêntica 'babel' espiritual suscita uma perturbadora pergunta: teria a civilização sido edificada sobre mitos? Em caso afirmativo, quão frágeis são seus alicerces...
 
     Lastimavelmente, ao passo que o mundo fragmentou-se em credos divergentes, mais e mais foram esquecidas aquelas nobres motivações expressas por Pascal. Como diz o escritor Raymond Franz, os homens passaram de 'servos do espírito' a 'escravos de organizações', ou seja, ao estabelecerem entidades fundamentadas em propósitos piedosos, pouco a pouco, esqueceram-se dos nobres ideais do princípio, inverteram seus valores e colocaram a preservação de seu sistema à frente de suas consciências. Deveras, o coração humano é facilmente corrompido. Ocorreu o que se chama desvio de função - a instituição que fora criada com o propósito de atender às aspirações humanas e unir os homens sob a mesma esperança, tornou-se ela própria o centro da discórdia. Discórdia que se degenerou em intolerância e brutalidade. Deste modo a história da religião foi escrita - às vezes com tinta, às vezes com sangue. 
 

 Religião e  Poder - O Testemunho da História

Início

 
     O escritor Jeovah Mendes - especialista em história secular e religiosa - apresenta sua obra "Dos Porões Sombrios do Vaticano..." (Ed. Livro Técnico, 2000) com o seguinte comentário: 

     "Fartamo-nos de ouvir através dos meios de comunicação, sejam eles o rádio, o jornal ou a televisão, o apelo do Papa João Paulo II, pedindo perdão à humanidade pela intolerância religiosa e crimes cometidos em nome da Igreja Católica, ao longo de sua trajetória tenebrosa e sanguinária. A atitude do eminente pontífice é bastante louvável, embora saibamos que a atual geração nada tem a perdoar, uma vez que nada sofreu, mas sim aqueles que padeceram sob a opressão do catolicismo, nos séculos passados. Contudo, aqueles mártires já nada mais podem perdoar, pois estão mortos, ficando sem efeito os rogos e as lágrimas do bom velhinho - que, felizmente, não tem as mãos manchadas de sangue... há diversos outros fatos, que, considerados gravíssimas ofensas à coexistência humana, muitos gostariam de apagar da memória universal."

 
     Ao longo do livro, o autor passa a expor de forma bem direta - e com boa dose de ironia - a trajetória de trinta pontífices que aviltaram a história da igreja. Isto é particularmente embaraçoso para aqueles que advogam o cristianismo, pois, querendo ou não, a história do catolicismo confunde-se com a história dos movimentos cristãos dos primeiros séculos. Foi a Igreja Romana que convocou o grande concílio de Nicéia (325 DC),  reconhecido pelos historiadores como um marco decisivo na trajetória do cristianismo. Ademais, foram os teólogos católicos que estabeleceram aquilo que hoje é aceito pelas religiões em geral como o cânon sagrado. Eram católicos os primeiros grandes estudiosos e tradutores das Escrituras. Em vista disso, todas as religiões cristãs têm dívidas históricas para com a Igreja Católica, quer gostem disso quer não. É compreensível, então, que diversos historiadores cristãos tenham hesitado em relatar os fatos com isenção. Sobre isso, o autor Paul Johnson declara:

     "No passado, muito poucos estudiosos cristãos tiveram a coragem ou a confiança de colocar a livre perseguição da verdade antes de qualquer outra consideração. Quase todos estabeleceram um limite em algum ponto. Não obstante, como seus esforços defensivos provaram-se fúteis! Como seu sacrifício da integridade parece ridículo em retrospecto!... Afinal, o cristianismo, identificando verdade como fé, deve ensinar - e, adequadamente compreendido, de fato, o faz - que qualquer interferência à verdade é imoral. Um cristão com fé nada tem a temer dos fatos; um historiador cristão que estabelece limites para o campo de investigação, em qualquer ponto que seja, está admitindo os limites de sua fé." - História do Cristianismo, p. 8

 
     O escritor Jeovah Mendes complementa:

"... não devemos olvidar que a função do historiador e do pesquisador consiste em esclarecer a versão dos fatos à luz da verdade, sem se deter diante daqueles que distorcem ou adulteram a História para esconder seus crimes e ocultar suas próprias imperfeições." - Dos Porões Sombrios do Vaticano, p. 21

 
 
     Tomando como princípio norteador as palavras acima, o leitor está convidado a examinar objetivamente o lado obscuro da espiritualidade humana. Ao longo desta averiguação, testemunhará como tal atributo está sujeito à manipulação e à corrupção. Deveras, as maiores atrocidades cometidas contra a humanidade foram perpetradas em nome de ideologias religiosas. Comecemos com um período particularmente fecundo em autoritarismo eclesiástico - a Idade Média.
 
      Em uma época em que o poder religioso confundia-se com o poder real, o Papa Gregório IX - famoso pelo seu caráter irascível e intolerante -  editou, em 20 de abril de 1233, a bula Licet ad capiendos, a qual  marca o início da infame Inquisição, instituição da Igreja Católica Romana, criada com o hediondo propósito de perseguir, torturar e executar aqueles que ousassem discordar de suas doutrinas - os 'hereges', assim definidos:

     "Chamam-se hereges pertinazes e impenitentes aqueles que interpelados pelos juizes, convencidos de erro contra a fé, intimados a confessar e abjurar, mesmo assim não querem aceitar e preferem se agarrar obstinadamente aos seus erros. Estes devem ser entregues ao braço secular para serem executados. Chamam-se hereges penitentes os que, depois de aderirem intelectual e efetivamente à heresia, caíram em si, tiveram piedade de si próprios, ouviram a voz da sabedoria e, abjurando dos seus erros e procedimento, aceitaram as penas aplicadas pelo bispo ou pelo inquisidor. Denominam-se hereges relapsos os que, abjurando da heresia e tornando-se por isso penitentes, reincidem na heresia."

 
     Mais adiante, o regulamento da igreja determinava a punição a que estavam sujeitos os rebeldes renitentes:

     "Estes, a partir do momento em que a recaída fica plena e claramente estabelecida, são entregues ao braço secular para serem executados, sem novo julgamento... Serão queimados vivos em praça pública, entregues em praça pública ao julgamento das chamas...  É de fundamental importância prender a língua deles ou amordaçá-los antes de acender o fogo, porque, se têm possibilidade de falar, podem ferir, com suas blasfêmias, a devoção de quem assiste a execução.  [...] É herege quem disser coisas que se oponham às verdades essenciais da fé."

 
     Aparentemente, os intelectuais constituem a classe mais indesejável aos sistemas religiosos autoritários, pois estiveram entre as vítimas mais freqüentes da inquisição - o genial físico Galileu (1564-1642) esteve entre estes, por suas descobertas astronômicas. Em 1252, o Papa Inocêncio IV - decidido a dar prosseguimento aos planos sanguinários de seu antecessor - autorizava, por meio da bula Ad extirpanda,  o uso da tortura para a obtenção de confissões e, para isso, criava o assim chamado Tribunal do Santo Ofício. O estado não tardou a se subordinar a este perverso sistema. Os bastardos nascidos desta união espúria surgiriam na forma de inquisidores e nobres corruptos que, à custa de prestígio e poder econômico, galgavam posições na igreja e, por meio do famigerado tribunal, perseguiam e matavam seus desafetos políticos. Nesta época, a engenhosidade da mente humana produziu os instrumentos 'pedagógicos' da inquisição - os dispositivos de tortura. Por meio deles, o supliciado era 'purificado' e as 'verdades essenciais da fé' eram restauradas.
 
     Na Itália, em 1600, após oito anos de aprisionamento e acusado de blasfêmia e heresia por suas idéias panteísticas, foi queimado em público o brilhante poeta e filósofo renascentista Giordano Bruno. Milhares teriam igual destino.
 
     Na Espanha, a máquina inquisitorial foi posta a funcionar à mãos de Tomás de Torquemada (1420-1498), monge dominicano nomeado pelo Papa Inocêncio VIII para este sanguinolento ofício. Sob sua gestão, a brutalidade alcançou níveis estarrecedores, com milhares de judeus e outros - acusados de 'bruxaria' - torturados e mortos.
 
     Tal quadro horrendo suscita uma questão ainda não respondida de modo definitivo: foi o estado que se rendeu à igreja ou foi a igreja que se prostituiu junto ao estado? Os frutos dessa união indecorosa depõem contra ambos. 
 
 
Máquinas medievais de tortura - símbolos do autoritarismo religioso
 
     Séculos mais tarde, em uma carta redigida em 1770, Voltaire (1694-1778), grande filósofo do Iluminismo francês, declarou:

"...Não creio que haja, neste mundo, [uma só autoridade], tendo apenas quatrocentos cavalos chamados homens para liderar, que não reconheça a necessidade de colocar um deus nas bocas para servir de freio..."   

 
     De forma sarcástica, porém enfática, Voltaire tocou no ponto crucial - a religião como instrumento tradicional de poder. Ele sabia que a razão - tão enfatizada pelo Iluminismo - esbarraria ela própria em seus limites. Por isso, seguindo na contra-mão daquele movimento, admitia a necessidade social de uma divindade. Todavia,  opunha-se - e, aparentemente, com razão - à religião organizada tal qual se conhecia. Via nela, antes de tudo, um instrumento de opressão, um meio de legitimar o jugo do dominador sobre o dominado. Era o que havia mostrado a história até então - a profana união entre igreja e estado, um dando proteção e legitimidade ao outro. Certa vez, referindo-se ao cristianismo histórico, Voltaire escreveu a Frederico, o Grande: "Vossa majestade prestará à raça humana um serviço eterno se extirpar essa superstição infame..."  Noutra ocasião, em meio aos debates sobre a suposta 'moralidade' presente na ordem universal, ele, tomando como exemplo o terrível terremoto de 1755, em Lisboa, declarou:

     "...Lisonjeia-me que pelo menos os padres inquisidores tenham sido esmagados com os outros. Isso deveria ensinar os homens a não se perseguirem uns aos outros, pois, enquanto uns poucos santos patifes queimam alguns fanáticos, a terra engole todos de uma vez."

 

Voltaire - a razão contra o misticismo
 
     Não são palavras vazias. Naquele momento, Voltaire criticava de forma brilhante o sistema opressivo que o catolicismo mantinha há séculos em nome de Deus - instrumento hediondo cuja eficácia já houvera tentado reformadores como João Calvino (1509-1564), mais de duzentos anos antes. Já aos 24 anos de idade, Calvino havia rejeitado o catolicismo e, valendo-se da predestinação pregada por Santo Agostinho, criou um sistema que, em autoritarismo e intolerância, nada ficava a dever àquele que havia repudiado. Pelo contrário, seu radicalismo acabou por se degenerar em monstruosidade. Certa vez, em sua obra Declaratio orthodoxae fidei, definiu a forma com que se devia lidar com os 'hereges':

     "Deve-se esquecer toda a humanidade quando a glória  [de Deus] está em questão. (...) Deus não permite que sequer cidades e populações inteiras sejam poupadas, mas arrasa muros e destrói a lembrança dos habitantes e arruína todas as coisas em sinal de Sua total abominação, para que o contágio não se difunda."

 
      Mais uma vez, não são frases vazias. Parecem copiadas dos manuais de tortura da Inquisição. A brutalidade calvinista já havia se revelado meses antes, com uma execução à moda católica - na fogueira. A vítima foi outro intelectual, Miguel Servet, o qual ousou discordar publicamente da visão de Calvino sobre a natureza de Jesus Cristo. Esta era a teocracia calvinista, já em vigor na Suíça, por volta de 1538. Eis a sua definição da misericórdia divina:

     "Se indagarmos por que Deus tem pena de alguns e por que deixa que outros se vão, não há outra resposta que não o fato de agradá-lo fazer assim."

     
     É notável que tal doutrina medonha - em comunhão com a figura de Cristo - tenha atraído a tantos daquele tempo. Com base em tal sistema teológico, desenvolveu-se este ramo do movimento reformista do século XVI.  Muito embora, Martinho Lutero (1483-1546), ao contrário de Calvino, tenha inicialmente manifestado moderação, as pressões de sua aliança com a nobreza, pouco a pouco, fizeram-no sucumbir ao fundamentalismo. Em 1525, proibiu a celebração da missa. Em 1529, chegou ao ponto de criticar a "liberdade de consciência", a qual houvera anteriormente defendido. Por fim, dois anos mais tarde, aprovou a condenação à morte de Anabatistas e outros 'extremistas' por parte das autoridades. Na obra mencionada no início deste artigo, o escritor Paul Johnson declara:
 

 "Se tanto luteranos quanto calvinistas (assim como católicos) perseguiam ativamente os extremistas contrários, também se opunham e odiavam entre si." - História do Cristianismo, p. 349

 
     Assim, pois,  se resume o cenário religioso no ocidente, em meados do século XVI - um sistema corrupto e autoritário, o catolicismo papal, suscita o surgimento de duas ideologias de contestação, o luteranismo e o calvinismo. Estas últimas herdam do carcomido sistema anterior parte de suas doutrinas e, acima de tudo, sua intolerância. Deste modo, parece, no mínimo, contraditório que alguns adeptos do protestantismo não poupem críticas à Igreja Católica por suas arbitrariedades passadas, pois, conforme demonstra a história, tanto católicos quanto reformistas endossaram a violência como instrumento de doutrinação religiosa. Deveras, os três sistemas vigentes a partir do século XVI - catolicismo, luteranismo e calvinismo - a despeito de suas diferenças, guardavam notáveis similaridades, a saber, todas eram religiões compulsórias, flertando com o poder estatal e dele se valendo para impor sua hegemonia onde quer que se instalassem; todas reivindicavam o monopólio do ministério cristão. Esta situação perduraria por séculos no futuro. Mesmo na atualidade,  os ânimos entre católicos e protestantes permanecem exaltados em países como a Irlanda do Norte.
 
 
 

Calvino e Lutero - idéias diferentes, métodos semelhantes
 
     
     A Inquisição agonizou a partir do século XVIII e foi oficialmente abolida em 1834. Também, a secular aliança entre os sistemas religiosos e o estado passou por importantes mudanças. Gradativamente, as igrejas ocidentais perderam a 'mão-de-ferro' pela qual tinham imposto, desde a antiguidade, sua ideologia ao povo. Essa parecia ser uma inexorável tendência mundial. Em 1948, uma comissão especial da Organização das Nações Unidas (ONU) adotou a Declaração Universal de Direitos Humanos, a qual, entre outras coisas, defende, em seu artigo 18, a liberdade de consciência e religião. Muitas nações adotaram a Declaração. Assim, não mais podendo contar com o aparato repressor do estado, as religiões passaram a viver à sombra dele, amparadas pela lei. Tiveram que ceder à mudança dos tempos, lançando mão de métodos de persuasão não coercitivos. Novas estratégias tinham de ser traçadas. Na Idade Média, mediante a tortura, buscava-se ganhar a mente a partir do corpo. Na modernidade, segue-se o caminho inverso. A partir de então, está aberta a 'temporada de caça' às mentes humanas. Deste modo, as técnicas de controle das massas assumem grande importância no proselitismo religioso atual e têm se sofisticado. Examinemos algumas delas...
 
 

'Milagres' - Questão de Fé ou de Má-Fé?

     Início

     Os seres humanos sempre demonstraram  fascinação pelo sobrenatural. O evangelho de Mateus, capítulo 12 e versículo 38, relata que os escribas e fariseus reclamaram de Cristo um sinal milagroso como prova de sua identidade. No entanto, ele próprio declarara, em seu sermão do monte, que obras poderosas não constituíam evidência clara de idoneidade espiritual (Mateus 7: 22,23). Aparentemente, a advertência tem sido desconsiderada por muitos. De fato, o apelo ao sobrenatural tem sido uma das táticas mais empregadas pelas religiões na atualidade e - a julgar pelo número de novos adeptos - com bastante êxito. Por exemplo, na Grã-Bretanha existem cerca de treze mil 'operadores de milagres' registrados, alguns até no Serviço Nacional de Saúde. Atualmente, são os cristãos carismáticos aqueles que mais alegam receber graças milagrosas - um movimento com menos de um século de idade e que já conta com cerca de 540 milhões de seguidores em todo o mundo. É o fenômeno religioso que mais cresce no planeta. Em face da era tecnológica em que vivemos, trata-se de um colossal paradoxo. Deveras, apesar de todo avanço científico, aparentemente vivemos em uma época de exacerbação do misticismo. Uma onda de irracionalismo varre o globo, alcançando até os países mais desenvolvidos. As sociedades esotéricas pululam por toda parte. Alguns especialistas vêem isso com grande preocupação, afinal, este é um campo aberto para o fanatismo. Certamente trata-se de um fenômeno que merece ser investigado.

     A crença na cura pela fé remonta aos antigos egípcios e gregos. Estes últimos acreditavam que, Esculápio, o deus da medicina, visitava os fiéis doentes em sonhos e os curava ou lhes prescrevia uma receita para a cura. A deidade não exigia dinheiro do 'curado', apenas sua devoção. Séculos no futuro, tais crenças persistiriam. Por exemplo, na década de 1870, nascia, nos EUA, uma exótica ideologia religiosa - a 'Ciência Cristã'. Sua criadora,  Mary Baker Eddy (1821-1910) sustentava que todas as enfermidades eram manifestações do desequilíbrio espiritual e que a restauração da fé, por meio de serviços religiosos, resultaria na cura das doenças. Ela própria tinha um histórico de saúde frágil, tendo, segundo dizia, se recuperado à base de uma 'iluminação', enquanto lia a Bíblia, no ano de 1866. O poder curativo do Novo Testamento deveria constituir a terapia preferencial para tratar os doentes. Em 1875, ela lançou sua obra mais importante - Science and Health with Key to the Scriptures [Ciência e Saúde com a Chave para as Escrituras]. O que chama a atenção é o número de casos judiciais relacionados com este movimento religioso. Alguns pais têm sido levados às barras da  justiça e condenados por homicídio, após negarem socorro médico a seus bebês doentes, insistindo em ofícios religiosos, de acordo com a doutrina da Ciência Cristã, até a saúde das crianças piorar - nada mais se podendo fazer por elas. Uma mãe, após perceber que o quadro de seu filho só se agravava, contrariou, nos últimos momentos, sua crença e levou a criança ao hospital. Quando indagada pelos médicos por que demorara tanto em agir, ela caiu em si e, transtornada, assistiu ao drama do menino na sala de cirurgia. Infelizmente, em razão do atraso em buscar tratamento, a criança veio a falecer. A partir daí, sua amargurada mãe fundou uma associação de parentes de vítimas deste tipo de abuso religioso. Lamentavelmente, casos como estes continuam a acontecer e o curandeirismo tornou-se um próspero negócio.

Mary Baker Eddy - fundadora da 'Ciência Cristã'

     O evangelismo televisivo tem crescido nas últimas décadas em diversos países, especialmente nos Estados Unidos. Os espetáculos oferecidos pelos assim chamados 'curandeiros da fé' nada deixam a desejar aos grandes concertos de rock - música, holofotes, danças e acessos de êxtase. No meio deste turbilhão, surge a figura do pregador, recepcionado pela platéia como um autêntico popstar. A despeito de todo o brilho, alguns destes líderes religiosos têm sido desmascarados como charlatões e expostos ao vitupério público em razão de sucessivos escândalos sexuais. Dois episódios alcançaram grande repercussão - o caso do criador do movimento Praise the Lord [Louvai ao Senhor], o 'pastor eletrônico' Jim Baker, flagrado em adultério com uma de suas secretárias, e o de Jimmy Swaggart, um santimonioso pregador da TV, que, após ser visto na companhia de uma prostituta, ensaiou, diante das câmeras, um deprimente espetáculo de simulação de arrependimento. Episódios grotescos como esses só têm feito crescer o ceticismo público sobre tal modalidade de evangelismo.

 

Jim Baker e Jimmy Swaggart- caíram as máscaras...

     

     Não menos importantes que os escândalos sexuais são os escândalos financeiros - nos bastidores, vislumbra-se uma milionária indústria da fé. Diversas igrejas estão envolvidas em fraudes fiscais e seus líderes estão sob investigação por enriquecimento ilícito. Estes episódios  demonstram que nem mesmo em suas origens algumas organizações religiosas parecem ter tido motivações nobres.

 

"Luzes... câmera... ação!" - começa o grande espetáculo da fé!

     

     À época da elaboração do presente trabalho, um interessante documentário foi produzido pela rede Carlton Television. Exibido na TV Discovery, intitula-se 'Milagres' e aborda com impressionante realismo a questão do curandeirismo religioso. Seus criadores decidiram-se por um exame imparcial e aprofundado do fenômeno, consultando os próprios curandeiros, bem como solicitando o parecer de cientistas e de autoridades eclesiásticas. Os resultados são impressionantes. O leitor está convidado a examinar o assunto por si mesmo. 

     Para representar o lado dos curandeiros, a rede televisiva escolheu dois ilustres membros do concorridíssimo mercado do evangelismo televisivo: o pregador Benny Hinn (http://www.bennyhinn.com), de origem palestina e radicado no Canadá, e seu colega, Reinhard Bonnke, um alemão filho de imigrantes da II Guerra Mundial e líder do movimento Christ for All Nations [Cristo para Todas as Nações] (http://www.cfan.org/). O primeiro fez da América sua audiência ao passo que o segundo prefere a África. Um deles afirma pregar todo ano para mais pessoas do que o Papa, ao passo que, em uma única sessão, ambos reivindicam um número de 'milagres' superior àquele registrado em todo o evangelho. 

 

Hinn e Bonnke - Parceiros na indústria da fé

     

     Representando os críticos do fenômeno, neurocientistas, psicólogos e um rabino foram consultados. Os maiores pesquisadores do assunto dão sua palavra e revelam conclusões inesperadas sobre o fenômeno das 'curas espirituais'.

     Um ponto marcante em todas as sessões públicas de 'cura' é seu ritmo progressivo, partindo de um ambiente tranqüilo, com música de fundo suave e pessoas confraternizando, seguido de um primeiro momento de êxtase, com a chegada do pregador e, finalmente, o momento mais esperado - a sessão de 'milagres'. Nesta, uma onda de movimentos frenéticos vai, pouco a pouco, disseminando-se pela platéia. De repente, o orador cerra o punho para os céus e convoca a assistência  a invocar o poder de Deus. O público atende o chamado e, a partir daí, estabelece-se uma atmosfera de histerismo - pessoas gritam, choram, riem, dançam e, às vezes, desmaiam. Nesse momento, o pregador convoca aqueles que se sentem 'curados' a erguerem a mão e subirem ao palco. Os primeiros a se manifestar normalmente são as vítimas de dores crônicas. Os mais exaltados lançam ao chão suas muletas ou deixam suas cadeiras-de-rodas, arriscando uma jornada até o púlpito. Uma vez reunidos, dão 'testemunho' entre risos e lágrimas.  Incentivados pelo exemplo, mais alguns erguem-se da platéia e juntam-se a eles. Paralelamente, muitos entram em um estado de transe convulsivo e caem ao chão se contorcendo. A essa altura, os brados da multidão já não são inteligíveis. Aos que não se sentiram curados, o pastor dirige palavras de conforto, incentivando-os a esperar por sua vez, desde que cultivem mais fé. Como não há meios de aferir a fé de uma pessoa, o curandeiro obtém um álibi perfeito. Ao final, todos entoam cânticos e gritam palavras de louvor. Está encerrada a sessão. Muitos vão para casa convencidos da 'cura', mesmo com médicos e especialistas dizendo o contrário. 

     Todos os emocionantes eventos descritos acima quase chegam a ofuscar a ocasião em que, antes da sessão de cura, o orador convoca sua audiência a fazer doações. Na apresentação de Benny Hinn, por exemplo, são distribuídos envelopes com formulários contendo sugestões de oferta que vão desde 100 a 10.000 dólares. Os ouvintes são incentivados a contribuir como forma de demonstrar sua fé no poder curativo de Deus. Centenas destes formulários são recolhidos por ministros 'obreiros' durante a sessão. O quanto eles representam em termos de lucro, pode-se apenas conjeturar. Contudo, o formidável patrimônio acumulado pelo pregador, na forma de mansões, uma 'gorda' conta bancária e um jato particular são evidências claras do destino de, pelo menos, parte destas doações. O pior - observa-se que muitos contribuintes são pessoas humildes e pouco instruídas, que doam seus parcos recursos na esperança de um milagre para si mesmas ou para um ente querido atingido por uma enfermidade.

     Um dos casos mais tocantes é o do pequeno Ashnil, um garotinho de 10 anos, filho de imigrantes indianos e acometido de dois tumores cerebrais, que gradativamente suprimiram-lhe as funções neurológicas. Seus pais, desesperados, recorreram a Benny Hinn em busca de ajuda. Dizem esperar um milagre. Tomados de forte emoção, comparecem ao espetáculo do pregador. Lá, assistem Hinn  'profetizar' um ano novo de muitos revezes econômicos e muitas mazelas. Contudo, diz ele, "aqueles que contribuírem para a obra de Deus serão poupados". O que 'contribuir' significa, logo os fiéis descobrem -  os envelopes de doação são distribuídos. Após os receberem, os presentes são convocados a responder à seguinte pergunta: "Estão prontos para dar à obra de Deus?". A maioria responde 'sim'. Uma vez coletadas as doações, o pregador dá prosseguimento à cerimônia e convoca os pais de Ashnil a vir ao palco. Lá, Benny Hinn impõe as mãos à criança e promete que Deus irá 'tocá-la'. Neste momento, pede a todos que estendam sua mão em direção ao menino. Todos vêem os pais vertendo lágrimas de êxtase. O que ninguém viu foi o que aconteceu a seguir - a família retornou esperançosa para casa, após ter decidido doar 100 dólares todos os meses e mais uma oferta especial de 2.000 dólares. Contudo, a infeliz criança não melhorou. Os pais insistiam negando os fatos e reafirmando sua fé na ocorrência de um milagre a qualquer momento, até que, finalmente, Ashnil  sucumbiu, sete semanas depois. Ao invés de carregar uma criança curada nos braços, seus pais tiveram de carregar suas cinzas após uma cerimônia de cremação. O que teria havido? Falta de fé?

     O caso acima descrito não constitui um fato isolado. Na verdade, houve outras vítimas. Uma mulher acometida de câncer nos pulmões foi declarada 'curada' naquela mesma noite. Seus médicos, contudo, discordavam e, ao que tudo indica, com razão, pois a paciente faleceu, pouco tempo depois. Um homem que sofria de uma enfermidade grave em um dos membros inferiores passou a rejeitar o tratamento após uma sessão de 'cura'. O resultado foi que seu quadro clínico agravou-se e uma cirurgia urgente foi indicada por seus médicos. Teriam estas pessoas 'falhado na fé'? Ora, elas estiveram entre os mais entusiasmados fiéis que foram ao palco dar 'testemunho' de sua cura. Quem as enganou - Deus, elas mesmas ou o curandeiro?

     O colega de Benny Hinn - Reinhard Bonnke - não tem um currículo melhor. Em uma de suas 'cruzadas' na África, quinze pessoas morreram esmagadas pela multidão que tentava sair do lugar. Enquanto isso, ele movimentava-se freneticamente, de  um lado a outro do palco, gritando expressões como "Aleluia" e "Louvado seja o nome do Senhor". Nos bastidores, um de seus ministros fazia uma triagem, elegendo os casos que valiam a pena serem apresentados no palco. Não se registrou nenhum caso de cura atestada por médicos. Na verdade, o único médico solicitado foi o legista. Todavia, o pregador partiu para outra cruzada, levando consigo um número indeterminado de contribuições financeiras.

     Confrontado com o fato de os donativos provirem de pessoas humildes - algumas em grave situação econômica - em nítido contraste com a prosperidade material dos pregadores, Benny Hinn respondeu:

"Embora eu receba um bom salário e more com conforto, embora eu voe em um avião particular, quero lhe explicar por que faço assim. Se eu não voasse em um avião particular, logo estaria esgotado. Então é um benefício, vou durar mais tempo. Serei mais produtivo para o reino de Deus... Não vejo nenhum problema no modo como angariamos os fundos. A maioria só doa porque acha que Deus os está levando a doar, não porque alguém pediu."

     É difícil levar a sério tal explicação. Além de fugir do cerne da questão, a saber, a sobrecarga financeira sobre os ombros já combalidos de pessoas pobres que se endividam para fazer doações, o pregador justifica sua vida nababesca como um tributo adequado a um missionário. Se examinarmos o precedente de Jesus Cristo, o contraste é gigantesco. No evangelho de Mateus, ele fala de si próprio, dizendo: "As raposas têm covis e as aves do céu têm poleiros, mas o Filho do homem não tem onde deitar a cabeça" (Mateus 8:20). Em seu sermão da montanha, incentiva os ouvintes a não acumularem riquezas, exceto as espirituais (Mateus 6: 19,20). Se houve um modelo deixado por Jesus Cristo, este certamente não é de prosperidade material. Por outro lado, se olharmos para os apóstolos como Paulo e outros, todos eles desprovidos de bens materiais, fica-se a imaginar de onde Benny Hinn  extraiu sua estranha justificação, senão de sua própria ganância. Quem induziu a platéia a crer que fazendo doações obteria a graça curativa do Espírito Santo?

     Consultado sobre o assunto, o rabino Harold S. Kushner declarou:

"Na verdade, espero que haja um lugar especial no inferno para as pessoas que tentam enriquecer com o sofrimento alheio. Atormentar o cego, o aleijado, o agonizante, o aflito, dar esperanças aos pais de uma criança severamente doente é de uma crueldade indescritível. Fazer isso em nome de Deus e da religião é, para mim, algo imperdoável. Atormentar as pessoas com a promessa de cura, a qual é biológica e cientificamente impossível é cruel e desnecessariamente cruel. Criar uma atmosfera de apoio que diz que mesmo que uma parte de você não esteja bem, você ainda está aqui, é nosso irmão, filho de Deus - esta é a resposta religiosa. O resto eu não sei o que é..."

     As palavras do rabino parecem inteiramente arrazoadas. Afinal, que espécie de sentimentos devem nutrir aqueles que, ouvindo todo o tempo que Deus cura os seus filhos queridos, não são agraciados com a cura? Devem eles atribuir a culpa a si mesmos? Devem duvidar de sua fé? Muito embora esta constitua, para os curandeiros, uma esplêndida 'cláusula de fuga', à qual sempre recorrem perante os casos em que a promessa de cura não se manifesta nem na aparência, o padrão bíblico - que supostamente deveria servir de modelo - parece indicar outro entendimento. A Bíblia não mostra um só relato em que Cristo ou seus discípulos coletassem dinheiro antes de operar milagres. Ao contrário, a regra era: "de graça recebeste, de graça dai... não adquirireis nem ouro, nem prata... para os bolsos de vossos cintos" (Mateus10: 8). O apóstolo Paulo confirma este princípio, dizendo: "não somos vendedores ambulantes da palavra de Deus..." (II Coríntios 2: 17). Tampouco há relatos em que quaisquer destes personagens bíblicos, fracassando na tentativa de cura, culpassem a pessoa por falta de fé. Por exemplo, o evangelho de Lucas, cap. 17 e versículos de 11 a 19, mostra dez leprosos dirigindo-se a Cristo em busca de um milagre. Todos são curados. Todavia, apenas um deles - natural de Samaria - retorna e dá glória a Deus. Os demais não aparecem sequer para agradecer pela bênção. É digno de nota que o próprio Cristo não deixasse tal fato passar em branco, censurando a atitude destes nove. Assim, pelo menos nesse momento, a fé professa do candidato - embora enfatizada em diversas ocasiões - não foi um fator limitante para o poder divino. Do contrário, estaríamos diante de uma estranha associação entre fé e ingratidão. De fato, segundo os evangelhos, Jesus Cristo operou milagres a despeito da incredulidade daqueles à volta. Os relatos da cura de um paralítico (Mateus 9: 1-8) e da ressurreição da filha de Jairo (Marcos 5:40 e Lucas 8:53) retratam-no realizando obras poderosas mesmo diante da descrença ou até zombaria da maioria dos presentes. Por outro lado, os relatos de ressurreição podem sugerir que era a fé de terceiros o fator na ocasião, já que o beneficiado - o morto - não poderia demonstrá-la. Ademais,  a tese da fé como condição essencial para a realização do milagre - convenientemente defendida pelos curandeiros - desconsidera a hipótese de Cristo enfatizá-la, não como fator limitante para uma cura, mas como condição fundamental para algo maior - a salvação da pessoa.  Assim sendo, não deveria a fé firme de alguns agraciar a fé fraca de outros com o benefício da cura? Com efeito, há relatos bíblicos de pessoas adquirindo fé após um milagre, não antes dele, sendo o apóstolo Paulo um dos exemplos mais tocantes (leia-se o relato de Atos, capítulo 9). Em vista disso, por que se dá que os curandeiros sempre se desculpam de seu fracasso por atribuírem-no à fé fraca do fiel?

 

Os fiéis - abençoados ou vítimas?

     O oportunismo religioso não é algo novo. Deveras, já no segundo século o problema era sentido. Diz o historiador Paul Johnson:

"A natureza do cristianismo, transmitida rapidamente por evangelistas errantes, atraía charlatões. Pagãos sofisticados zombavam dos cristãos por sua ingenuidade. O espirituoso satirista grego Luciano... era particularmente crítico quanto aos cristãos porque 'extraem suas crenças da tradição e não insistem em provas definitivas. Qualquer fraude profissional pode ser imposta a eles e ganhar muito dinheiro com grande rapidez'... Era sempre difícil distinguir entre os verdadeiros inspirados, os auto-iludidos e os meros criminosos." - História do Cristianismo, p. 64

    Aparentemente, os 'meros criminosos' continuam entre nós. Talvez a regra de 'por seus frutos os reconhecereis' (Mateus 7:20) continue válida, afinal, quando supostos 'milagreiros' não têm escrúpulos em fazer de seu ofício uma próspera carreira - amealhando fortunas à custa de 'auto-iludidos' - é natural questionar, não apenas suas intenções, mas também a fonte de seu aparente 'poder'. O que diz a ciência sobre isso?

     Algumas décadas atrás, um enigma intrigava um médico - ele não compreendia como certo procedimento cirúrgico contribuía para uma melhora em um quadro conhecido como 'angina do peito', no qual o paciente tem uma deficiência de irrigação sanguínea no músculo cardíaco e, por isso, experimenta fortes dores torácicas ao esforço físico. Desse modo, ele experimentou o seguinte teste: selecionou diversos pacientes anginosos e informou-lhes que seriam submetidos àquele tipo de cirurgia, podendo esperar a cura completa do mal. Os doentes foram, então, preparados e levados ao centro cirúrgico. Foram anestesiados e tiveram o peito aberto e, em seguida, fechado - apenas isso. Nenhum ato terapêutico foi realizado. Surpreendentemente, diversos deles apresentaram uma sensível melhora - na mesma proporção dos que tinham se submetido à cirurgia original. O resultado - abandonou-se o antigo procedimento. O que estava ocorrendo, então? Resposta: uma peculiaridade da mente humana, denominada 'efeito placebo'. Esta palavra de origem grega quer dizer 'agradar' e representa, em linguajar científico, o poder da mente sugestionada sobre o corpo. É algo bem conhecido pelos pesquisadores de novos medicamentos. Ao se testar uma nova droga, os pacientes são separados em grupos e a um destes grupos administra-se uma falsa droga, pois sabe-se que uma parcela das pessoas manifestará o efeito placebo, sentindo um alívio dos sintomas ao receber um falso medicamento. Se a proporção for igual nos dois grupos, então deduz-se que a droga não é eficaz. Muito embora, seja um fenômeno facilmente perceptível, possui limites. Ele não é capaz de restaurar membros perdidos ou de curar tumores. Todavia, há um sintoma para o qual mostra grande eficácia - a dor, curiosamente a maior parcela dos casos de 'cura' pela fé. 

     É cientificamente incorreto referir-se à dor como 'doença' - exceto por alguns casos de dor crônica de origem neurológica, ela é uma reação normal do sistema nervoso a algum tipo de injúria. Na verdade, trata-se de um dispositivo de proteção, um alarme de defesa, alertando a pessoa para uma disfunção do organismo ou evitando uma lesão maior. É a dor que impede, por exemplo, que uma pessoa com uma fratura óssea continue a utilizar o membro afetado, agravando o problema. Da mesma forma, a dor nos impede de colocarmos a mão em uma chama ou de forçarmos um objeto cortante ou perfurante contra a pele. Sem ela - a dor - as doenças seriam descobertas tardiamente, quando talvez já fosse tarde para tratá-las. De fato, muitas pessoas doentes só procuram o médico quando acometidas desta desagradável sensação. Assim sendo, é também incorreto falar em 'cura' da dor - ela é um sintoma apenas, não a doença em si. A dor não é 'curada', mas suprimida - e de três formas: pela reparação da injúria, pelo uso de medicamentos ou por uma ação do próprio sistema nervoso. Sendo gerada pelo corpo, a dor pode ser modulada por substâncias naturalmente produzidas nele mesmo - chamam-se 'endorfinas'.  Elas têm ação analgésica, aliviando a dor e fazendo o paciente pensar que a causa da mesma foi sanada. Equívoco - apenas o efeito foi atenuado, o problema subjacente pode persistir. A experiência demonstra que o cérebro sugestionado pode aumentar grandemente a liberação destes agentes, suprimindo, às vezes por completo, a sensação dolorosa - esta é, por assim dizer, a 'fisiologia da fé', um processo natural, mistificado e explorado pelos curandeiros para a obtenção de lucro desonesto. A propósito, é comum, em terminologia médica, falar do estágio 'subclínico' de uma enfermidade, ou seja, aquele em que  não se observam sintomas. Com efeito, a cessação de um ou mais sintomas poderá conduzir a um agravamento da doença, pelo simples fato de a pessoa, nestas circunstâncias, interromper o tratamento médico. É o que tem acontecido a muitos doentes que buscam a 'terapia' de curandeiros e é nisso que consiste o maior perigo da ação deles. É patético assistir, às vezes, aos pacientes alardeando a cura de uma doença simplesmente porque não sentem mais dor. Ora, isto nada prova. O exame posterior das lesões, comprovadamente pré-existentes, por um profissional habilitado é o único instrumento capaz de aferir a cura do mal.

     Curiosamente, os evangelhos não registram nenhum caso em que Cristo tratasse casos específicos de dor. Ao contrário, as doenças consistiam em moléstias facilmente observáveis, algumas sendo deformadoras ou mutiladoras, como os casos de paralisia congênita, lepra ou de pessoas com membros 'ressequidos' (João 5: 5-9; Mateus 8: 2,3; João 5: 3). Por que se dá, então, que não se teve registro comprovado até hoje, nas sessões de 'cura' pela fé, de coisas tais como a reabilitação de pacientes tetraplégicos por fratura da medula, ou a restauração de um membro amputado, ou a recuperação de membros deformados, por exemplo, pelo vírus da poliomielite? As Escrituras também estão repletas de casos de ressurreição dos mortos, sendo que Cristo, em Mateus, capítulo dez e versículo oito, convoca seus discípulos a fazerem o mesmo. Conseguiram realizá-las os 'curandeiros da fé'? Ou estarão eles esbarrando nos limites naturais do 'placebo'?

     Para demonstrar o tremendo poder da auto-sugestão,  um cientista realizou o seguinte experimento: selecionou sessenta pacientes vítimas de dores crônicas e os separou em dois grupos de trinta. Todos foram convidados a fazer oito sessões semanais de 'terapia', relaxando em um divã, enquanto um curandeiro, sentado dentro de um cubículo e protegido por um espelho, realizava um ritual de 'cura' direcionado ao paciente. Um importante detalhe foi omitido dos voluntários - o curandeiro estaria presente apenas para um grupo de trinta pessoas. Para as outras trinta, nada havia ao lado delas, além de uma caixa vazia. Todavia, os resultados foram impressionantes. Ambos os grupos relataram sentir fortes sensações durante o experimento. Alguns disseram enxergar pontos luminosos. Nos dois grupos, aproximadamente a mesma proporção de pacientes relatou sentir alívio das dores, ou seja, com ou sem o curandeiro. A que conclusão isso deveria levar? É óbvio - a auto-sugestão, não o curandeiro, foi responsável pela aparente cura dos sintomas.

     Perguntado se as ocorrências em suas sessões de 'cura' não eram simplesmente o efeito placebo, o curandeiro Benny Hinn admitiu que "em alguns casos, sim", sendo que ele próprio se impressionava em ver uma pessoa deixar uma cadeira-de-rodas, caminhar pelo palco e, mais tarde, retornar à cadeira. O que o pregador deixou de mencionar foi o critério pelo qual distingue os casos verídicos dos falsos.

     A mesma pergunta foi feita a Reinhard Bonnke e ele mostrou-se visivelmente perturbado pela questão. Bastante hesitante em suas palavras, mostrou-se evasivo e fugiu de uma resposta direta por dizer que não é psicólogo e deixa estas questões 'para outros'. Resumindo, o entrevistado, após titubear bastante, fez o que se chama apelo à ignorância. Deste modo, ficou também patente seu desconhecimento científico, bem como seu desinteresse por uma investigação racional do fenômeno. É compreensível que tenha agido assim, pois tal investigação acarretaria o sério risco de desmascarar uma impostura.

     O professor Dr. Herbert Benson, da Escola de Medicina de Harvard, explica as bases neurológicas do fenômeno:

"Nós humanos somos a espécie mais inteligente na terra e, por isso, controlamos e dominamos o planeta. Mas essa inteligência tem seu lado negativo. Temos um conhecimento que outras espécies não têm. Sabemos que somos mortais. Nós todos vamos morrer." 

     Tal explicação está de acordo com a teoria mencionada no início deste artigo, pela qual o desenvolvimento do lobo cerebral frontal nos humanos foi compensado pelo desenvolvimento do sistema límbico. Deste modo, nossa consciência do futuro é contrabalançada pela nossa capacidade imaginativa, nosso senso de espiritualidade, nossa noção do 'eu'. A não aceitação da fugacidade da vida reclamou de nossos ancestrais uma resposta - esta viria na forma de uma crença. Após inúmeras verificações, os seres humanos constataram que, com o tempo, nenhum vestígio dos cadáveres restava, nada que se pudesse ver ou tocar, nenhum indício de uma sobrevivência à morte. Viram-se, pois, obrigados a recorrer a algo que transcendesse aos sentidos físicos. Nascia aí o conceito de um espírito (ou alma), capaz de deixar o corpo e viver fora dele. Boa parte da arquitetura antiga baseia-se neste conceito - as pirâmides egípcias, por exemplo. Contudo, as religiões oferecem hoje muito mais que isso - elas prometem vitória sobre a decadência física já!  O médico e cientista, prof. Harold G. Koenig, explica:

"As crenças e práticas religiosas sempre foram relacionadas com saúde física e práticas de cura. Os romanos, os gregos e certamente os chineses e as primeiras civilizações do Vale do Indo, há milhares e milhares de anos, todas lidavam com saúde e cura em termos espirituais."

     Os povos antigos não dispunham dos grandes meios de comunicação. Seus curandeiros tinham fama em uma área restrita. Todavia, com o advento das transmissões televisivas via satélite, os curandeiros da modernidade alcançaram um poder sem precedentes na história. Adolf Hitler, em sua obra Mein Kampf [Minha Luta], declarou:

     "Sei muito bem que se conquistam adeptos menos pela palavra escrita do que pela palavra falada e que, neste mundo, as grandes causas devem seu desenvolvimento, não aos grandes escritores, mas aos grandes oradores." (negrito acrescentado)

     O ditador nazista estava certo. Sua formidável percepção do comportamento das massas fez dele um líder sem precedentes na história da Alemanha. Ainda hoje causa forte impressão assistir a vídeos da época, com o führer discursando energicamente diante de multidões hipnotizadas. Ele se inspirara, por anos, na figura de Benito Mussolini (1883-1945), o ditador italiano. A enorme similaridade de talento, metodologia e objetivos entre Hitler e o Duce - ambos, hábeis manipuladores de massas - os fez assinar, em 1939, o Pacto de Ferro, criando o eixo fascista ítalo-germânico. O resultado, a história conhece bem - o III Reich mergulhou o mundo no mais sangrento conflito que a humanidade já conheceu, a II Guerra Mundial.  Esse fato específico, por si mesmo, revela o risco potencial representado por líderes carismáticos, capazes de agir sobre suas audiências como manipuladores de marionetes. 

 

O poder dos gestos

     

     O rabino Kushner demonstra estar bem ciente disso ao dizer: 

"Uma das verdades que eles vislumbraram é que o ser humano é uma criatura social. Alguma coisa física, química, nos acontece quando estamos em uma grande multidão. Não quero exagerar, mas Hitler entendeu que podia dizer coisas a uma multidão de cem mil com mais efeito do que a uma multidão de cem."

    O Neurologista Marcel Kinsbourne completa:

     "São os passos dos soldados marchando. Eles marcham em conjunto, fazendo a mesma coisa no mesmo momento. O desfile, a aclamação do líder na enorme praça, fosse em Nuremberg ou na Praça Vermelha, o envolvimento dos tambores, a cadência dos passos, do canto, da música, dos gestos de saudação - todos estes elementos têm o efeito de submergir o indivíduo no grupo. São muitas pessoas juntas, com um único  propósito, desempenhando simples atos em cadeia. Eles são como um único organismo. Os organizadores levam as pessoas a este clímax, para que façam algo que não fariam individualmente. É como a investida na batalha, o risco de morte, o ferir o inimigo... ou levantar da cadeira-de-rodas, se for o que Deus ordenou."

     O homem que se tornou o 'braço direito' do führer, o jornalista Josef Goebbels (1897-1945), também era um perito manipulador de multidões. Sua política era a de que "uma mentira, repetida mil vezes, com convicção, torna-se verdade". Hitler rapidamente reconheceu seu talento, nomeando-o Ministro da Propaganda - uma escolha perfeita. Em uma ocasião, Goebbels  proferiu um inflamado discurso diante de uma audiência atenta, intitulado "Como se Leva um Povo a ter Consciência". Logo ficaria evidente seu extraordinário poder sobre a massa. Manuseando as palavras com a  habilidade de um maestro, ele viu uma multidão, enfeitiçada, seguir seus gestos, como músicos em uma orquestra. No decorrer de suas falas, ele foi várias vezes, interrompido por aplausos entusiasmados e, ao final, encheu a platéia de êxtase com a seguinte pergunta: "Vocês querem a guerra total?" Um retumbante "sim!" ecoou pelas galerias. Se a multidão tinha ou não consciência de que tal decisão significaria o aniquilamento de seus filhos e a destruição de suas cidades é uma questão a ser discutida. O fato é que, ao deixar o púlpito, o orador confidenciou a  seus assessores: "Se eu lhes tivesse mandado saltar do topo de um prédio, eles o teriam feito!" É bem provável que sim...

 

Mussolini e Goebbels - o controle das massas a serviço da ditadura

     Observe o leitor as fotos acima e pergunte-se: que fenômeno estava em operação ali? Haveria similaridades entre os eventos políticos de massa e os grandes acontecimentos religiosos, nos quais as multidões são impelidas ao êxtase? Não vemos o mesmo tipo de atmosfera nos estádios de futebol lotados, nos quais as torcidas comportam-se como um organismo único? É um fato que os espetáculos de cura são um fenômeno presente em diversas culturas, evocando-se uma infinidade de deuses. Na Índia, por exemplo, milhares de pessoas reúnem-se em torno de uma mulher que acreditam ser a reencarnação de uma deusa hindu. Atribui-se a ela toda sorte de ato milagroso - desde a cura da lepra até uma ressurreição. Ainda hoje, em diversas partes do mundo, as pessoas recorrem a feiticeiros chamados 'xamãs' em busca de alívio para problemas de saúde. Muitos alegam obter alívio dos sintomas. Da mesma forma, todos os anos, cerca de cinco milhões de pessoas peregrinam até Lourdes, na França, em busca das graças de Nossa Senhora. Não são poucas as que relatam tê-las alcançado. A igreja, até esta data, endossou oficialmente apenas 66 ocorrências, relutando em reconhecer inúmeras outras, da mesma forma que hesitou em dar crédito, na época da suposta aparição, a uma pequena pastora - Bernadette Soubirous (1844-1879) - que, aos catorze anos, alegava ter tido uma visão da santa. O que muitos não sabem é que relatos de visões já faziam parte do folclore da França por séculos e que o papa só endossou o caso de Lourdes após aquela nação se declarar sem religião. Para repelir tal movimento, a igreja precisava do apoio de camponeses  - gente crédula, que cria piamente em relatos de pastoras. Em outras palavras, o apelo ao fenômeno foi, na verdade, um episódio de casuísmo político. Contudo, há, até esta data, incontáveis relatos de 'milagres' supostamente alcançados por peregrinos devotos de Nossa Senhora.  Neste caso, é razoável perguntar: diferem estes fenômenos daquele encontrado entre os ramos pentecostais ou os 'curandeiros da fé'? Afinal, quando o mesmo resultado é obtido de formas distintas, alegando motivos distintos e evocando forças distintas, é de se supor que todos estes eventos tenham um denominador comum. Não seria este ponto comum o efeito placebo, ou seja, a melhora do paciente porque crê que vai melhorar?

 

Um xamã no México e os peregrinos de Lourdes, na França

     

     O neurocientista Michael A. Persinger  sintetiza a questão da seguinte maneira:

"Bons oradores, que manipulam a multidão para o bem ou para o mal têm características similares. Portanto, o estímulo que eles emitem podem influenciar multidões de modos similares. Quando se analisam pessoas como Bonnke, Hinn, Hitler, os desfiles em Nuremberg, vemos que é tudo parecido, e deveria ser, pois são humanos influenciando outros humanos. O bem ou o mal dependem de um julgamento de valores e de perspectiva histórica."

     O bem ou o mal dependem também das intenções de quem faz uso de tais habilidades. Em todo caso, o alvo de tais oradores é um só - a mente da assistência. É significativo que o curandeiro Benny Hinn, pouco antes de suas sessões de 'cura', dirija a seus ouvintes as seguintes palavras:

"Abra todas as suas defesas. Você não mais vai proteger nem suas emoções. Você se tornará completamente aberto, porque a unção exige que cada parte de você esteja aberta. Nestes momentos, você fica extremamente frágil e sensitivo."

     Este apelo parece servir bem ao propósito de um hipnotizador. Tanto o discurso quanto a expressão no olhar da multidão não deixam dúvida. Os eventos que se seguem estão bem dentro do padrão esperado. O Dr. Persinger os descreve assim:

"Você começa com o tipo de pessoa que está sempre falando de dor e dificuldades. Geralmente está um pouco deprimida. Acha que algo está faltando em sua vida.Coloque-a em grupos de milhares de pessoas, onde se sinta pequena pelo tamanho do lugar, em uma catedral, uma montanha ou ao ar livre. A proximidade de milhares de pessoas iguais a nós produz um tipo especial de estímulo psicológico, uma sensação de unidade, de humanidade. É preciso que haja música, que sobe e desce a cada quatro ou cinco segundos, para produzir um tipo de "onda de vivência", a qual aumenta o estímulo e libera substâncias opióides, que aumentam a hipnose, a sugestão. Com o grupo neste estado extático, de expectativa, aparece o orador, o evangelista, que irá coordenar as experiências com a massa. Ele deve ser um tipo de maestro, para manter a orquestração cognitiva. É preciso que haja movimentos gestuais, os quais permitem um senso de poder e controle. E, conforme a pessoa começa a passar a mensagem, a fazer declarações cheias de emoção e imagens, estas imagens ganham um enorme valor pessoal por causa das substâncias opióides e do estado de êxtase do grupo. Então vemos as características da liberação de opióides - sorrisos suaves, como se estivessem meio bêbados, é a sensação de unidade com o resto do grupo... a depressão acaba... eles se sentem revigorados e têm vontade de chorar... as pessoas vão se movimentar para manter a experiência, a qual ocorre por leves alterações elétricas no cérebro. Estas alterações, com o efeito analgésico e a euforia, também liberam componentes que produzem supressão. Assim, quem tem uma inflamação como a artrite sentirá menos sintomas. Quanto ao poder de cura, o curandeiro carismático é apenas o catalisador que desencadeia o processo na pessoa. A alteração vem do cérebro e das expectativas da pessoa, das alterações químicas e da eletricidade cerebral, as quais geram alterações em seus próprios corpos."

     As substâncias 'opióides' a que o neurocientista se refere são naturalmente produzidas no cérebro de qualquer pessoa e conferem ao indivíduo  sensações de bem estar e alívio da dor. Ainda há pouco, tratamos de uma delas - as 'endorfinas'. Em doses maiores, alguns de tais agentes podem gerar alucinações. Seus efeitos podem ser imitados pela morfina, droga bastante usada em hospitais, no atendimento a pacientes com dores fortes. Além deles, os viciados em heroína experimentam tais sensações em um grau muito elevado. A experiência com estes pacientes e o estudo dos sintomas levaram a medicina a ter uma melhor compreensão do fenômeno de sugestão e hipnose. De fato, pessoas hipnotizadas podem ter a sensação de dor suprimida. Um profissional certa vez chocou seu público em um espetáculo de TV, no qual um paciente sob hipnose teve agulhas espetadas em seu corpo sem, no entanto, referir qualquer dor. Na ocasião, o hipnotizador não evocou poderes sobrenaturais ou a intervenção de espíritos, mas disse  tratar-se simplesmente de uma habilidade da mente humana. Diante destes eventos, não é de surpreender que um paciente de 'cura espiritual' sinta alívio dos sintomas de patologias como artrite, enxaqueca, cálculo renal e assim por diante. A ciência já aprendeu a não subestimar o poder da mente sugestionada sobre a fisiologia do corpo. Infelizmente, muitos fazem disso um meio para enriquecimento ilícito.

     O narrador do documentário conclui o estudo com as perturbadoras  palavras:

"O que eu questiono é o uso destes poderes por curandeiros religiosos que aparecem na cidade por um dia ou dois, prometem milagres que são biológica e cientificamente impossíveis, coletam dinheiro e vão embora. A maior injustiça aqui é a mensagem, recebida por pessoas em momento de desespero, de que, se tiverem muita fé e derem bastante dinheiro, Deus irá restaurar o braço que não têm, curar ossos fraturados e acabar com tumores cancerígenos. Enquanto Deus não cumpre a promessa, vemos que os doentes e seus entes queridos culpam a si mesmos ou negam o fracasso, porque a necessidade de crer que estão em paz com Deus, que ele realmente recompensou sua fé com um milagre é tão grande que alguns recusam ajuda médica, mesmo quando sua condição piora... às vezes até à morte."

     É provável que os curandeiros continuem entre nós, pois eles estiveram presentes em todas as culturas. Contudo, é preciso que saibamos distinguir entre a figura um pajé - personagem tradicional de certas tribos - e o mero estelionatário urbano. Lamentavelmente, é também provável que muitos do segundo tipo se locupletem às custas de vítimas crédulas. Todavia, o acesso da população à informação e uma maior vigilância das autoridades seriam medidas oportunas no sentido de coibir este tipo nefasto de indústria.

 

Cultos - a Morte Ronda a Fé

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       A palavra 'culto' tem interpretação subjetiva, dando margem, às vezes, a polêmicas. Para efeito deste estudo, consideraremos como culto todo movimento religioso de caráter fundamentalista - geralmente minoritário - cujas crenças difiram substancialmente da ortodoxia e cuja ideologia apresente riscos à integridade física, mental, social ou patrimonial  do indivíduo. Todavia, tal definição não exclui a possibilidade de que mesmo as denominações religiosas tradicionais apresentem, ocasionalmente, ameaças ao tecido sócio-familiar, até porque tais movimentos estão sujeitos à formação de alas fundamentalistas.

     Os cultos podem diferir quanto ao objeto de devoção, mas todos eles guardam, por assim dizer, 'sinais' identificadores quanto à sua natureza. Sua ideologia repousa sobre quatro 'pilastras', a saber:

1) Louvor a personalidades: todos os cultos operam na forma de pirâmide hierárquica, com acentuado destaque à figura no topo - normalmente o fundador do movimento. O cristianismo, como qualquer outro movimento religioso, repousa sobre suas alegações históricas. Sem elas, fica sem passado e sem significado. Os cultos também precisam de passado. Como eles não têm histórico que remonte aos primeiros séculos do cristianismo - o que talvez lhes desse crédito pela tradição - precisam manter viva a memória do líder, bem como todas suas supostas realizações, de modo a manterem uma noção de identidade. Poderíamos citar a Igreja da Unificação, centralizada na pessoa do 'Reverendo' Moon, o Adventismo do Sétimo Dia, centralizado na pessoa de sua 'profetisa', Ellen G. White, o Mormonismo, centralizado na pessoa de Joseph Smith e as Testemunhas de Jeová, centralizadas na pessoa de Charles T. Russell.

 

Sun M. Moon

(1920- )

Ellen White

(1827-1915)

Joseph Smith

(1805-1844)

Charles Russell

(1852-1916)

 

2) Existência de um 'texto-guia': todo movimento religioso provém de uma corrente interpretativa de um texto 'sagrado', seja o Alcorão ou a Bíblia. Como tais textos estão sujeitos - eles próprios - a múltiplas interpretações, os cultos carecem, digamos assim, de um 'reforço' ideológico que ajude a legitimar sua autoridade. Normalmente, tal lacuna é  preenchida pelos próprios fundadores - eles emprestam parte de sua 'respeitabilidade' ao movimento por meio de compêndios escritos durante seu 'ministério'. Não raramente, o autor se diz "inspirado" por Deus. Assim, sua obra passa a servir de referência aos adeptos, tendo, em alguns casos, a mesma autoridade do manuscrito 'sagrado' em que supostamente se baseia. Podemos citar, como exemplo, o "Livro de Mórmon" (a 'revelação' de Deus a Joseph Smith), texto-guia da Igreja dos Santos dos Últimos Dias, os escritos de Ellen White (também chamados de "luz menor"), texto-guia dos Adventistas do Sétimo Dia e "Estudos das Escrituras", obra da autoria de Charles Russell, a qual serviu de guia para as Testemunhas de Jeová nas primeiras décadas de seu movimento. Apesar de se encontrar totalmente obsoleta, um artigo na principal publicação da entidade apresentava "Estudos das Escrituras" como um guia mais seguro do que a própria Bíblia (A Sentinela de 1/12/ 1916).

3) Fundamentalismo: todos os cultos apresentam-se como o "único caminho para a salvação". Segundo sua ideologia, todas as outras entidades estão "corrompidas" e em "trevas espirituais". Em face de tal visão preconceituosa, os cultos são profundamente intolerantes para com outras denominações religiosas. É notável a fúria com que atacam outras igrejas pelo seu histórico e por suas crenças. Estão sempre prontos a apontar falhas morais de outras organizações, ao passo que omitem ou minimizam as suas próprias. Como exemplo, podemos citar as inflamadas obras do líder da Igreja Universal, Edir Macedo, atacando as religiões afro-brasileiras. Um de seus "bispos" chegou a chutar um símbolo da devoção católica em rede nacional de TV, chocando a população e trazendo péssima repercussão junto à opinião pública. As Testemunhas de Jeová também são profundamente intolerantes, classificando todas as outras religiões como a prostituta "Babilônia", mencionada em Apocalipse, cap. 17 (A Sentinela de1/12/1991, pág. 13).

4) Abuso de Poder: os cultos são, normalmente, movimentos minoritários. Precisam, pois, de um número significativo de 'contribuintes' para subsistir. Aí está, em parte, a raiz de sua intolerância - se fossem complacentes para com seus adeptos, permitindo-lhes freqüentar outras denominações e contribuir para elas, perderiam sua fonte de sustento. Conseqüentemente, precisam manter seus membros sob 'rédeas curtas'. Este objetivo é alcançado por meio de um sentimento natural aos seres humanos - o medo. Terríveis acontecimentos aguardam o fiel, caso ele deixe o grupo. Uma vez tenha sido suficientemente intimidado por esta idéia, o culto conseguirá arrancar dele qualquer coisa. Não é incomum a prática de extorsão de dinheiro ou bens por parte dos dirigentes de culto. De uma forma ou de outra, o rebanho é 'tosquiado' ao invés de 'apascentado'. Alguns grupos são sutis na forma de angariar fundos. À guisa de  exemplo, a Sociedade Torre de Vigia, representante das Testemunhas de Jeová, não exige 'dízimo' de seus adeptos, mas todos eles são obrigados a participar na venda de literatura de porta em porta - atualmente, a principal fonte de receita da instituição. Além disso, todos são incentivados a tornarem-se missionários ou servidores na sede da organização, trabalho pelo qual não recebem salário, apenas uma 'mesada' mensal, insuficiente para o sustento de uma família - e nem família poderia haver, já que, nestas circunstâncias, os casais não podem ter filhos, sob pena de terem de deixar o serviço. Por outro lado, as seitas neo-pentecostais não são tão dissimuladas - fazem estridentes apelos por dinheiro, enfatizando o 'dízimo' como pré-requisito para as bênçãos divinas. Todavia, o abuso de poder dos cultos não se restringe aos encargos financeiros dos adeptos, mas abrange cada aspecto da vida da pessoa - suas companhias, sua vestimenta ou corte de cabelo, bem como sua visão do mundo. 

     O fenômeno dos cultos não é algo novo. Na verdade, o próprio cristianismo foi considerado pelos romanos do primeiro século como um culto. Posteriormente, a  recém estabelecida Igreja Romana via ela mesma com grande preocupação a difusão de certos movimentos ditos 'cristãos' pelo império - um destes, o gnosticismo, chamava especialmente a sua atenção.  Sobre isso, o historiador Paul Johnson comenta:

"Por mais inconvenientes que pudessem ser os extáticos e 'falantes de línguas' individuais, sempre havia o perigo mais grave de que caíssem sob os encantos de algum excepcional carismático e profeta que constituiria uma contra-Igreja. Assim como as diversas modalidades de gnosticismo punham a personalidade da Igreja em risco de ser capturada e absorvida em uma bagunça desintegradora de cultos sub-helênicos, da mesma forma que os carismáticos poderiam submergir a voz unitária da Igreja sob uma babel de 'profecias'." - História do Cristianismo, p. 64

     Nascido da fusão de filosofias esotéricas com idéias cristãs, o  gnosticismo (do grego gnosis, "conhecimento") tinha por premissa básica a posse de conhecimentos secretos, místicos, os quais permitiriam a elevação espiritual ao mais alto nível. Os cultos em geral têm em comum com o gnosticismo esta mesma idéia - a revelação de conhecimentos especiais, normalmente a um líder ou grupo de líderes, os quais, dotados de carisma e oratória eloqüente, passam a exercer controle mental sobre seus seguidores. Aí começa o problema - uma vez o adepto esteja convencido de que pertence a um grupo especial, portador de uma 'luz' especial, em oposição a todos os demais, os quais se encontram em 'trevas' espirituais, ele perderá seu próprio senso crítico. Enxergará o mundo sob uma ótica maniqueísta - os 'fiéis' versus os 'infiéis'. Suas idéias serão as idéias da figura carismática que dirige o culto. Doravante, ele resistirá a todas as tentativas de fazê-lo examinar os aspectos negativos da crença. Sua vida girará em torno dela, assim como suas relações com aqueles à sua volta, inclusive os familiares. Carreiras promissoras, novas amizades ou até mesmo a saudável convivência com os parentes serão negligenciados ou abandonados em troca de uma dedicação de corpo e alma ao culto. Seu tempo estará preenchido, seus valores, redefinidos, sua mente, inacessível. Até as necessidades materiais da pessoa ou de sua família serão negligenciadas - seu dinheiro destina-se prioritariamente à igreja. Aos poucos, o adepto torna-se como uma espécie de autômato ou 'robô', submisso às idéias emanadas do grupo. Neste estado semelhante a transe hipnótico, ele poderá se converter, como diz o cientista Richard Dawkins, em um "míssil desgovernado da religião". Muitos destes 'mísseis' já atingiram em cheio a história da humanidade, desde épocas remotas. Examinemos alguns episódios históricos...

    No decorrer do dramático século XIV o flagelo da 'peste negra' dizimou mais de um terço da população da Europa. No turbilhão da praga, um estranho culto ajudou a aumentar os números. Seus adeptos chamavam-se 'Flagelantes' e peregrinavam pelos lugarejos onde a doença se espalhava. Em cada vila ou cidade, realizavam um macabro ritual, no qual alguns membros tinham o corpo dilacerado por chicotadas - um ritual de expiação, o qual supostamente aplacaria a ira de Deus. As feridas abertas aparentemente só facilitaram a disseminação da doença. Como se isto não bastasse, muitas pessoas foram executadas em praça pública - resultado direto do fanatismo e da intolerância dos Flagelantes.

 

Flagelantes (1348) - epidemia e fanatismo

     

     Seiscentos anos de avanço do conhecimento científico não fizeram do século XX uma época mais afortunada no que diz respeito ao morticínio relacionado a cultos. A seguir, apresentamos um retrospecto dos mais lamentáveis episódios que mancharam o altar de sangue humano neste século:  

    Agosto de 1969 - A bela atriz Sharon Tate - esposa do diretor cinematográfico Roman Polanski  e grávida de 8 meses - foi raptada em sua casa, torturada e executada a punhaladas em um macabro ritual. Alguns amigos do casal, presentes na residência, também foram mortos. Seus assassinos eram seguidores de um demente chamado Charles Manson. Oriundo de uma família esfacelada, passou sua adolescência cometendo pequenos delitos e entrando e saindo de reformatórios. A partir de 1967, sentiu-se atraído pelo estilo de vida hippie e reuniu um bando de drogados como discípulos, em sua maioria mulheres. Ele pregava uma espécie de 'Armagedom racial', no qual pessoas da raça negra assassinariam brancos. Todavia, não sendo capazes de sustentar a civilização, os negros seriam sobrepujados pelos membros do culto "Família Manson", os quais assumiriam o controle do mundo. Os motivos do massacre não ficaram muito claros. Alguns especialistas afirmam que Manson criou, na verdade, um culto de adoradores de 'Lúcifer'. Em face da fama do casal vitimado, o crime alcançou larga repercussão pelo mundo inteiro.

                      Manson, o líder...

...seus seguidores,

...e a vítima.

 

     Novembro de 1978 - Em Jonestown, Guiana Inglesa, cerca de 900 adeptos do culto "O Templo do Povo", sob as ordens de seu líder, Jim Jones, cometem suicídio bebendo uma mistura de cianureto e tranqüilizantes. Os pais, antes de se matarem, envenenam as crianças lançando a mistura em suas bocas por meio de seringas. Os adeptos que se recusavam a beber eram baleados. Ao final, o próprio Jones também se matou, com um tiro na cabeça. A comunidade estava sob investigação das autoridades por violações dos direitos humanos e seus membros assassinaram representantes do congresso norte-americano, que haviam sido enviados ao local para averiguação. Jones havia emigrado dos EUA com seu grupo - sob uma onda de denúncias - e gozava de prestígio divino entre seus seguidores, chegando a ter como concubinas as esposas dos fiéis. Na verdade, ele se considerava a reencarnação de Jesus Cristo e tinha visões de um apocalipse nuclear. 

Jones, o líder... ...e as vítimas.

 

     Fevereiro de 1993 - Após 51 dias de cerco policial, uma brigada das forças especiais dos EUA tenta invadir o quartel general do culto "Ramo dos Davidianos". Seus membros estavam entrincheirados e fortemente armados, já tendo abatido a bala quatro agentes federais americanos e ferido outros dezesseis. O resultado foi um terrível incêndio que liquidou a maioria dos fiéis. O culto originou-se de um grupo dissidente da Igreja Adventista do Sétimo Dia e passou a estar, a partir dos anos 80, sob a liderança de Vernon Howell, um convertido que adotou o nome de David Koresh, numa alusão ao rei israelita Davi e ao monarca persa Ciro. Ele se considerava um messias retornado e pregava a vinda de eventos apocalípticos sobre sua comunidade, após os quais o antigo reino israelita seria restabelecido na terra. Assim, restaurou o antigo costume da poligamia, tomando por concubinas diversas seguidoras. Após denúncias de abusos físicos e porte ilegal de armas, o governo decidiu intervir, cumprindo a 'profecia' de Koresh, com conseqüências catastróficas. O líder do culto morreu com um tiro na cabeça. A contagem final foi de 85 mortos.

Koresh, o líder... ...e o desfecho.

 

     Outubro de 1994 - 53 adeptos do culto "Ordem do Templo Solar" cometem suicídio simultaneamente em diversos pontos da Suíça e do Canadá. Outros 18 membros também encontrariam a morte. Algumas vítimas eram crianças e foram mortas de três maneiras: baleadas, sufocadas ou envenenadas. O líder do grupo, um médico homeopata chamado Luc Jouret, estava entre os mortos. Estranhamente, a maioria dos seguidores de Jouret tinha elevado nível cultural. O culto aparentemente havia herdado sua liturgia da antiga Ordem dos Cavaleiros Templários, da Idade Média. Como se tornou uma seita suicida, ainda é assunto de discussão. Uma carta redigida pelo líder declara que os fiéis estavam "deixando a terra para encontrar uma nova dimensão de verdade e absolvição, longe das hipocrisias deste mundo".

Jouret - estranha combinação de intelectualidade e fanatismo.

 

      Março de 1995 - 12 pessoas morrem e outras 5 mil são hospitalizadas como resultado de um ataque de gás "sarin"  em uma estação do metrô de Tóquio - Japão. Os responsáveis pelo atentado foram os membros do culto "Verdade Suprema", fundado por Shoko Asahara, um fanático que se considera a reencarnação de Buda. Mantendo controle mental absoluto sobre seus seguidores, ele havia reunido um arsenal em armas de fogo e materiais para guerra química. Seu objetivo - 'agilizar' o apocalipse. Seu grupo foi acusado de realizar também seqüestros e assassinatos de dissidentes e advogados de ex-membros. Supõe-se que seguidores da "Verdade Suprema" estejam por trás de outro ataque com gás similar ao de Tóquio, ocorrido na cidade de Matsumoto, em 1994, do qual resultaram 7 mortos e 144 feridos. Asahara criou uma seita milionária, com patrimônio estimado em até 1 bilhão de dólares. Seus seguidores chegam a 10 mil no Japão e uns 40 mil em outros países. Enquanto o anunciado 'fim do mundo' não chega, o líder do culto aguardará por ele na cadeia, onde se encontra até este dia.

Asahara - 'apressando' o 'fim do mundo'.

 

     Março de 1997 - 39 membros do culto "Portal do Paraíso" - uma seita ufológica - decidem se "livrar de seus corpos" cometendo suicídio coletivo. Seu objetivo era o de libertar seus espíritos para que embarcassem em uma espaçonave na cauda do cometa Hale-Bopp, numa jornada em direção ao paraíso. As vítimas tinham entre 26 e 72 anos de idade. Elas ingeriram uma associação de vodka e barbitúricos, após o que deitaram-se tranqüilamente em suas camas, à espera da morte. Para apressá-la, uns dos membros foi designado para sufocar as vítimas. Os corpos foram encontrados em uma mansão no rancho Santa Fé, ao norte de San Diego - California. O ambiente estava limpo e arrumado e os mortos, portando identificação. Um manuscrito da seita declara: "Alegramo-nos de que nosso Membro Ancião no Nível Evolucionário deixou claro para nós que a aproximação do Hale-Bopp é o 'sinal' pelo qual estávamos esperando... Nossos 22 anos de aprendizado aqui no planeta terra estão finalmente chegando à sua 'graduação' final do Nível Evolucionário Humano. Estamos alegremente preparados para deixar 'este mundo'..." O 'membro ancião' a que o documento se refere  corresponde ao fundador do culto, Marshall Applewhite, um professor de música que vivia atormentado por sua homossexualidade. Em razão disso, chegou a submeter-se a uma castração cirúrgica. Sua personalidade apresentava traços claros de esquizofrenia. Ainda assim, conseguiu arrebanhar discípulos que também se submeteram à castração, antes de o seguiram felizes, na morte.

Applewhite, o líder... ...e uma de suas vítimas.